Ambientalismo, novo totalitarismo?

Diogo Oliveira – Biólogo e Antropólogo

O livro O Reich Verde, publicado em 2019 pelo filósofo e jurista belga Drieu Godefridi, cuja versão em português foi recentemente lançada pela Editora Armada, vem em momento oportuno refletir sobre a agenda ambientalista que tem ganhado cada dia mais importância no mundo empresarial, midiático, jurídico e geopolítico.

Como exemplo recente, temos as inúmeras declarações do Secretário-Geral da OTAN, Jens Stoltenberg, e a votação do Conselho de Segurança das Nações Unidas, realizada em 13 de dezembro de 2021, que pretendia estabelecer uma relação genérica entre as “mudanças climáticas” como ameaças à paz e à segurança internacional; proposta vetada por Rússia, com voto da Índia e abstenção da China. Ações diplomáticas dessa natureza têm sido fundamentadas nos relatórios do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), que é justamente o assunto cuja origem teórica e a aplicação mundial são o tema central debatido no livro, obra dedicada “a ambientalistas de todos os partidos”, a fim de que reflitam mais profundamente sobre as ideias que defendem.

O livro intercala, por um lado, uma leitura criteriosa da genealogia do pensamento ambientalista moderno e de sua aplicabilidade jurídico-política, junto com um conto que narra uma distopia em que o jovem Matthew sobrevive no ano de 2049. Ele descreve um mundo no qual o estado de emergência climática proposto pelo IPCC, com a redução completa do CO², foi estabelecido para que o planeta Terra se recuperasse das agressões do Homem. Nessa realidade futura, uma instituição chamada Nomenklatura administra os recursos globais e restringe completamente a vida das pessoas com o propósito de, nos próximos séculos, regenerar a entidade chamada Sofia-Gaia, vítima do Crime-CO² causado pela atividade humana. A aventura do garoto busca descobrir o que aconteceu com sua mãe e quem são as pessoas que controlam a Nomenklatura, conversando com o seu pai, que repete os argumentos estabelecidos pelo governo geral, tratando-se de um breve 1984, de George Orwell, ambientado numa ditadura verde.

A genealogia das ideias do ambientalismo

 Na primeira parte, o autor inicia a abordagem demonstrando que o ambientalismo não é marxista, destacando que este é produtivista, pretende a abundância por meio do crescimento econômico, colocando o bem-estar do homem como o seu fim último, com o pressuposto da igualdade universal entre as pessoas. De outro lado, o ambientalismo também propõe uma noção de igualdade, contudo, pretende a tomada dos meios de produção a fim de paralisá-los, conduzindo à privação, miséria e escassez como opção deliberada para a salvação do planeta.

As ideias do “proto-ambientalismo” do século XIX fazem referência ao economista britânico Thomas Malthus (1766-1834), que previa que o colapso da humanidade se daria pela escassez de recursos em função do crescimento demográfico, o que não levava em conta o avanço tecnológico do homem para o aumento da produção de alimentos, sendo que, em sua época, um quarto das pessoas passavam fome e hoje essa proporção soma menos de um décimo da população. Já no século XX, o ambientalismo se converteu numa espécie de “ética terrestre”, estendendo a noção de “direitos humanos” para animais e ecossistemas, formulando um panorama não-antropocêntrico. Esta concepção foi inspirada na hipótese de Gaia, formulada pelo médico britânico James Loverlock e pela microbiologista americana Lynn Margulis, que se dedicaram a tentar provar que o planeta Terra é um ser vivo, o que Godefridi chama de “degradação ontológica do homem”.

O autor investiga as éticas do liberalismo e do socialismo, de caráter essencialmente humanista e antropocêntrico, tecendo críticas duras ao pensamento do filósofo alemão Hans Jonas (1903-1993), aluno de Martin Heidegger, considerado o patrono ideológico do ambientalismo moderno com a sua obra O princípio responsabilidade, que reflete sobre os impactos sociais e ambientais causados pelo crescimento tecnológico. Godefridi descreve uma conexão genealógica entre as éticas ambientalista e gnóstica ao reconhecerem no homem uma característica intrínseca ligada a algo externo, que seriam, respectivamente, a Terra e Deus, que são entidades puras e perfeitas. Isso impõe ao ser humano a condição maligna de signo da destruição do Ser Transcendente. Entretanto, ele aponta que o ambientalismo dispõe de uma ética mais radical que o próprio gnosticismo, eliminando a transcendência humana em função de sua existência ameaçar o planeta, a partir da qual Jonas elabora o conceito de “metafísica da natureza”.

Dois trabalhos importantes deram fôlego para o surgimento do “neoambientalismo” no século XX. O primeiro foi A bomba populacional, lançado em 1968 pelo entomólogo americano Paul Ehrlich e sua esposa, Anne, que só foi incluída como autora décadas mais tarde. O argumento se baseia no malthusianismo para advogar a favor de uma série de medidas para a redução do “câncer populacional” humano no mundo, como abortos, controle sobre a população, introdução de esterilizantes químicos na água, reversão do sistema de valores e no estilo de vida, reeducação pública e esterilização de populações inteiras, mencionando hindus, paquistaneses e outros grupos pobres que deveriam se submeter compulsoriamente à essas medidas em função de sua tendência à alta natalidade. Tanto no vocabulário de Erhlich quanto no de Jonas o conceito de “solução final” para a humanidade é proposto como imperativo para o problema ecológico global, sugerindo a instituição de um “Imposto Internacional de Sobrevivência” que seria recolhido pela ONU. Entretanto, meio século após a publicação do livro, a população mundial nunca foi tão grande, mas ao mesmo tempo a fome nunca foi tão pequena, contradizendo o paradoxo de Erhlich de reduzir radicalmente a população mundial para evitar um colapso ambiental que reduza drasticamente a população mundial. Curiosamente, os pressupostos de Erlich prefiguraram as justificativas para a criação do Fundo Verde para o Clima (GCF), institucionalizado pelo Acordo de Paris, em 2015.

Outro documento importante que marcou esta época foi o Relatório Meadows, publicado pelo Clube de Roma, em 1972, que fez previsões para os anos 2000 e 2100 e corresponde a uma antevisão dos atuais relatórios do IPCC. A obra é bastante extravagante e advoga que a única maneira de alcançar o “Equilíbrio Global” seria parar totalmente o crescimento econômico, chamado de “produção industrial per capita”, e reduzir a natalidade até que chegue a zero. Com todas as suas contradições e exageros de imaginação, o Relatório Meadows e A Bomba Populacional foram obras extremamente influentes, forjando um argumento moral para a atuação política do ambientalismo, já embrionariamente revestida de cientificismo. Contudo, essas ideias possuem vulnerabilidades, inicialmente desde um ponto de vista intelectual com relação aos recursos, pois ignora a capacidade humana de criar recursos a partir das reservas naturais, como por exemplo na criação de animais e no melhoramento agrícola. Além disso, as ideias do ambientalismo precoce enfrentam vulnerabilidades empíricas, representadas pela ampliação do acesso das pessoas a matérias-primas essenciais e pela redução da fome na população mundial. Desse modo, a própria realidade derrotou o malthusianismo do Relatório Meadows como vertente científica, porém ele ainda teve a capacidade de se consolidar por meio da perspectiva ideológica.

O ambientalismo entrou no século XXI resumido a uma ética anti-humanista embasada em argumentos científicos refutados, como uma espécie de superstição moralista. A partir de então, a narrativa dos anos 1970 e 80 de que estávamos à beira de uma nova era glacial se inverte e passa a ser defendida a tese do “aquecimento global antropogênico”, que, por sua vez, transformou-se na versão atualizada, mais generalista, das “mudanças climáticas”. Nos anos 1980, o ambientalismo havia sido impulsionado por Margaret Thatcher em função do interesse britânico em obter aprovação científica para o desenvolvimento de energia nuclear, tendo sido desta maneira criado o IPCC, em 1988, com o objetivo de criar o critério avaliativo sobre o impacto da existência do homem no mundo e propor medidas para contê-lo. Godefridi dedicou outro livro especificamente para demonstrar que o IPCC não compõe um corpo científico, mas sim político e diplomático e de gestores de ativos financeiros.

O livro menciona uma série de cientistas “duros” de várias áreas que vêm produzindo grande quantidade de pesquisas, em diversos lugares no mundo, que contrariam rigorosamente os pressupostos alcançados pelos relatórios do IPCC, porém sem obter grande repercussão na mídia e nas universidades. Devo aqui acrescentar o exemplo dos artigos disponibilizados no banco de dados do CO² Science. Além desses, dezenas de milhares de pesquisadores têm chegado a conclusões distintas da tese do aquecimento global antropogênico vêm emitindo manifestações públicas contra as medidas tomadas em relação ao clima, como a Petição do Oregon, o Apelo de Heidelberg, a Declaração de Leipzig, a Declaração de Manhattan e a Coalizão Internacional pela Ciência Climática, sendo que elas mesmas, por sua vez, também são acusadas de não oferecerem sustentação científica. Entretanto, o que essa disputa revela é que definitivamente não há um consenso científico estabelecido entre os climatologistas, porém um grupo tem mais alcance que o outro.

A régua de cálculo do IPCC passou a ser as emissões de carbono, os chamados gases de efeito estufa, contudo, os relatórios têm falhado em suas ações em provar que alterações estruturais no planeta sejam causadas diretamente pela emissão humana de CO², que corresponde a 4% do total global. Assim, apesar de revestido com o discurso científico, o neoambientalismo permaneceu atrelado a uma filosofia moral, dispondo das vantagens de sintetizar a causalidade em um tema universal, que seria o CO². As emissões de carbono seriam o atestado comprobatório do aquecimento global antropogênico, o que por sua vez sustenta uma doutrina de constrangimento ao homem como motivador da destruição do planeta e, de forma totalizante, justifica uma ambição global para restringir todo e qualquer gesto, atividade e ação dos indivíduos e grupos sociais.

Todas as atividades humanas são geradoras de CO², o que leva a ideia totalizante de que a existência do homem seja degradadora para o planeta. Essa concepção se apresenta revestida de um discurso aparentemente científico, o que seria razão suficiente para o controle autoritário das pessoas, seguindo o caminho dos pensamentos totalitários surgidos a partir do século XIX. Godefridi mapeia os pontos em comum entre os regimes totalitários, apontando que o ambientalismo tem um ponto de inflexão ontológica crucial em relação aos demais, que é a degradação do ser humano, uma vez que, pela ética física, somos essencialmente carbono e este é justamente o problema do mundo. O autor destaca como autores da tradição ambientalista, entre eles Hans Jonas, Paul Erhlich e os do IPCC. pregam a abolição das liberdades individuais e defendem que medidas de coerção da população são inevitáveis, feitas, entretanto, “por uma boa causa”.

O radicalismo totalitário do ambientalismo se revela pelo uso do idioma político do inimigo, que, no caso do CO2, estabelece que esse inimigo é o Homem. Não obstante, colocar a existência do ser humano como o problema do CO² retornaria o dilema para o campo moral, de forma que o neoambientalismo se autoafirma a partir de um discurso da ciência, apesar de ser lastreado em indícios extremamente frágeis e contraditórios. Ademais, essa disputa pela gradação da responsabilidade pelo clima e o CO² cria um grau de hostilidade entre povos e nações, que disputam entre si em busca de compensações financeiras para a redução das emissões de carbono. Um tema transversal no marxismo radical e no nacional-socialismo alemão é a “linguagem excessiva” como mobilizadora do ódio popular a ser encorajado e canalizado para uma determinada “boa causa”, abrindo sanções para os atos de violência e pode ser bem exemplificado no ambientalismo pelo “Movimento pela Extinção Voluntária da Humanidade” ou pela expressão “solução final” empregada por Jonas e Ehrlich, por exemplo.

A degradação ontológica do homem se revela em seu tratamento como criatura doente na linguagem excessiva do ambientalismo. Essa retórica hiperbólica é evocada para exigir o abandono de uma série de questões incompatíveis com a luta contra o CO², como a erradicação de setores inteiros da economia, da calefação, do turismo, do transporte, das liberdades individuais, alcançando o pleito pelo fim da democracia em nome do clima. Este tipo de discurso é feito por autores do IPCC, como o climatologista francês François-Mari Bréon, que especifica a forma como devemos nos livrar de nove décimos da população humana nos próximos anos, apresentando ideias que obviamente geram muitas reações contrárias.

Godefridi tece críticas também ao postulado de Hans Jonas de que o biocentrismo permite “superar a ingenuidade liberal chamada verdade pública”, fazendo analogia com a “nobre mentira” n’A República de Platão, como o mito da autoctonia que transformava todos os cidadãos em “filhos da Mãe Terra”, fazendo com que se transformassem em irmãos e irmãs, ou a existência de metais nobres no corpo das pessoas, o que lhes concederia o direito natural de governar. Jonas, enquanto patrono espiritual do ambientalismo contemporâneo, advoga a favor da necessidade de mentir à população para que ela aceite certas renúncias, o controle, a vigilância e a própria degradação de sua existência em nome de uma segurança inerente ao ambientalismo. Dessa forma, aos moldes do gnosticismo, o ambientalismo destina a transcendência à Natureza, transferindo o papel reservado a Deus para a ideia do Ser Vivente de Gaia, que consiste em um princípio universal que se estende para além da ciência e da moral.

Os modos de aplicação do ambientalismo

Na segunda parte do livro, Drieu Godefridi se dedica a verificar como funciona o ambientalismo aplicado, partindo ainda da premissa de Hans Jonas de que a democracia não é uma forma de governo adequada para o biocentrismo, uma vez que promessas de constrangimentos e privações não costumam ser uma pauta eleitoral favorável, motivo por que os partidos verdes não alcançam 10% dos assentos no Parlamento Europeu. Dessa forma, o ambientalismo se aperfeiçoou no lobby ideológico e na colonização de setores de poder em nível internacional, ocupando muitos cargos não-eleitos democraticamente, porém de grande poder real, estabelecendo normas e padrões no direito internacional que serão implantadas por juízes e advogados em todo o mundo. Tais restrições vão progressivamente se tornando obrigatórias, embora sejam medidas que jamais foram escolhidas ou votadas por ninguém. Esse escopo amplo de resoluções e recomendações costuma suplantar legislações locais e se posiciona fora do alcance dos parlamentos nacionais. O autor destaca que os relatórios do IPCC, a despeito da fragilidade de sua sustentação científica, acabam servindo para retirar das democracias nacionais atribuições e poderes de diferentes ordens, conformando o que ele chama de “algoritmo totalitário do ambientalismo”, visto que declina para uma forma de tirania e ditadura.

O pluralismo político é algo considerado saudável por Godefridi: socialistas e liberais, nacionalistas e internacionalistas, ateus e humanistas cristãos podem conviver pacificamente no ambiente democrático, contudo, o debate fica interditado a partir do momento em que um grupo político-midiático passa a empunhar a armadura da “ciência” e avocar para si o monopólio da verdade. O argumento “científico” no debate político também aflorou no pensamento do século XIX, com a ideia da formação de um governo da ciência pela ciência, o que se mostrou uma perversa falácia lógica e um erro cientificista. No sentido racional estrito, a ciência deve apresentar fatos e informações aos governos sobre as regulações das atividades, mas sem o condão de substituir a tomada de decisão por representantes eleitos, respeitando as democracias nacionais.

A imposição de decisões tomadas exclusivamente sob o argumento da ciência conduz a regimes totalitários e alcança grande sucesso nos meios acadêmicos e especialmente na grande mídia, sendo constatado que cerca de metade dos jornalistas em alguns países europeus vota em partidos de ideologia ambientalista, apesar de sua representação na população em geral ser ínfima. Nesse sentido, o autor retoma a noção da “mentira nobre” platônica defendida por seu patrono intelectual, Hans Jonas, a favor da boa causa ambientalista. Ele identifica a relação da cobertura da “ciência climática” com o apelo ao medo como estratégia de comunicação e marketing. Em síntese, o medo é um sentimento fundamental para que as pessoas aceitem restrições e privações que não seriam sequer cogitadas em outras circunstâncias, havendo representantes do “pós-jornalismo militante” do ambientalismo por todo o mundo que defendem abertamente que o “problema climático” seria justificativa para a implantação de medidas de exceção.

Considerando que o clima é algo universal, que o dano a ele é causado pelo CO² e que o ser humano é um emissor de carbono, a ética anti-humanista do ambientalismo entende a existência do último, o homem, como o problema a ser extirpado ou ao menos reduzido para salvar um Ser Vivente planetário chamado Gaia, conformando a “metafísica da natureza”. O medo é um instrumento de reforço da noção de que o planeta estaria contaminado por essa doença parasitária que é a Humanidade. Para fazer com que as pessoas em geral internalizem essa ideia é necessário muito “pós-jornalismo militante”, eivado de “mentiras nobres”, contadas para produzir o sentimento generalizado de medo na sociedade.

O livro prossegue dando destaque ao pensamento econômico inexistente no ambientalismo, com exceção da proposta do crescimento negativo da economia, contudo, não há um conjunto de propostas e ideias que conformem um sistema, uma teoria, um plano racional que exemplifique como isso pode ser executado. Godefridi reconhece os sistemas teóricos poderosos e as inovações conceituais na tradição econômica socialista de Marx a Keynes, e destaca um ponto-cego aos ideólogos ambientalistas: Quais cidadãos, indivíduos e famílias terão seus padrões de vida reduzidos? Os idosos? Os “ricos” e a classe média? Quem deixará de se reproduzir para fazer a redução populacional drástica? As restrições impostas pelo crescimento negativo da economia atingirão a todos de maneira equivalente? O fato é que essas questões não são nem mesmo devidamente levantadas nos relatórios do IPCC.

Os ambientalistas vêm exigindo que o direito, os valores da sociedade e os empreendimentos econômicos estejam todos subordinados a esta ideologia, visando constitucionalizar o clima de modo a forçar juízes e Cortes superiores a restringirem as liberdades individuais em favor desse algoritmo totalitário. Como exemplo brasileiro, menciono o Projeto de Lei nº 759/2021, cuja constitucionalidade é amplamente questionável, proposto por um partido ambientalista, judicialista e midiático minoritário na Assembleia Legislativa de São Paulo, visando decretar “o estado de emergência climática no território do Estado, em razão dos efeitos das mudanças climáticas e das alterações geradas por atividades humanas nos ciclos naturais, em especial na composição e na dinâmica da atmosfera”. Bom, em linhas gerais, o estado de emergência significa na prática a suspensão de funções do executivo, do legislativo e do judiciário em caráter excepcional, como guerras e catástrofes, visando a implantação de planos de emergência. Nesse caso de “estado de emergência climática”, a excepcionalidade se torna permanente e significa a instalação de um estado de exceção com base em uma “mentira nobre”. É realmente nesse ponto a que pretendem chegar? Será que os ambientalistas voluntariosos estão plenamente cientes disso? Duvido.

As crianças têm um papel ambíguo na ideologia ambientalista, uma vez que os nascimentos representam o mal maior que é a expansão da população humana (e, logo, do CO²). Entretanto, nos últimos anos vem ocorrendo uma crescente onda de politização e subjugação ideológica da infância, como nas “greves estudantis pelo clima”. O autor compara a ideologização da infância com os comitês da juventude soviética, Komsomol, e com a Hitlerjugend, do nacional-socialismo alemão. Segundo ele, não deveríamos conceber com plena naturalidade que professores promovessem manifestações públicas de crianças a favor do socialismo, do liberalismo, do cristianismo ou qualquer outra doutrina e ideologia; contudo, a legitimidade moral do ambientalismo é mesmerizada por um suposto endosso científico com que pretendem adquirir a plena liberdade de atuação sobre a infância.

A instauração generalizada do medo na sociedade acaba por fomentar a criação de fobias contra setores específicos das atividades humanas, como a aviação e os meios de transporte, o consumo de carne e a agricultura moderna, e a energia nuclear. Todos eles apresentam problemas intrínsecos em seus princípios lógicos. Os primeiros significariam um cerceamento radical das atividades humanas, os segundos recaem na derrota do pensamento malthusiano, que foi ignorar a capacidade de aumento e de aperfeiçoamento da produtividade desenvolvidos pelo homem para alimentar a população mundial. Tampouco tratam da maior taxa de CO² emitido pelos meios alternativos de produção de alimentos sintéticos e laboratoriais. Contra o consumo de proteína animal pesa ainda a moral do “especismo”, que é a crítica à domesticação de animais e reflexo da degradação ontológica do homem ao estender princípios de “direitos humanos” a animais. Devo acrescentar que autores ambientalistas como Peter Singer defendem que a distinção moral entre homens e animais é equivalente a distinção entre homens diferentes, postulando que o especismo está para a espécie assim como o racismo está para a raça. Ademais, a ideologia ambientalista novamente deixa ocultas na proposta do decrescimento econômico as seguintes questões: Quais pessoas serão condenadas à fome? Qual será o critério de seleção? Algo semelhante, de forma surpreendente, acontece com a energia nuclear, que não produz CO², mas é demonizada por ambientalistas. Essa hostilidade impulsionou “transições energéticas” em países como a França (que possui a menor taxa de emissão entre os países da OCDE em função das usinas nucleares) e a Alemanha, que migraram para o sistema de energia à base de gás, que tem emissão muito maior.

Há ainda outras duas fobias polêmicas pelas quais advogam ideólogos influentes em associações, think tanks e partidos ambientalistas. Uma delas é a descontinuação de tratamentos médicos para idosos e a promoção da eutanásia; a outra é o escopo de ações individuais de mitigação delas, cuja principal é a redução no número de filhos, sob o bordão: “uma criança = 58,6 toneladas de CO² por ano”. O autor destaca ainda dois problemas do antinatalismo, que são a escassez de força de trabalho e de capacidade produtiva dos jovens para o pagamento das aposentadorias aos idosos. Essa situação, junto com a primarização da economia nos países pobres, tem acelerado processos migratórios forçados em busca de postos de trabalho nos países ricos. Além disso, desde a obra de Paul Ehrlich, a redução populacional envolve também o incentivo e a facilitação do aborto, com a instalação de clínicas especializadas e a institucionalização da sua propaganda, especialmente entre grupos populacionais pobres e com taxas mais altas de natalidade.

Conclusões

Godefridi sintetiza as constatações apresentadas em seu livro em dez pontos objetivos, reconhecendo que todas elas são estruturalmente refutáveis, porém destacando que foram adotadas por um número significativo de intelectuais ambientalistas:

  1. O ambientalismo não é um sub-ramo do marxismo;
  2. Predições malthusianas dos últimos 250 anos a respeito do esgotamento de recursos – feitas por Malthus, Jevons, Ehlrich, Meadows, etc. – se mostraram erradas, sem exceção;
  3. A ética ambientalista é “fisicista” e de-antropocêntrica: ambientalistas são amplamente favoráveis à natureza sem qualquer receio. O homem sofre uma degradação ontológica sem precedentes na tradição ocidental;
  4. Se o CO² humano é o problema, então o homem é o problema (analítica totalizante ambientalista);
  5. Se o CO² humano é o problema, então o homem deve ser restringido, constrangido e governado em todas as suas atividades (algoritmo autoritário do ambientalismo);
  6. A abolição da liberdade individual não “deriva” do algoritmo totalitário, ela é o algoritmo;
  7. A tendência humanicida do ambientalismo é consistente com seus postulados;
  8. A depopulação da Terra é a “solução final” para o problema ambiental;
  9. Como uma ciência, a ecologia não deve buscar adentrar a arena política – quando se aventura nisso, ela deixa de ser uma ciência;
  10. Ambientalismo significa totalitarismo.

Sobre o autor

Drieu Godefridi possui formação acadêmica em direito tributário, ao passo em que obteve seu PhD em filosofia pela Sorbonne estudando o ambientalismo. Ele reconhece o seu apreço pelos princípios e pela estrutura teórica humanista do marxismo, assim como do keynesianismo, ao passo em que discorda de sua perspectiva com relação da noção subjetiva de “igualdade”. Este princípio é abraçado inclusive pelo ambientalismo, que prevê uma plêiade de restrições à existência humana que significariam uma igualdade na miséria, contudo defende que o crescimento da economia e a progressiva melhoria na distribuição da riqueza tende historicamente a reduzir a pobreza e aumentar a qualidade de vida da população. A heterogeneidade do seu pensamento se reflete ainda no fato de, em 2003, ele ter sido o fundador do Instituto Hayek, para divulgar uma visão liberal da contemporaneidade, o que se estendeu até 2011, quando o projeto foi encerrado. Além de seus livro e artigos, Godefridi também foi comentarista da TV Russia Today e atualmente tem frisado que empresas russas do setor energético, assim como as demais grandes petroleiras de atuação global, têm financiado o ambientalismo ocidental para aumentar os seus rendimentos, criando maior dependência de países fornecedores de gás natural em função do abandono da energia nuclear.

Desde minha parte, pela experiência da graduação acadêmica em Ciências Biológicas, devo ressaltar que me impressionou o fato de que muitas das ideias apresentadas no livro frequentaram a minha formação intelectual e acadêmica, parte delas desacompanhadas de críticas de qualquer natureza. Muitos campos de pesquisa têm inclusive as suas bases epistemológicas ancoradas nessas premissas ideológicas apresentadas e discutidas por Godefridi. Por fim, deve-se frisar que o livro de Godefridi não indica que a proteção ao meio ambiental seja uma questão a ser ignorada, mas busca direcionar o olhar para os princípios e ideias que norteiam este tipo de atividade humana, trazendo conjuntamente questionamentos desde a ordem da teoria econômica. Assim, trata-se de uma defesa da manutenção da ética humanista em face do totalitarismo ambientalista, assim como a proteção do pluralismo político, da democracia, dos sistemas nacionais de governo e das liberdades individuais. Neste sentido, a proposta é um voto de respeito, confiança e amor pelo destino comum da humanidade, que desenvolveu ao longo de sua história natural a capacidade de lidar com os desafios ao prosseguimento de sua existência, visão de mundo com a qual atrevo-me a concordar.

3 COMENTÁRIOS

  1. O tema meio ambiente sempre foi usado pelos maiores interesses econômicos e políticos deste planeta. Colocando sempre em segundo plano os interesses das populações.

  2. A tese Maltusiana que se traduz na premissa da “escassez” não se sustem à luz das tecnologias que tem sido proibidas de chegar ao grande público… Com essas tecnologias haveria abundância de energia que resulta em abundância de alimento e água para todos. Mas este seria o pesadelo dos 0.01% que se auto-elegeu como ‘donos do mundo’. Parece algo absurdo ? Mas ser capaz de entender algo como isto: https://www.youtube.com/watch?v=t98UBY3GhhI

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