2021 foi um ano difícil para o Joe Biden. 2022 pode ser pior.

Quando no dia seis de janeiro de 2021 o Congresso dos Estados Unidos confirmou a vitória de Joe Biden como o 46º presidente norte-americano o mundo respirou aliviado. Afinal, ter no comando da maior potência militar e econômica do planeta um sujeito mentalmente desequilibrado como Donald Trump era uma ameaça não só para os Estados Unidos, mas para todo o mundo.

O eleitorado viu em Biden não propriamente um líder carismático capaz de energizar multidões em torno de um projeto político para fazer a “América Grande de Novo”, mas o sujeito tranquilo, em fim de carreira, mas com a experiência e o bom senso necessários para reconduzir um país à beira de uma nova guerra civil de volta ao diálogo e à normalidade.

Passado um ano daqueles acontecimentos dramáticos, parte do eleitores que garantiram a vitória de Biden parece ter perdido a confiança de que ele seja capaz de realizar tal tarefa. Pelo menos é o que dizem as pesquisas, que apontam 48% de desaprovação dos americanos ao seu governo, o mesmo percentual dos que aprovam. Afinal, se Biden não consegue unir nem seu próprio partido para implementar as propostas de campanha na área social e no combate às mudanças climáticas, que dirá unir um país rachado de alto a baixo.

Para complicar as coisas, ao acolher algumas pautas identitárias da chamada ala progressista dos democratas, Biden se distanciou da posição centrista que lhe garantiu os votos de um segmento da sociedade americana, que apesar de rejeitar o comportamento irresponsável e egocêntrico de Trump também não se identifica com determinados temas como o ensino da chamada teoria racial crítica nas escolas, o uso de banheiros por estudantes transgênero, e veem com preocupação o problema da imigração e a crescente violência urbana.

A derrota do candidato democrata na eleição para governador, realizada em novembro, no estado da Virgínia, onde Biden venceu Trump por uma margem de dez pontos para um candidato neófito do partido republicano que martelou o tempo todo no tema do direito de as famílias decidirem sobre a educação dos filhos revela o quanto certos temas dividem a população americana.

A vitória suada do candidato democrata em Nova Jersey, estado tradicionalmente democrata, também demonstra o atual estado de espírito de parte do eleitorado americano que votou em Biden no ano passado, mas não está satisfeito com os rumos atuais de seu governo e do país.

Jack London, escritor símbolo do mundo progressista norte-americano, agora alvo do revanchismo identitário.

Certas iniciativas tomadas a pretexto de reparar as injustiças históricas contra as minorias étnicas pouco contribuem para enfrentar os problemas reais e muito menos para pacificar o país. Em Oakland, cidade vizinha de São Francisco, na área da Grande Baía, há um movimento para retirar uma estátua de Jack London, escritor e jornalista autor de clássicos como “Tacão de Ferro” e “O Povo do Abismo”, e o nome dele da praça onde está localizada sua estátua, sob a acusação de racismo. Quando as coisas chegam a esse ponto é sinal de que o que se supunha remédio pode estar se transformando em veneno.

Não fosse tudo isso o bastante para complicar a vida de Biden, a margem apertada dos democratas no controle das duas Casas no Congresso torna as coisas ainda mais difíceis, sobretudo no Senado, onde as 100 cadeiras estão divididas meio a meio entre democratas e republicanos e o governo só consegue aprovar suas propostas se todos os senadores democratas as apoiarem de forma unânime, contando ainda com o voto de desempate da vice-presidente, que pelas regras americanas, preside o Senado.

O problema é que dois senadores democratas – Kyrsten Lea Sinema, do Arizona, e Joe Manchin, da Virgínia Ocidental – se negam a votar pela aprovação da menina dos olhos do plano de governo de Biden – ‘Build Back Better’ (Reconstruir Melhor) – que pretende investir US$ 2 trilhões em educação, saúde e mudanças climáticas. Sem o voto unânime dos senadores democratas a proposta não passa e Biden chegará ao segundo ano de seu governo tendo de enfrentar as sempre duras eleições de meio-termo sem seu principal programa transformado em lei e ainda às voltas com o maior nível de inflação dos últimos 39 anos (6,8% em 12 meses, em novembro), o recrudescimento da pandemia da Covid-19 com a nova variante Ômicron e o fiasco da saída das tropas americanas do Afeganistão. É bem verdade que o desemprego nos Estados Unidos chegou ao baixíssimo nível de 3% e a economia americana deve crescer 6,5% em 2021, mas, no momento, as apostas são de que os democratas poderão perder o controle do Senado e até mesmo da Câmara nas eleições de meio-termo, em 2022. Mesmo porque as eleições de meio-termo nos Estados Unidos geralmente favorecem a oposição.

Nas últimas semanas de dezembro, o presidente Joe Biden teve inúmeras conversas com o senador Joe Manchin. Aparentemente, tinham chegado a um acordo sobre a aprovação do pacote de investimentos na área social e controle de mudanças climáticas, mas, para surpresa geral, em uma entrevista para a rede de televisão Fox News, na noite de domingo, 19 de novembro, o senador Manchin anunciou que não poderia apoiar a legislação proposta por Biden. Trata-se de posição difícil de compreender uma vez que o estado da Virginia Ocidental é um dos mais pobres dos Estados Unidos e parcela expressiva de sua população seria beneficiada pela nova legislação social.  Tudo indica que senador Joe Manchin e sua colega do Arizona estão mais preocupados com seus financiadores de campanha que não veem com simpatia muitas das propostas de Biden. No caso da Virginia Ocidental, a principal atividade econômica é a indústria do carvão e o senador Manchin antes de ir para a política fez fortuna em uma empresa de corretagem de carvão. A indústria do carvão obviamente não vê com bons olhos certas medidas no pacote que visam promover a transição da matriz energética para energias limpas. 

Está pouco claro, no momento, como Biden e a liderança democrata pretendem conduzir a questão. O líder da maioria no Senado, Charles E. Schumer (D-N.Y.), disse que, de qualquer forma, encaminharia a votação do pacote em janeiro próximo. Biden continua apostando em um acordo com o senador Manchin. Mesmo depois de Joe Manchin ter rompido publicamente com a palavra dada, Biden afirmou, conforme relata o New York Times (21/12): “O senador Manchin e eu vamos fazer algo”. A ver.

Luís Antonio Paulino é professor associado da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e membro da equipe de colaboradores do portal “Bonifácio”.

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