Flertando com uma “estagflação” à Weimar

Solidariedade Ibero-Americana – Vol. 18 – nº 10 – março de 2021

A decisão do Banco Central (BC), em ostensiva demonstração de força da sua recém-conquistada “independência”, de aplicar um aumento de 0,75% na taxa de juros Selic, tem o potencial de agravar ainda mais o já sério quadro da estagnação econômica que se arrasta desde 2015, em meio a uma alta inflacionária e às consequências da pandemia de Covid-19.

O aumento, o primeiro desde 2015, deverá ser seguido por outro equivalente na próxima reunião do Conselho de Política Monetária do banco (Copom), em maio. Ou seja, aumentando ainda mais o custo do dinheiro para a economia real, em um iminente quadro de “estagflação”, letal combinação de baixa atividade econômica e inflação elevada – combustível de alta volatilidade social, principalmente, durante uma pandemia ainda sem controle.

A tendência à “estagflação” se deve, em grande medida, ao caráter “dolarizado” da estrutura das finanças brasileiras, cujo objetivo geral não é fomentar a economia física, mas gerar fluxos financeiros para assegurar o serviço da dívida pública, o “negócio” mais rentável do País desde os anos 1990, bem à frente de qualquer atividade produtiva ligada à economia real, da qual depende a esmagadora maioria dos brasileiros.

A tragédia da República de Weimar teve como importantes protagonistas a inflação e o desemprego.

Além da fria insensibilidade com qualquer fator externo às exigências do mercado financeiro, a decisão do Copom é uma imitação caolha da decisão do governo dos EUA de prosseguir com a política de injeções de liquidez, que ameaça alimentar um perigoso processo inflacionário além das próprias fronteiras do país.

O Brasil de 2021 está longe de ser uma analogia perfeita da República de Weimar. O País não perdeu um conflito militar, não sofreu um bloqueio naval que resultou em centenas de milhares de mortes por fome e doenças e não está sendo obrigado a pagar pesadas reparações de guerra. Não obstante, com as devidas ressalvas históricas, a combinação de estagnação socioeconômica, que se arrasta desde 2015, com a fragmentação entrópica e raivosa da sociedade entre linhas de fratura ideológicas e políticas, que vem de 2013, e os efeitos da pandemia de Covid- 19, agravados pela insistência da subordinação da economia a uma política geral pró-rentista, que ignora as necessidades da economia real, tem o potencial para gerar turbulências do gênero das que foram fatais para a experiência republicana alemã.

Recordando, a República de Weimar é o nome associado à Alemanha do período posterior à I Guerra Mundial, entre 1918 e 1933, ano da ascensão do Partido Nacional-Socialista de Adolf Hitler ao poder. Embora tenha experimentado alguns anos de relativa calma e prosperidade, entre 1924 e 1929, o nome costuma ser mais frequentemente vinculado às turbulências do período, com ênfase nos episódios de hiperinflação, desemprego, descontentamento social e instabilidade política, cuja resultante foi o advento do Terceiro Reich.

No Brasil, o cenário sanitário é calamitoso, com o País assumindo o primeiro lugar no trágico ranking de mortes diárias pelo coronavírus, e com os serviços de saúde de muitos estados e municípios à beira do colapso. Na ausência de uma coordenação centralizada pelo governo federal, os esforços dos outros entes federativos se mostram claramente insuficientes e dificultados ainda mais pela nova cepa nacional do coronavírus (P.1), mais agressiva que as anteriores.

O quadro socioeconômico é nebuloso. Segundo o IBGE, o País registra um recorde de desempregados e desalentados, que se aproxima dos 20 milhões de pessoas. Nas grandes cidades, em especial, empresas de pequeno e médio porte fecham as portas em grande número. Nas palavras do sociólogo José Pastore, professor da Universidade de São Paulo (USP): “O vírus paralisou as pessoas, impedindo que elas fizessem o que sempre fizeram. O ano de 2020 apresentou um verdadeiro abalo sísmico no mercado de trabalho, com uma destruição em massa de pequenas empresas, médias empresas e muitos postos de trabalho (G1, 26/02/2021).”

Em paralelo, o fantasma da inflação volta a assombrar os brasileiros, principalmente, nos alimentos e combustíveis. Os primeiros experimentaram um aumento médio de 15% desde o início da pandemia, em março do ano passado, quase o triplo dos 5,2% da inflação geral no mesmo período. Porém, alguns itens integrantes da cesta básica nacional tiveram altas bem superiores à média, casos do óleo de soja (104%), arroz (76%), tomate (53%), leite longa vida (27%) e carne (18%). Por sua vez, os combustíveis subiram 28,4% nos últimos nove meses; apenas em fevereiro, a alta da gasolina teve um impacto de 42% no índice inflacionário do mês (IPCA).

Para complicar ainda mais, haverá o impacto do indicador (IGPM) que reajusta praticamente todos os contratos vinculados, como energia, serviços públicos em geral e aluguéis, que já registra uma alta superior a 20% no período da pandemia.

Como as finanças nacionais são ancoradas em um dólar “flutuante” definido pelo apetite dos mercados financeiros, a desvalorização de 22% do real frente à moeda estadunidense, ensejada pelas incertezas econômicas e o aumento dos gastos públicos na pandemia, teve impacto direto nos preços internos dos alimentos, agravado pela política de preços internacionais da Petrobras – hoje, muito mais uma empresa “de mercado” que do Estado brasileiro.

Ademais, os preços em dólares mais convidativos aumentaram a demanda externa por produtos agrícolas nacionais, o que, com os exportadores buscando maiores lucros e na ausência de uma política de estoques reguladores, chegou a gerar a necessidade de importação de produtos de que o Brasil é exportador, casos da soja e do arroz.

Vale recordar que, no início de março de 2020, diante de empresários da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), que reclamavam da alta do dólar, de R$ 4,00 para R$ 4,60, e temiam que chegasse a R$ 5,00 até o final do ano, o ministro da Economia Paulo Guedes justificou: “É um câmbio que flutua. Se fizer muita besteira, pode ir para esse nível. Se fizer muita coisa certa, ele pode descer (R7, 05/03/2020).”

Como a moeda estadunidense passou batida pela marca e chegou a R$ 5,89, em maio, o próprio “superministro” proporcionou antecipadamente uma qualificação adequada para a condução oferecida por sua pasta durante a pandemia.

Felizmente, o Brasil não tem nada parecido com a SA, força paramilitar usada pelos nazistas para intimidar – e, em muitos casos, eliminar – os seus adversários, antes de chegar ao poder. Mas tem à sua frente uma situação potencialmente explosiva de estagnação, inflação, desemprego e descontrole sanitário, que pode facilmente resultar em grandes convulsões sociais, as quais podem ser agravadas pela presença de grupos criminosos fortemente armados que controlam boa parte dos territórios das grandes cidades. Por isso, é conveniente recordar certas lições da História.

1 COMENTÁRIO

  1. O Brasil diante de uma grande ameaça precisava ter tomado medidas de prevenção antes do vírus alastrar pelo país inteiro agora fica difícil de controlar a situação.depois de tanta perca humanas. Financeira.desgaste políticos físico mental enfim situação de calamidade publica agora fazer oq

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