Eleições nos EUA: Republicanos na coleira de Trump

    Progresso Americano (uma representação do destino manifesto) , pintura de John Gast (Berlim, 1842-Nova Iorque, 1896).

    Um tema que ganhou as manchetes dos jornais dos Estados Unidos nas últimas semanas foi a operação do FBI na casa de Trump, na Flórida, para buscar 11 caixas de documentos classificados como ultrassecretos que ele, alegadamente, levou para casa quando deixou a Casa Branca depois da fracassada tentativa de golpe para impedir a posse de Joe Biden. Essa é apenas mais uma e a mais recente das complicações de Trump com a Justiça norte-americana. Não há nenhum ex-presidente dos Estados Unidos que tenha acumulado tão grande número de investigações, acusações e processos como Trump.

    Se, por um lado, isso é um problema, pois pode, além de colocá-lo na cadeia, levar à cassação de seus direitos políticos e torná-lo inelegível, em 2024, por outro lado, permite a ele  posar de vítima e reforçar o discurso de perseguição junto à sua fiel base de eleitores. É possível até que ele antecipe o lançamento de sua candidatura para as eleições presidenciais de 2024 como estratégia para caracterizar os processos a que está respondendo como perseguição política. E a fidelidade do eleitorado republicano – 65% de aprovação nas pesquisas e 70% acham que a eleição foi roubada – autorizou-o a tomar de assalto o partido Republicano e esmagar qualquer um que ouse desafiá-lo, criando uma situação paradoxal. Mesmo sendo investigado por uma longa lista de possíveis crimes que podem levá-lo à cadeia, como desaparecimento de documentos nacionais, ataque ao Capitólio, fraude em transferência de fundos arrecadados, manipulação das eleições na Georgia, fraudes imobiliárias e até um suposto caso de estupro da ex-escritora da revista Elle, E. Jean Carroll,  em uma loja de departamentos na década de 1990, uma única palavra de Trump pode acabar com a carreira política de qualquer inimigo seu dentro do partido Republicano, por mais ilibada que seja sua reputação.

    O caso mais recente foi o das eleições primárias no Wyoming, para escolher o candidato republicano da única cadeira deste estado para a Câmara dos Representantes que estará em disputa nas eleições de meio-mandato em novembro próximo. A atual ocupante da cadeira é Liz Cheney, da “realeza” republicana, filha do ex-vice presidente Dick Cheney, que antes de se tornar vice-presidente no governo Bush (2001-2009), ocupou a mesma cadeira continuamente desde 1978. Nas eleições de 2020, Liz Cheney venceu as primárias com 73% e, nas eleições, venceu o candidato democrata por uma diferença de mais de 30 pontos. Mas agora, nas primárias realizadas em agosto, ela foi derrotada pela candidata apoiada por Trump por uma diferença de 35%. Ela é apenas mais uma vítima da ira de Trump contra deputados e senadores republicanos que não concordaram em apoiar sua “Grande Mentira”. Liz Cheney é uma dos 10 republicanos que votaram pelo impeachment de Trump em função de sua conduta antes e durante o ataque ao Capitólio.

    Há, obviamente, potenciais candidatos no campo republicano para 2024, inclusive entre os aliados de Trump, como o governador da Flórida, Ron DeSantis, mas nenhum deles, exceto os que já se declararam inimigos de Trump, como Liz Cheney, ousará desafiá-lo. Ou seja, nas condições atuais, Trump não será o candidato republicando, em 2024, apenas se não quiser ou se a Justiça o impedir de concorrer. Mas a política sempre pode dar suas voltas.

    Luís Antonio Paulino é professor associado da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e membro da equipe de colaboradores do portal “Bonifácio”.

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    2 COMENTÁRIOS

    1. Falar em fraudes nas eleições é fácil.
      Não tão fácil é apresentar as provas ou evidências.

    2. Gostei do artigo do Paulino; enxuto, objetivo e imparcial, como deve ser.
      Embora eu particularmente tenha muitas objeções ao Trump, mas baseado na opinião de vários amigos americanos, alguns Democratas e outros Republicanos, sim, há dúvidas de fraudes nesta eleição! Segundo essas pessoas, existe muitas suspeitas de fraudes, pelo eleitorado americano, assim como na eleição brasileira, que deu a vitória à Dilma sobre o Aécio.
      Parece que foi dessa forma, que Deus nos protegeu dessa pessoa.

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