Alemanha-Rússia: a doença da arrogância

Resenha Estratégica Vol. 18 – nº 14 – 14 de abril de 2021. Elisabeth Hellenbroich, de Wiesbaden

No final de março, o conhecido “kremlinologista” alemão Alexander Rahr teve publicado o seu livro mais recente, intitulado “Arrogância: como a Alemanha joga fora a sua reputação com os russos” (Anmaßung: Wie Deutschland sein Ansehen bei den Russen verspielt, Das Neue Berlin, 2021), no qual apresenta uma visão objetiva de como os russos veem hoje a Alemanha. Segundo ele, o livro é “um grito desesperado, para que tudo seja feito para salvar as relações germano-russas”, que estão em frangalhos desde a ocupação da Crimeia e o caso Navalny. De acordo com todos aqueles que são hoje depreciativamente chamados na Alemanha de “entendedores da Rússia”, é um fato que qualquer diálogo futuro só será possível se ambos os lados se dispuserem a “ouvir” cuidadosamente os argumentos um do outro e tentarem reconstruir a confiança.

No momento, parece quase impossível retomar qualquer tipo de diálogo e confiança, em vista do ambiente quase histericamente carregado na Alemanha e a decepção dos líderes políticos russos com a Alemanha. Um exemplo é uma entrevista de 1º de abril do chanceler Sergei Lavrov ao programa “Grande Jogo” do Canal 1 russo, na qual fez uma ampla abordagem sobre o papel da Rússia na atual configuração geoestratégica. Ele deixou claro que, no momento, a Rússia não tem ilusões em relação ao presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e sua agenda de política externa, em particular, em relação à Rússia, União Europeia (UE) e Ásia.

Questionado sobre a entrevista de Biden à rede ABC, na qual chamou o presidente Vladimir Putin de “assassino”, Lavrov enfatizou que há uma “degradação consistente da infraestrutura de dissuasão nas esferas militar, política e estratégica, onde o termo guerra está sendo usado com mais frequência”. Ele situou isto no contexto de uma série de cancelamentos de tratados de redução de armas, inclusive, a decisão estadunidense de abandonar o Tratado ABM de mísseis antibalísticos, seguido pelo estabelecimento de um sistema de defesa antimísseis na Europa (alegadamente dirigido contra o Irã), que, de acordo com Lavrov, é parte de um “projeto global projetado para conter a Rússia e a China”. O mesmo processo está em andamento na região da Ásia Pacífico. Lavrov enfatizou que o sistema global é projetado para apoiar as “reivindicações de domínio absoluto dos EUA”, incluindo as ameaças militares e as esferas nucleares, que seguem em linha com um “avanço imprudente para o Leste das instalações construídas pela OTAN”.

Sobre a sua recente viagem à China (23-24 de março), Lavrov a descreveu como um país que pensa em termos de “um futuro histórico de longo prazo, e não em ciclos eleitorais”.

Especificamente, referiu-se à declaração comum assinada com seu colega chinês Wang Yi, a respeito de certas questões atuais de governança global, em que ambos enfatizaram a “inaceitabilidade de se violar o Direito Internacional ou substituí-lo por algumas regras de interferência elaboradas secretamente nos assuntos internos de outros países e, em geral, tudo que contradiz a Carta da ONU”.

Lavrov anunciou que, em breve, outro documento será assinado pelos presidentes Putin e Xi Jinping, dedicado ao 20º aniversário do Tratado de Amizade e Cooperação. Ao mesmo tempo, ressaltou que a Rússia “não perseguirá o objetivo de uma aliança militar com a China”. Ele se mostrou muito cético em relação ao atual estado de espírito da UE, que percebe como uma ressurgente “lealdade à Guerra Fria”. Apesar das mais de três décadas de relações entre Moscou e Bruxelas, Lavrov deixou claro que, no momento, esta porta está “fechada”. Embora a UE tenha sido originalmente concebida como uma “aliança de cooperação econômica”, afirmou, agora está cada vez mais adotando um “estilo missionário” e, por isso, “não vamos bater em uma porta trancada. Os nossos valores comuns residem em nossa história, a influência mútua de nossas culturas, literatura, arte e música”.

Ele se referiu à ultrajante cúpula EUA-China em Anchorage, em março, na qual o conselheiro de Segurança Nacional Jake Sullivan e o secretário de Estado Antony Blinken pretenderam “ensinaram os chineses sobre direitos humanos, minorias étnicas e democracia na China”. Para Lavrov, a UE quer “substituir o Direito Internacional por suas próprias regras e os EUA estão promovendo esses valores como uma ferramenta para garantir o seu domínio”. Ademais, disse, os EUA e a UE estão “ativos na Ásia Central, tentando criar os seus próprios formatos” e “buscam uma meta inequívoca de enfraquecer nossos laços com nossos aliados e parceiros estratégicos de todas as maneiras possíveis”. Da mesma forma, haveria tentativas em direção à região Indo-Pacífico e Afeganistão – tudo planejado para enfraquecer os seus laços com a Federação Russa.

Um grito de desespero

O livro de Rahr deve ser estudado no contexto exemplificado pela entrevista de Lavrov. O livro enfoca a narrativa russa e descreve como foi destruída a confiança entre a Rússia e a Alemanha, construída ao longo de 30 anos por pioneiros como Mikhail Gorbatchov, Helmut Kohl e Hans-Dietrich Genscher. Rahr observa que, em 2021, quase um terço da população alemã qualifica a Rússia como “perigosa” no que diz respeito à sua segurança, em contraste com 2019, quando a proporção era de apenas 6%. Hoje, afirma, os alemães parecem estar mais interessados nas relações transatlânticas e no respeito dos EUA do que nas relações com a Rússia. O próprio Rahr foi criado no Ocidente como filho de uma família de emigrantes russos. Desde a queda do Muro de Berlim, ele fez cerca de 300 viagens à Rússia, participando ativamente do Diálogo de São Petersburgo e do Centro Eurasiático da Sociedade Alemã para Política Exterior, além de ser assessor da empresa russa Gazprom. Rahr, que é detentor da Ordem do Mérito da República Federal da Alemanha, escreveu este livro, em suas palavras, como “um grito de desespero – salvem as relações germano-russas e levem em consideração a visão dos russos!”

No início do livro, Rahr lembra ao leitor que, este ano, celebra-se o 80º aniversário da agressão de Hitler contra a União Soviética, uma guerra de aniquilação contra o regime bolchevique. Em meio à II Guerra Mundial, o pior conflito da História, em quatro anos, a URSS perdeu 27 milhões de pessoas, a metade delas civis; a Alemanha teve 7 milhões de mortos, um terço civis. Em termos de “cultura da memória coletiva”, a Rússia e a Alemanha recordam o conflito de maneiras diferentes, mas, como observa Rahr, “o futuro de todo o continente europeu depende de uma verdadeira reconciliação e de boas relações entre as duas nações que já foram adversárias”.

Este ano marca também o 20º aniversário do discurso de Putin no Parlamento alemão (quase todo proferido em alemão, idioma que Putin domina), no qual declarou o fim da Guerra Fria e propôs uma parceria construtiva. Porém, os alemães aceitaram a oferta? Na verdade, não, diz Rahr. Dez anos depois, a Alemanha cancelou a “parceria de modernização” com a Rússia, sob o pretexto de que a Rússia se afastara da democracia.

Hoje, o caso do alegado envenenamento de Alexei Navalny, que, provavelmente, nunca será esclarecido, “envenenou” as relações bilaterais, observa Rahr. O conhecido cientista político russo Dmitri Trenin fala sobre “o amargo fim de uma relação especial estratégica entre a Rússia e a República Federal da Alemanha”. A Alemanha não é mais a nação preferida da Rússia na Europa. Os think-tanks alemães aconselham o governo a “tratar a Rússia como um adversário” (às vezes, até mesmo como um “inimigo”) e lidar com Moscou a partir de uma posição de força, como chegou a afirmar a ministro da Defesa Annegret Kramp-Karrenbauer, enquanto a influente revista Der Spiegel escreveu emeditorial que a Alemanha deveria realmente “machucar Putin”.

Diferenças de caráter: o que os russos gostam e não gostam nos alemães O livro de Rahr se baseia em uma série de discussões mantidas por ele durante o ano passado com diferentes representantes da Rússia, inclusive, pesquisadores acadêmicos, diplomatas e empresários de alto escalão, além de uma pesquisa com russos nativos que vivem na Alemanha e representantes do Parlamento da Juventude da Rússia.

Um jovem russo nascido em 1988 expressou admiração pela disciplina e laboriosidade, além do modo de vida pragmático dos alemães. No entanto, como outros da sua faixa etária, manifestou desencanto com o que percebem muitas vezes como uma “profunda falta de humor” e “arrogância” do lado alemão em relação aos russos. Um jovem empresário russo ficou surpreso com o profundo respeito que os alemães demonstram pelos EUA, que, por sua vez, se expressa em um “tom de mestre-escola” em relação aos russos. Os alemães costumam ter uma atitude “moralizante” ao tentar ensinar os outros, como se tivessem o direito de fazê-lo. Em parte, como observou um cineasta russo, isso se explica pelo fato de a vida na Alemanha ser frequentemente conduzida de acordo com estereótipos e clichês políticos. Ele observou que muitos alemães consideram a sua cultura superior às outras, o que perturba os russos.

Um cientista político criticou que a Alemanha menospreza os russos: “Eles não reconhecem os certificados russos e pensam que as instituições alemãs são superiores às russas. Os russos consideram isso humilhante. Por que as normas alemãs devem ser superiores às russas?”

Infelizmente, a história europeia não seguiu o rumo delineado pela conferência da Carta de Paris de 1990, que projetou uma futura ordem de paz no continente. Hoje, os EUA, como a principal potência ocidental, veem a Rússia e a China como um “ameaça” à segurança ocidental e estão empenhados em “manter Moscou em baixo” e, ao mesmo tempo, “longe” da Europa. Segundo um dos interlocutores de Rahr, uma estratégia funcional seria se a Alemanha pudesse convencer os Estados da Europa Central e Oriental, para que entendessem que um conflito com a Rússia representa um risco para a paz para todo o continente, e que a ideia de uma casa europeia comum, de Lisboa a Vladivostok, não deveria desaparecer da História.

Mas a Europa não é mais o centro do mundo. A “era asiática” começou e a salvação da Europa – e os russos veem isso mais claramente do que os alemães – “está na unidade natural da Europa do Atlântico ao Pacífico”, como foi enfatizado por vários interlocutores de Rahr. Todavia, eles admitem que, após o cancelamento da “parceria de modernização” pela Alemanha, seguida pelas sanções da UE e da Alemanha em resposta à anexação da Crimeia, as lideranças russas perceberam que “não podem esperar muito da Alemanha”.

Eles percebem as elites alemãs atuais não apenas como sendo leais à sua orientação transatlântica, mas querendo fortalecer ainda mais estes laços com o novo governo de Joe Biden, mesmo que a população alemã tenha uma visão diferente (apenas 39% consideram as relações com os EUA mais importantes do que com a Rússia). Daí, as elites de Moscou “desanimarem” e ficarem decepcionadas com a Alemanha, um país do qual tanto esperavam antes.

No futuro, a Rússia precisa de parceiros multilaterais, como enfatizou a Rahr um diplomata russo. A sua esperança era de que, talvez, a França pudesse se tornar uma parceira, com Macron se tornando um presidente maduro após as eleições federais alemãs de 2021. Segundo um especialista russo em assuntos europeus, “a Alemanha pode administrar a Europa, mas a França tem a ideia de uma Europa forte e soberana, que conta e que deve dar vida a Berlim”.

Ao final do livro, Rahr relata sobre uma videoconferência entre representantes das indústrias russa e alemã, incluindo a Gazprom, Rosneft, BASF, Daimler, Deutsche Bank e Sberbank. Ao contrário de outros tempos, onde personalidades econômicas e pesos pesados da política, como Otto Wolff von Amerongen, Berthold Beitz, Klaus Mangold e outros, que eram muito estimados na Rússia e tinham ligações telefônicas diretas com o Kremlin, hoje, especialmente após a crise da Ucrânia, que levou a uma significativa queda no comércio bilateral, surgiu uma situação em que os russos perceberam que os empresários alemães consideram o mercado dos EUA mais lucrativo do que o da Rússia.

A percepção entre os empresários russos é que, no caso da construção do gasoduto Nord Stream 2, Washington “humilhou” e tratou a Alemanha como um “vassalo”, com a intenção de quebrar a posição da Rússia no mercado europeu de energia, que mantém há 50 anos. Em uma situação em que a crise da Ucrânia é novamente insuflada pelos EUA e o alerta sobre um potencial novo conflito na Ucrânia, envolvendo a Rússia, é urgente manter os nervos e entender sobriamente que com o início de uma “nova era asiática”, a Alemanha e a Rússia terão que cooperar multilateralmente, incluindo a necessidade de lutar contra novos perigos emergentes do Oriente Médio e da África.

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