Ilusionismo “alucinante”

Ministro Paulo Guedes

A cada dia, o ministro da Economia Paulo Guedes parece aprimorar-se no seu papel de ilusionista encarregado de vender ao distinto público uma imagem rósea de um País que só existe nas planilhas dos tecnocratas ministeriais e operadores do mercado financeiro, no qual a saúde da economia se restringe a pouco mais que os lucros e dividendos bancários e a capacidade do governo de sustentar a ciranda do serviço da dívida pública.

Desde o início de sua gestão “superministerial”, à qual foi guindado sem qualquer experiência prévia em cargos públicos, o “Posto Ipiranga” do presidente Jair Bolsonaro tem se esmerado em cumprir tal função, com frequência, recorrendo a frases de efeito carregadas de preconceitos, em especial, contra os que não integram o seu estrato social. Entre muitas outras, ficou célebre a sua afirmativa de que “os ricos capitalizam os seus recursos, os pobres consomem tudo”, imortalizada numa entrevista à Folha de S. Paulo (03/12/2019).

Agora, o crescimento de 7,3% no PIB (Produto Interno Bruto) esperado para o terceiro trimestre do ano motivou outra delas, a de que a recuperação econômica dos efeitos da pandemia de Covid-19 estaria ocorrendo “em velocidade alucinante” – diante da qual muitos operadores dos mercados preferiram manter as devidas reservas. Como de hábito, o “superministro” omitiu o fator essencial de que o principal “motor” da alta, após uma queda de 5,9% no primeiro semestre, em relação ao mesmo período de 2019, foi o auxílio emergencial concedido pelo governo a 64 milhões de pessoas – o qual ele mesmo tem insistido que não será mantido em 2021. Fora isto, não há qualquer elemento econômico capaz de promover uma recuperação sustentada da economia real, que justifique tal adjetivo, até porque a opção “rentista-mercadista” de Guedes e sua trupe não tem como objetivo mobilizar o conjunto das forças produtivas nacionais em um plano coerente e de visão larga, não só para a superação da estagnação pós-2015, mas, menos ainda, para a reativação de um projeto de desenvolvimento de longo prazo.

Em vez disso, o ilusionista-animador continua acenando à plateia com o aprofundamento do cenário “balcão de negócios”, que inclui a liquidação do que resta do patrimônio estratégico do Estado brasileiro, com a privatização de empresas como a Petrobras (cujo esquartejamento encontra-se em marcha batida), Eletrobras, Casa da Moeda, Correios, Dataprev e, agora, o braço de cadastramento digital da Caixa Econômica Federal, que permitiu a distribuição do auxílio emergencial e, pela primeira vez, deu acesso a dezenas de milhões de pessoas a uma conta bancária.

A propósito, vale recordar outra autoexplicativa frase sua, proferida na Câmara de Comércio dos Estados Unidos, em março de 2019: “Nós estamos vendendo.”

Em contraste com o ilusionismo “alucinante” de Guedes, o índice de desemprego oficial do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) bateu o recorde no final de setembro, atingindo mais de 14 milhões de brasileiros, uma alta de 43% entre maio e setembro. Dificilmente, os truques de prestidigitação do “superministro” serão suficientes para proporcionar qualquer melhora significativa desse preocupante cenário, que requer uma pauta consistente de medidas orientadas para a economia real, e não apenas para a saciedade do seu público pró-rentista.

Artigo publicado na Revista Resenha Estratégica Vol. 17 | nº 42 | 21 de outubro de 2020

2 COMENTÁRIOS

  1. Em termos “estratégicos” não vi luz alguma no artigo, apenas dedicado a tentar desqualificar o ministro.

    • Também tive essa impressão de apenas desqualificar o ministro, agora falar que o Brasil foi um dos poucos países que criou o maior programa de distribuição de renda no menor espaço de tempo, que liberou bilhões pra estados e município que vergonhosamente super faturaram em cima dessa doença… não, isso não se fala!

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