O Mundo Pós-Ocidental

O livro de Oliver Stuenkel, O mundo pós-ocidental, potências emergentes e a nova ordem global, é uma valiosa fonte de consultas e um convite ao exercício de reflexão sobre as atuais transformações em curso na geopolítica internacional, na qual o Brasil se encontra objetivamente inserido.

Em meio a um turbilhão de contradições e conflitos políticos em que estamos metidos, sempre carregados de temor e desorientação generalizados, Oliver nos aponta as causas das transições globais que estão envolvendo o mundo e procura descrever o rumo estratégico dos fenômenos que dizem respeito às sociedades e aos indivíduos, mesmo que eles não tenham a necessária clareza daquilo em que estão envolvidos, e isso inclui os dirigentes dos Estados nacionais, como tem sido o caso do Brasil. Seja no presente ou no passado recente.

Porque praticamente quase todos os estudos acadêmicos, políticos, culturais, em vigor, baseiam-se numa tradição ocidentocrêntica dominante, e imposta há muito tempo, o que nos impede de refletir, até mesmo sob o ângulo dos nossos próprios interesses nacionais, sobre quais seriam os caminhos indicados em uma nova ordem global, em plena transição multipolar.

Assim, estamos raciocinando sob a linha de pensamento anglófilo, ocidentocêntrico, europeu, norte-americano, até mesmo quando, em alguns momentos da nossa diplomacia e economia externa resolvemos agir pensando no protagonismo nacional, inclusive em décadas anteriores.

Especialmente hoje, na linha dogmática, quase religiosa, da política externa do atual governo do presidente Bolsonaro, que se incorpora plenamente na visão do excepcionalismo excludente norte-americano, do mundo ocidental, em uma espécie de visão ideológica salvacionista, messiânica.

Onde qualquer outro método de análise da realidade, e estratégias, seria incorrer em uma espécie de ameaça à ordem mundial pré-estabelecida, em suas próprias mentes, quando essa realidade em movimento já vem ultrapassando galopantemente o credo que o governo professa, mesmo quando essa alteração, objetivamente em curso, nos seja amplamente favorável como Estado e nação.

Em primeiro lugar, para Oliver Stuenkel, sempre houve o mito de que o mundo teve a primazia do pensamento, da economia e da diplomacia puramente ocidentais, negando, ou desconhecendo as interpenetrações de outras culturas que agiram no desenvolvimento, inclusive científico, das grandes ondas e transformações nas sociedades.

Nos últimos mil anos, a difusão das ideias ao longo da História foi muito mais dinâmica, pluridirecional e descentralizada do que costumamos imaginar. Mas o que prevalece é uma visão anglófila da História, as relativizações das cooperações de outros povos, ou mesmo a negação, o desconhecimento das contribuições globais de outras civilizações.

Por exemplo, inúmeros conhecimentos importantes e fundamentais adquiridos surgiram de normas, tecnologias, ideias, de outras fontes estrangeiras, não ocidentocêntricas, como da China, Índia, África e do mundo muçulmano, para se desenvolver, para florescer econômica e politicamente.

No entanto, é verdade que o idealismo e o excepcionalismo norte-americano foram fundamentais na construção da atual nova ordem internacional.

Mas os principais pensadores e acadêmicos nas relações internacionais, estabelecidos nos Estados Unidos, imaginam que o mundo entregou voluntariamente as rédeas do poder a Washington, negligenciando a distinção entre legitimidade e coerção, como fatores na consolidação da atual ordem liberal, exatamente como em qualquer sistema anterior.

Esse processo, de construção da Ordem liberal internacional, envolveu estacionar tropas norte-americanas nas potências derrotadas do Eixo na Segunda Guerra mundial; ameaças contra comunistas na França e na Itália, derrubada de governos recalcitrantes na América Latina, na África e na Ásia, esforços sistemáticos para impor as preferências políticas, ideológicas, culturais e econômicas em todo o mundo, nos lembra Oliver.

A leitura ocidentrocêntica e seletiva da História leva a uma superenfatização em agendas e atratividade cultural ocidentais, e minimiza o papel decisivo do poderio militar na criação e manutenção dessa Ordem global, afirma Oliver.

Muitos acontecimentos importantes ocorreram fora da Europa ao longo de toda História, como aqueles que ergueram e sustentaram o império Chinês, o Otomano e o Mongol. Assim como as regras de tolerância religiosa construídas na Índia no século XVI, sob a liderança do imperador mogol Akbar.

A rebelião anticolonial haitiana no começo do século XIX, que inspirou escravos em todas as Américas, foi o evento mais importante na História dos Direitos Humanos, pois defendeu, diferentemente da Revolução Francesa, direitos iguais para toda a população, afirma Oliver.

Na verdade, o ocidentrocentrismo avoca para si vários fenômenos, episódios e valores que aconteceram em outros lugares, ou simultaneamente em muitas regiões.

É com esse viés receoso, oblíquo, que alguns estudiosos, acadêmicos, geopolíticos consideram a emergência de um mundo pós-ocidental, as relações Sul-Sul, a ascensão estratégica dos BRICS. Como se essa fosse uma Ordem Global caótica, desorientadora e perigosa.

Em primeiro lugar, porque ela sucede à hegemonia unipolar dos Estados Unidos após a Guerra Fria.

Depois, porque incorpora ao mundo ocidentocêntrico, novas e multilaterais formas de abordagens econômicas, sociais, comerciais, culturais e políticas, que já estão convivendo, lado a lado, com o pensamento ocidental anglo-europeu.

Stuenkel se aprofunda nesses fenômenos com densa análise acadêmica e geopolítica. Considera os BRICS como um fato estratégico, não um arranjo casual, ou uma sopa de letrinhas na moda, a China como uma potência econômica, comercial irreversível e preponderante, que veio para ficar.

É bem diferente do liberalismo global ocidentocêntrico com suas duas faces; nacionalismo liberal quando se trata dos seus interesses, e internacionalista imperial quando às expensas dos não ocidentais. Uma contradição endógena que sempre carrega ao longo dos tempos.

Um argumento que a práxis do cosmopolitismo liberal, convencida de que o espaço internacional é deles, e que precisa convencer as poucas sociedades atrasadas remanescentes no mundo, mas que, no entanto, se apoia na distribuição desigual, e não poucas vezes utiliza-se das práticas depredatórias do imperialismo do século XIX. Isso é o que se chama de Governança Global na atualidade.

Diz Oliver: todos os povos desenvolvem e sustentam seus próprios mitos sobre a história fundadora da sua tribo, nação ou civilização. Um dos elementos importantes desse mito diz respeito ao porquê de o grupo ser único e porque merece um lugar especial na História global. Como qualquer outra civilização, o Ocidente também incorreu no espírito forte de um excepcionalismo, nesse caso, excludente.

O sucesso econômico e militar da Europa fez com que os intelectuais europeus não esperassem nada menos que o domínio permanente do mundo, incluindo aí “uma missão civilizadora e cultural do resto da humanidade”.

A observação crítica no livro de Oliver Stuenkel não exclui também os teóricos marxistas europeus: como Marx, Hegel chamava a China de “semicivilização em putrefação” e, a não ser que o Ocidente lhes levasse o progresso, a Índia e a China estavam condenadas a permanecer numa “existência vegetativa perpétua e natural”.

Com efeito, o advento da Revolução Industrial e os primórdios do colonialismo europeu na Ásia pareceram criar uma narrativa tão irresistível que a maioria dos intelectuais se deixou seduzir pela noção de que o Ocidente havia fundado uma verdade universal e uma obrigação moral de guiar o resto do mundo, afirma Oliver.

Desenvolveu-se um sentido exacerbado de singularidade. Nesse processo Histórico, o pensamento liberal foi basicamente moldado pela relação desigual entre a Europa e o resto do mundo. O desejo de diálogo construtivo entre civilizações e de aprendizado mútuo, tão apreciado por pensadores anteriores, foi eclipsado pela soberba.

Assim, o ocidentocentrismo contribuiu para uma compreensão muito particular da História global, que Blaut chamou de “História tutelada”.

Isso é comum hoje na América Latina, na África e em muitas partes da Ásia, onde a História da Europa é vista como muito mais importante que a de outras partes do Sul global. Uma dinâmica que Amartya Sen chamou de “a dialética da mente colonizada”.  

Foi precisamente este padrão global que levou à situação extraordinária de hoje, na qual Países no Sul Global não sabem praticamente nada uns sobre os outros e, se o sabem, o conhecimento que possuem vem de brasileiros e sul-africanos que querem aprender mais sobre a China, por exemplo.

Mas o sentimento dominante atual quanto à ascensão protagonista da China, na Europa como nos Estados Unidos, é de medo, e os analistas costumam advertir que o avanço da China “eclipsará” o sol do iluminismo ocidental, que será apagado pela dominação econômica da China e por uma sombra que irá cobrir o mundo ocidental.

Um fenômeno semelhante pôde ser observado: o fim da Guerra fria levou pensadores nos Estados Unidos a se perguntarem se o fim da História tinha chegado, convenientemente, justo no momento da inigualada hegemonia dos Estados Unidos.

Mas Oliver considera que a ascensão do multilateralismo global competitivo, no lugar de um mundo unipolar, como um fenômeno objetivo, especialmente com as novas fronteiras comerciais e econômicas que vão sendo abertas pela China, veio para ficar. Onde as relações Sul-Sul vão compartilhar a nova geopolítica junto aos demais atores globais, já existentes.

Não se pode afirmar que essa nova realidade em curso, e suas decorrências, não vão ocorrer sem a ausência de conflitos ou confrontos de intensidade razoável.

Mas os fatos estão a indicar que o crescente aumento da geopolítica multilateralista, o protagonismo Sul-Sul, não estão se dando pela política da canhoneira, como ocorreu, ainda continua ocorrendo, com a hegemonia ocidentrocêntrica, e em particular com o sol poente do excepcionalismo estadunidense.

Ao contrário, a marca do multilateralismo vem se constituindo por meio do crescimento econômico, comercial e diplomático. Não lhe apraz, ou lhe é contraproducente, a via do confronto aberto, da hostilidade afrontosa, da guerra militar de conquista.

A verdade é que o mundo caminha a passos largos para o multilateralismo geopolítico. E se não se avizinha um mar de rosas, com certeza não será mais um capítulo da supremacia cultural, econômica, política, imposta por meio da intimidação militar, ou da hegemonia ideológica, do mito supremacista dos tempos atuais. Vale a pena conferir o livro de Oliver Stuenkel: O mundo pós-ocidental, potências emergentes e a nova ordem global.

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