Yaku Pérez e as eleições no Equador: o cavalo de troia das potências estrangeiras

No último dia 7 de fevereiro, ocorreu o primeiro turno das eleições presidenciais equatorianas. Contrariando as principais pesquisas divulgadas antes do pleito, o candidato do partido indigenista Pachakutik, Yaku Pérez, alcançou expressiva votação, ameaçando a já anunciada polarização entre Andrés Arauz (da Unión Por la Esperanza – UNES), candidato apoiado pelo ex-presidente Rafael Correa e setores progressistas, e o banqueiro Guillermo Lasso (do Movimiento Político Creando Oportunidades – CREO), das correntes conservadoras.

       Com seus 1.797.455 votos (19,39%), Pérez esteve muito perto de ultrapassar Lasso, que obteve 1.830.045 (19,74%), o que garantiria o enfrentamento no segundo turno com Arauz, que atingiu a marca de 3.033.753 votos (32,72%). O conjunto do processo de apuração foi marcado por uma série de reviravoltas, com a pequena diferença entre Pérez e Lasso sendo alvo de denúncias e por vezes levando a crer que o candidato do Pachakutik lograria avançar ao segundo turno. No entanto, o resultado oficial sacramentou o confronto entre Arauz e Lasso, que ocorrerá no próximo dia 11 de abril.

Yaku Pérez, financiado pelo estrangeiro para sabotar o desenvolvimento o Equador.

       A incomum ascensão da candidatura de Pérez, marcada por uma assertiva retórica envolvendo preceitos indigenistas, ambientalistas e de voraz ataque à candidatura correísta de Arauz, pode, num primeiro momento, soar como um suposto avanço de uma força progressista na sociedade equatoriana. Entretanto, uma análise mais pormenorizada da trajetória de Pérez e do próprio Pachukutik nos permite escapar rapidamente das armadilhas semânticas que marcam a tônica de seus discursos.

       O Movimento de Unidade Plurinacional Pachakutik-Novo País (MUPP-NP) foi fundado em 1995, constituindo plataforma política que abarcava diversos movimentos sociais. Desde 1996 disputa oficialmente eleições no Equador. Em sua composição, predominam as orientações da Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (CONAIE), movimento indígena constituído em 1986, que detém no centro de sua agenda as reivindicações vinculadas com a posse de territórios e recursos naturais, a preservação do meio-ambiente e a defesa da diversidade cultural do que chamam de “nações indígenas” equatorianas. Junto dela, constam nas fileiras do MUPP-NP uma infindável lista de organizações não-governamentais, em grande parte financiadas a partir do exterior.

Organizações indígenas do Brasil pedem intervenção colonial contra o País na Europa.

Ao longo dos governos do ex-presidente Rafael Correa (2007-2017), de orientação desenvolvimentista, as relações entre o Pachakutik e o presidente foram extremamente conturbadas, com o partido indigenista protagonizando contundentes críticas ao modelo econômico “extrativista”, e insistindo reincidentemente numa campanha contrária |à exploração petrolífera das reservas alocadas no parque nacional Yasuní, na Amazônia equatoriana.

Referente a Yasuní, Correa chegou a propor à comunidade internacional manter intocados os cerca de 856 milhões de barris de petróleo potencialmente existentes na reserva, com a condição de que aceitassem ressarcir cerca de 50% dos lucros então previstos para o país. Evidentemente, acabou por não receber apoio de tal comunidade, o que legitimou sua decisão em prol do prosseguimento nas atividades de exploração, visando garantir recursos para a manutenção do processo de fortalecimento do Estado equatoriano. Mas nem mesmo tal acontecimento sensibilizou a retórica do Pachakutik e suas lideranças, que em nome da intocabilidade do meio-ambiente prosseguiram, junto de ONGs e jornalistas internacionais, a conduzir uma extensa campanha de difamação aos intentos desenvolvimentistas do presidente.

Por detrás das bandeiras identitárias, ambientalistas e indigenistas, constam os mais escusos interesses estrangeiros, que logram enraizamento em nossas sociedades por meio dos tentáculos de fundações e organizações não-governamentais estrategicamente situadas em segmentos políticos, midiáticos e acadêmicos. Conforme Benjamín Norton assinalou [1], as principais lideranças do Pachakutik estiveram conectadas aos programas de formação política do Instituto Nacional Democrata (National Development Institute – NDI), uma subsidiária da CIA que atua sob supervisão da famosa National Endowment Democracy (NED). A própria prestação de contas da NED [2] assume o repasse de mais de 5 milhões de dólares da entidade para ONGs no Equador entre 2016 e 2019, a maioria destes assumidos contendores do correísmo, tal como o Pachakutik.

Tal atividade do Pachakutik e seu candidato fantoche Yaku Pérez não constitui, portanto, ato acidental ou isolado no contexto continental. Afinal, uma série de ONGs e organizações políticas financiadas por potências norte-atlânticas se orientam nesse sentido, desgastando politicamente governos de orientação desenvolvimentista, e obstruindo a maior presença dos Estados nacionais em regiões reconhecidamente detentoras de amplos recursos naturais. Como já detalhado em texto anterior publicado no Portal Bonifácio [3], eventos semelhantes transcorrem reincidentemente nos demais países vizinhos. Na Bolívia, as campanhas de inviabilização de obras governamentais de infraestrutura na região amazônica também partiram de fontes semelhantes, com a participação de ONGs como o Centro para a Democracia, a Avaaz e a Amazon Watch (vinculadas à Fundação Rockefeller, à Fundação David e Lucile Packard, à Fundação Ford, dentre outras), e ativo patrocínio da USAID à principal organização indígena boliviana, homônima da CONAIE equatoriana, a Confederación de Pueblos Indígenas del Oriente Boliviano (CIDOB). No Brasil o movimento indigenista colonial copia os métodos e busca as mesmas fontes de financiamento de seus congêneres bolivianos e equatorianos. Recentemente, a APIB, uma associação nacional de entidades indígenas, promoveu uma turnê pela Europa, convocando uma intervenção colonial contra o Brasil a pretexto de defender os justos direitos das populações indígenas.

       Como bem observou o professor e antropólogo José Antônio Figueroa [4], a ascensão das teorias neoindigenistas teve no centro de suas análises a construção de imagens persuasivas dos indígenas latino-americanos como essencialmente opostos aos Estados nacionais, à integração social e ao desenvolvimento econômico. Assim, não raras vezes o essencialismo étnico age enquanto elemento de fustigação às ações fundamentais operadas pelo Estado nacional, como a recuperação e investimento em setores estratégicos da economia, além de iniciativas vinculadas à educação, prestação de serviços públicos essenciais, garantia da soberania energética e alimentar, e até mesmo a afirmação do monopólio estatal do uso da força.

       É desse vácuo que se valem os cavalos de troia das lutas fragmentárias e identitárias, escondendo por detrás de um discurso progressista, supostamente renovador, as mais velhas aspirações das grandes potências: o debilitamento de nossos Estados nacionais, visando se apoderar de nossos vastos recursos naturais.

A derrota de Yaku Pérez e do Pachakutik no Equador é, portanto, um evento a ser comemorado, e de necessária reflexão para impedir que seus pares reproduzam tais armadilhas nos países vizinhos.

[1] Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2021/02/10/el-candidato-ecosocialista-de-ecuador-yaku-perez-apoya-golpes-de-estado

[2] Disponível em: https://www.ned.org/wp-content/themes/ned/search/grant-search.php?organizationName=&region=&projectCountry=Ecuador&amount=&fromDate=&toDate=&projectFocus[]=&projectFocus[]=&projectFocus[]=&projectFocus[]=&projectFocus[]=&projectFocus[]=&projectFocus[]=&projectFocus[]=&projectFocus[]=&projectFocus[]=&projectFocus[]=&projectFocus[]=&projectFocus[]=&projectFocus[]=&search=&maxCount=25&orderBy=NewYear&start=1&sbmt=1

[3] NOGARA, Tiago. O conflito do TIPNIS na Bolívia e a sabotagem ao desenvolvimento na América Latina. Portal Bonifácio, 2020. Disponível em: https://bonifacio.net.br/o-conflito-do-tipnis-na-bolivia-e-a-sabotagem-ao-desenvolvimento-na-america-latina/

[4] FIGUEROA, J. A. (2006) “Equador” en SADER, Emir & JINKINGS, Ivana (coordinadores). Enciclopédia Contemporânea da América Latina e do Caribe. São Paulo: Boitempo.

5 COMENTÁRIOS

  1. Aqui Brasil temis um estudioso o Alexandre costa

    Pesquisador da ordem mundial

    E nosso ministro meio ambiente conhece bem esses esquemas ongs.

    Pode entrevista-los?

    Vamos fortalecer ideias.

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