Problemas e esperanças pós-pandemia

O abraço de esperança - pintura de João Timane (Maputo, Moçambique - 1990).

Resenha Estratégica – Vol. 18 | nº 02 | 20 de janeiro de 2021

Mario Lettieri e Paolo Raimondi, de Roma

O recente relatório sobre o estado da economia mundial da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) apresenta uma situação bastante preocupante. E, por se basear em dados anteriores à segunda onda da pandemia, as perspectivas para 2021 são ainda piores do que as analisadas nele – isto, independentemente da vacinação contra a Covid-19.

A previsão para o PIB mundial de 2020 é uma queda de 4,25%, com recuperação desse valor em 2021. As maiores perdas na economia dos EUA e na zona do euro, estimadas em cerca de 7,5%, seriam parcialmente compensadas pelo crescimento de 3,5% da China. Em média, ao final de 2022, tanto as economias avançadas como as emergentes poderão ter perdido o equivalente a 4-5 anos de crescimento esperado da renda per capita real.

Para agravar o quadro, segundo a OCDE, os dados são ainda mais sérios para os setores ligados à economia real. A produção industrial global perdeu mais de 10% em relação a 2019 e, em muitos países, ainda permaneceria 5% abaixo dos níveis pré-Covid, nos próximos dois anos.

Assim como na Grande Crise de 2007-08, o comércio mundial também experimentou uma queda excepcional, caindo 16% nos primeiros seis meses de 2019! Ao final do ano, as perdas puderam ser reduzidas, graças à recuperação econômica parcial da China e de outros países asiáticos.

Apesar dos programas de ajuda emergencial implementados por vários governos, para evitar demissões em massa, a taxa de desemprego nos países da OCDE subiu para 7,25%. Na Itália, ainda em 2019, estima-se que 700 mil empregos tenham sido perdidos.

A OCDE traça um horizonte sombrio para a economia mundial pós-pandemia.

É grande o temor da OCDE quanto ao que poderá ocorrer em 2021, quando os programas de apoio poderão diminuir, no contexto de um relançamento incerto da economia. Pode-se antecipar que os níveis de emprego permanecerão por bastante tempo abaixo dos níveis anteriores à pandemia, impactando os seus custos por vários anos e pressionando os salários, a renda e o consumo. Inevitavelmente, os investimentos pararam.

Na primeira metade do ano, apesar dos efeitos negativos sobre a renda das famílias, a poupança chegou a aumentar entre 10-20%, provavelmente, devido ao receio das perspectivas sombrias de futuro. Juntamente com os vários bloqueios, isso resultou em um efeito bola de neve nos setores de turismo, varejo e outros serviços. Espera-se também um crescimento da poupança de cerca de 2% para 2021, o que, obviamente não é positivo como pode parecer.

Realisticamente, um cenário da OCDE para 2021, em comparação com o período prépandemia, prevê uma redução de 7% no comércio mundial, uma redução de 12% nos investimentos, um aumento de 1,7% no desemprego de 1,7% e uma forte deflação, com queda de pelo menos 1,25% nos preços ao consumidor. Em média, nos países avançados, a proporção dívida pública/PIB deverá crescer 7,5% até 2022.

Os mercados financeiros e as bolsas de valores devem, portanto, ser observados atentamente. A OCDE prevê que os choques da pandemia podem levar a uma redução de 1% no capital investido nos negócios, até meados de 2021. O aumento das dívidas, especialmente, a dívida corporativa, pode aumentar em pelo menos 50 pontos base (0,5%) o custo dos prêmios de risco. Globalmente, em 2021, também se estima uma queda de 10% nos preços das ações e de 15% nos das commodities não-alimentícias tendências que, espera-se, possam ser superadas até 2022.

Os sistemas bancários também terão de enfrentar uma série de problemas, começando, obviamente, pelo crescimento das inadimplências nos empréstimos. É claro que as perdas de produção e receita que todos os setores produtivos estão sofrendo criarão enormes dificuldades para as empresas e famílias possam saldar as velhas e possíveis novas dívidas com os bancos.

Todavia, embora a situação esboçada seja muito difícil, não é o fim do mundo. Na história da humanidade, mesmo no turbulento século passado, fomos capazes de responder de forma eficaz e virtuosa às catástrofes de guerras, terremotos e outras pandemias.

Portanto, é essencial que não se perca a oportunidade de realizar as reformas globais necessárias e justas – algo que, no entanto, os governos não fizeram após a Grande Crise de 2008. Olhando o mundo de hoje e a necessidade de torná-lo mais equilibrado e integrado, no espírito dos distantes acordos de Bretton Woods, é oportuno e imperativo enfrentar os desafios do futuro dentro de uma nova arquitetura global a ser definida em conjunto, e não apenas para todos os setores da economia. Em particular, no mundo das finanças, um sistema moderno de crédito produtivo terá que ser criado, em oposição à devastadora desregulamentação financeira e bancária, que criou as conhecidas bolhas especulativas de todos os tipos.

Em nossa opinião, serão inevitáveis novos acordos para o comércio mundial, o sistema monetário internacional, as políticas de investimento e produção, definindo as reais prioridades nas áreas de pesquisa, saúde, cultura, meio ambiente e educação. A pandemia, em sua brutalidade, mostrou como a globalização é uma realidade objetiva, e não um projeto geopolítico de alguém. Ela obrigou governos e povos a buscar formas de colaboração e provou, dramaticamente, que estamos todos no mesmo barco, em uma aldeia comum, onde a pobreza e o subdesenvolvimento não deveriam mais ter lugar.

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