90 anos da crise do capitalismo em 1929: o que ela tem a nos ensinar?

As vinhas da Ira (The Grapes of wrath), livro de John Steinbeck, sobre a tragédia social da grande depressão, virou filme (1940) com Henry Fonda e Oscar de melhor diretor para John Ford. Em 1962 Steinbeck ganharia o Nobel de Literatura.

Em 24 de outubro passado registrou-se 90 anos do início da grande crise do capitalismo no Século XX, o chamado “crack da Bolsa”, quando as cotações da Bolsa de Nova York desabaram, levando junto a economia americana e mundial, que só se recuperaria plenamente após a Segunda Guerra.

As causas da crise foram em síntese reunidas em torno do excesso de financeirização, do capitalismo de papel sem contrapesos e sem regulação. Os neoliberais fazem questão de apagar de sua memória e narrativa a existência dessa crise de “mercado” vencida e resgatada por POLÍTICAS PÚBLICAS de Estado, uma vez que o “mercado”, ao contrário do que pregam os neoliberais, NÃO SE AUTO-REGULA E NEM TEM CAPACIDADE DE SAIR DE CRISES, só o Estado os salva.

A crise de 1929 teve duas fases. Até 1933, nos EUA e na Alemanha, as duas maiores economias da época, o desemprego só cresceu, chegando a 27% nos EUA e 40% na Alemanha. Nos EUA era a Presidência Hoover, com o banqueiro Andrew Mellon como Secretário do Tesouro e Eugene Mayer como Chairman do Federal Reserve, TODOS ORTODOXOS (hoje  o nome seria neoliberais), achavam que a crise acabaria sozinha, não havia nada a fazer.

Na Alemanha a mesma ortodoxia do chanceler Heinrich Bruning, que era economista, curiosamente terminou sua vida nos EUA como professor da Universidade de Harvard. Bruning tampouco tinha alguma solução para a crise além de esperar que o mercado resolvesse sozinho.

A segunda fase, de começo de solução, se dá curiosamente  no mesmo mês e ano, janeiro de 1933, quando Roosevelt é eleito nos EUA com uma plataforma social-democrata, que hoje seria considerada de esquerda, e uma proposta de solução pela intervenção do Estado na economia; e na Alemanha é o novo Chanceler, Adolf Hitler, que  propõe resolver a crise também pelo Estado, com uma plataforma de direita, através do rearmamento.

Ambos os processos de enfrentamento da crise usavam o Estado como instrumento da recuperação da economia. Roosevelt, por obras de infraestrutura e auxílio para reabertura de bancos e empresas quebradas, e Hitler por mega encomendas de material bélico para a indústria alemã, ocupando 100% de sua capacidade, além da construção de largas rodovias, as “autobans”, para movimentação de material militar e tropas.

O presidente Roosevelt enfrentou a grande depressão econômica com investimentos públicos e criação de empregos.

As causas da crise de 1929 retornam noventa anos depois

Quais foram os elementos causadores da crise de 1929? Há ainda larga controvérsia entre diferentes escolas de pensamento econômico sobre a gênese da crise, não há uma causa única, como em todo desastre há uma confluência de causas e concausas que se cruzam para gerar o resultado.

Todavia, grosso modo, há uma serie de vertentes que ocorreram nos anos 20 e agora se repetem:

  1. GUERRAS COMERCIAIS – Travam o comércio e produzem choques e raios no fluxo de mercadorias e capitais, podem gerar curtos-circuitos nos fluxos.

As guerras EUA x China, EUA x União Europeia, EUA x México são resultantes de políticas populistas do governo Trump e seus efeitos ainda estão no começo. Guerras comerciais costumam replicar seus efeitos em ondas sucessivas e ao fim afetam mesmo os países que não participaram diretamente da guerra.

  • EXCESSIVA VALORIZAÇÃO DE AÇÕES, COM BASE NAS EXPECTATIVAS E NÃO NA REALIDADE:  Fantasias de inovações fantásticas, impulsionadas por uma mídia a cata de novidades fazem disparar preço de ações sem nenhuma lógica real, simples ideias viram empresas e essas se capitalizam muito rapidamente em bilhões, mesmo que não tenham tido nenhum lucro nos seus balanços, caso da UBER e outras como AMAZON chegam a valer US$1 trilhão.
  • EXCESSO DE LIQUIDEZ SEM APLICAÇÃO EM FUNDOS DE INVESTIMENTO – Os fundos globais têm hoje 75 trilhões de dólares em ativos, um só deles tem OITO trilhões de dólares, (Black Rock).  Nos EUA há 22 fundos de investimento com mais de UM TRILHÃO de dólares, cada um, em ativos. Esse excesso de liquidez faz as cotações subirem fora da realidade econômica, muito parecido com 1929, e milhões de aplicadores dependem da rentabilidade desses fundos para sua vida folgada, portanto não admitem retorno dos valores à realidade de uma rentabilidade modesta, querem sempre mais.
  • O EXCESSO DE FINANCEIRIZAÇÃO NÃO SE PROPAGA PARA A ECONOMIA REAL E PARA OS EMPREGOS  – A abundância de riqueza de um lado gera uma extraordinária concentração de renda, enquanto o grosso das populações empobrece, não tem como isso continuar indefinidamente. Há um descompasso  de políticas, os bancos centrais se voltam exclusivamente para o mercado financeiro e deixam de operar em função da economia da produção e dos empregos, potencializando a financeirização e a valorização irreal de ativos, agora já descolados da economia produtiva.

Hoje no Brasil escolas e faculdades são vendidas por bilhões de Reais, o maior grupo de universidades vale mais de 30 bilhões de Reais, sem ter ativo imobilizado. É apenas a capitalização de fluxos futuros de mensalidades. O mesmo se passa com redes de hospitais, de cartões de crédito, de lanchonetes.  Capitaliza-se um fluxo futuro de ingresso que podem desaparecer no turbilhão de  uma crise de rendas. Começam a surgir FINTECHS, BANCOS DIGITAIS, outras invenções de jovens, já nascem com bilhões de Reais de valor de Bolsa, MUITO PARECIDO COM 1929, números injustificáveis, mas impulsionados por bancos de investimentos e empurrados para fundos que contam com esses investimentos para gerar lucro em suas carteias, lucro que só pode vir com a valorização ao infinito dessas ações, uma vez que não geram dividendos. A mídia é ferramenta auxiliar desse processo, ao dar amplo espaço a novidades, inovações, coisas fantásticas acontecendo, tudo vai sendo robotizado, criando um ambiente de inebriante euforia que só os rapazes da Bolsa sabem comandar. Milhões vão atrás e passam a investir em fundos que prometem ganhos sempre crescentes.  A mídia econômica é fundamental nessa escalada, como foi em 1929, assim como os “economistas de mercado”. Um deles, Irving Fisher, fundador da primeira Escola Monetarista,  avô dos atuais “neoliberais”, disse duas semanas antes da quebra da  Bolsa que “a economia americana nunca esteve tão forte e a prosperidade não tem fim à vista”. Fisher era o papa dos economistas americanos e sua reputação foi destruída para sempre assim como a da obra de  Friedman, severamente atingida pela crise de 2008, atribuída ao monetarismo e à desregulamentação do mercado financeiro. Os profetas do mercado perfeito caem na real.

O economista liberal Irving Fisher arruinou sua reputação ao negar os riscos da crise de 1929.

A crise se retroalimenta

Hoje estamos no Brasil em um tipo de crise provocada pela financeirização excessiva da economia cuja matriz é a entrega do comando do Banco Central ao mercado financeiro. Dirigentes do BC vêm e voltam para empregos em bancos privados, o boletim FOCUS dá ao BC as demandas que o mercado espera nos movimentos de taxa de juros e de câmbio, forma-se todo um AMBIENTE  de captura do BC pelo mercado, o que NÃO acontece no Federal Reserve, no Banco Central Europeu e no Banco do Japão, aonde os dirigentes NÃO vêm do mercado financeiro. O mercado, por meio do BC, provoca a absoluta paralisia na política monetária,  que NÃO É USADA como parte da política econômica, como fazem o FED, o BCE e o BJ, que através de expansão monetária irrigam a economia. O nosso BC não faz expansão monetária há mais de dez anos, o meio circulante em seus vários andares está congelado, não se gera demanda e a economia não sai do lugar.  Nosso PIB para 2019 será MENOR do que o PIB de 2012. A ESTAGNAÇÃO não é defeito, é a META DE INFLAÇÃO desejada.

No ambiente  de FINANCEIRIZAÇÃO, como foi em 1929, não há preocupação com a economia produtiva e com os empregos, a única coisa que importa é o índice das ações na Bolsa, que no Brasil de 2019 COMEÇA A SE DESLIGAR DA ECONOMIA REAL, como aconteceu nos EUA em 1929. Pode estar tudo ruim na economia REAL, da produção, um pequeno aumento de nível de emprego, QUE É SAZONAL e não reflexo de começo de ciclo, não significa melhora, mas a Bolsa sobe, mesmo com a economia paralisada e os níveis de renda da esmagadora maioria da população caindo.  Isso é um DESCOLAMENTO DA REALIDADE ECONÔMICA, o mesmo fator que provocou a crise de 1929, que só foi vencida quando Roosevelt voltou a se preocupar com o emprego.

Os efeitos da crise: criança carrega cartaz pedindo emprego para o pai.

As lições de 1929

O histórico da crise de 1929 deve nos servir de LIÇÃO, porque estamos cometendo os mesmos erros em condições parecidas. A economia mundial NÃO está bem e a economia brasileira está péssima, enquanto os VALORES DOS ATIVOS FINANCEIROS atingem números estratosféricos. O DESCOLAMENTO DA REALIDADE, um processo psicológico, nos faz relembrar a causa central da crise de 1929 e pode se repetir. Economia é uma questão de ciclos.

Andre Motta Araujo
Andre Araujo, advogado, foi dirigente do Sindicato Nacional da Indústria Elétrica, presidente da Emplasa-Empresa de Planejamento Urbano do Estado de S. Paulo, conselheiro da CEMIG-Cia. Energética de Minas Gerais e atualmente é consultor de Potomac Partners, consultoria em Washington.

4 COMENTÁRIOS

  1. Uma alerta importante, nesse momento de domínio do mercado especulativo e alta concentração de rendas. O mundo precisa administrar melhor suas necessidades e o consumidor deve mudar o seu padrão de consumo.

  2. Quando um artigo é crítico dialético, indubitavelmente nos remete a uma reflexão ampla, que no caso BRASIL concluímos que URGE avançar na LUTA por EMPREGO e EQUIDADE SOCIAL. Parabéns MESTRE ANDRE

  3. Artigo luminoso.
    Grato pela lucidez sobre assunto tão árduo e ao mesmo tempo tão vital.

  4. Ótimo artigo.
    Será que não temos ninguém com algum poder decisório, que vislumbre caos tão evidente e soluções tão à vista?

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