O Combatente da Fome: Josué de Castro: 1930-1973

Quando a professora Marina Gusmão de Mendonça começou a pesquisar a obra e as contribuições de Josué de Castro ao pensamento social brasileiro, o Brasil parecia ser outro. A democracia se mostrava robusta. Os diferentes interesses e movimentos sociais se coordenavam para atingir seus objetivos dentro da ordem. As universidades públicas expandiam seus campi e abriam oportunidades para uma nova geração de intelectuais. A economia vivenciava um bom momento, em grande parte fruto do chamado “boom das commodities”. O programa “Minha Casa, Minha Vida” viabilizava o acesso a milhões de moradias populares. O Programa “Bolsa Família” atendia uma grande massa de pessoas nos locais mais pobres do país. Por fim, o Brasil parecia ingressar num ciclo virtuoso, deixando para trás uma de suas chagas mais vergonhosas: a fome! Ledo engano! As forças do atraso começaram a desestabilizar o País em 2013, passando pelo insidioso impeachment de 2016 e a eleição de Bolsonaro, em 2018.

Em 1960, o Brasil vivenciou uma situação parecida com essa. O Plano de Metas, a construção de Brasília, o CPC da UNE, o CGT, as Ligas Camponesas etc., traziam a esperança de transformações que pudessem reverter a nossa herança colonial e escravocrata. Um otimismo à época que foi reforçado por dois campeonatos mundiais, pela Bossa Nova e pelo Cinema Novo. Entretanto, as crises sucessivas desde a renúncia de Jânio Quadros levaram à crise institucional que culminou com a violência do golpe militar de 1º de abril de 1964. Perseguições, cassações, prisões, torturas, assassinatos e exílio se abateram sobre as lideranças mais lúcidas do campo nacional e popular. O médico e geógrafo Josué de Castro, intelectual conhecido mundialmente por sua luta contra a fome e contra as desigualdades sociais foi um desses perseguidos pela sanha reacionária, entreguista e autoritária.

A Professora Marina teve o grande senso de oportunidade em publicar em livro seu relatório de pós-doutoramento justamente num momento em que a voz de Josué de Castro precisa ser ouvida e seu legado resgatado. O desastre da política econômica ultraliberal imposto em 2016 (e que foi aprofundada pelo governo de Bolsonaro) por si só resultou no aumento da pobreza e da fome no Brasil, mas os efeitos da pandemia de Covid-19, como a inflação, as falências e o desemprego, pioraram em muito uma situação que já vinha ruim. Nesse contexto, a obra de Marina Gusmão de Mendonça não é apenas necessária, mas imprescindível para se refletir não apenas sobre os aspectos biológicos da fome nos indivíduos, mas principalmente sobre a estrutura econômica e social que se beneficia da desgraça dos mais pobres.

O livro não é mais uma biografia sobre Josué de Castro, mas um profundo trabalho de documentação que abrirá o caminho para novas pesquisas sobre o pensador pernambucano. Além disso, não trata de construir uma descrição romanceada, muito comum entre os jornalistas que empreendem o caminho das biografias, mas de utilizar as fontes históricas para inserir suas ideias e sua ação política no contexto da modernização do Brasil entre a Revolução de 1930 e o golpe militar de 1964.

O plano da obra é muito bem estruturado e balanceado. No primeiro capítulo trata da construção da carreira de Josué de Castro no quadro das transformações da sociedade brasileira no período do primeiro governo Vargas, não sem antes resgatar as informações sobre os seus primeiros anos de vida até o início da carreira como médico, passando pelo aprofundamento de suas preocupações com a questão nutricional, principalmente observando a fome entre os mocambos do Recife, e a sua inserção nos debates políticos e intelectuais desse período.

No segundo capítulo, dedica especial atenção à obra prima de Castro, “A geografia da fome”, publicado em 1946 e que posteriormente ganhou projeção internacional, sendo publicado em 25 idiomas. O texto se dedica às origens da tragédia da fome no Brasil, decorrente das heranças da estrutura colonial e escravocrata, e também analisa os impactos sociais e morais da fome, chamando atenção para a dualidade da economia brasileira e os limites da industrialização substitutiva de importações que então se buscava.

No capítulo três, a Professora Marina debruça sobre a repercussão internacional da obra prima de Castro e o início de sua carreira internacional, da qual se destacam a Presidência do Conselho Executivo da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), o cargo de embaixador brasileiro junto à Organização das Nações Unidas (ONU) e ainda os prêmios recebidos da Academia de Ciências Políticas dos Estados Unidos, do Conselho Mundial da Paz e do governo francês que o condecorou como Oficial da Legião de Honra.

Nos capítulos quatro e cinco, Marina Gusmão de Mendonça busca situar Josué de Castro como um homem de ideias e ações, destacando sua atuação política e parlamentar no Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), marcada por um grande senso de humanismo, pela luta contra o imperialismo e o colonialismo (ainda presente na África e na Ásia nas décadas de 1950 e 1960) e pela defesa das classes populares. Também dá ênfase à sua atuação internacional, tendo papel de destaque na criação da FAO e na construção de uma institucionalidade internacional que pudesse fazer frente aos grandes problemas enfrentados pelo então chamado “Terceiro Mundo”.

Por fim, o livro descreve a atuação de Josué de Castro no ocaso da democracia brasileira, quando se imaginava a possibilidade de reformas estruturais que pudessem dar um novo contorno aos destinos do Brasil, mas que culminaram na truculência do golpe militar de 1964. Nesse sentido, uma personalidade tão vinculada à luta pela emancipação do povo brasileiro, como foi o autor de A Geografia da Fome, seria uma das primeiras a sofrer as represálias que um governo antipopular e antinacional.

Felizmente, apesar de 21 anos de sombras na política brasileira, a ditadura não conseguiu apagar o brilho de um dos maiores filhos de nossa terra. A obra “O combatente da fome. Josué de Castro: 1930-1973” ajuda a manter viva a memória de um grande humanista, ensinado às novas gerações o legado intelectual e o exemplo de uma vida dedicada à dignidade de uma grande massa de brasileiros historicamente massacrada pelo egoísmo, pelo racismo, pela violência e pela fome… esta chaga que persiste em afligir a consciência da Nação.

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