A Utopia Brasileira e os movimentos negros

O baiano Antônio Risério é sem dúvida um dos principais antropólogos brasileiros da atualidade. Versado em diversos temas e incursões na vida intelectual e política nacional, destaca-se pelo estudo da africanidade, inclusive linguística, especialmente no País, é também um polemista atento e, quando necessário, crítico dos movimentos negros contemporâneos em nossa terra.

Mulata de olhos verdes – Di Cavalcanti (1960)

Além do mais, Risério é dos estudiosos que têm se aprofundado na questão negra junto ao processo da rica mestiçagem na formação do povo brasileiro. Diz ele, para o bem ou para o mal, foi assim que nos forjamos como povo. E é essa característica sobre a qual devemos nos debruçar para compreender o nosso processo civilizatório.

Como gosta de definir: a nossa formação é fundamentalmente policrômica, sincrética, ao contrário, por exemplo, da norte-americana onde predominou, ainda predomina, a construção do binarismo racialista nas relações entre os negros e os brancos nos Estados Unidos.

Em seu livro A Utopia brasileira e os movimentos negros, Risério faz algumas considerações contundentes, entre elas a de que “não fez concessão de espécie alguma ao chamado politicamente correto”, já que as suas convicções teóricas e comprovações práticas vão por outras vertentes.

Por outro lado o autor afirma que o movimento negro no Brasil ao invés de mergulhar na realidade aqui forjada do ponto de vista antropológico, a partir de certo momento, especificamente na década de setenta, importou a concepção do binarismo racialista “pseudocientífico” norte-americano, na medida em que estudiosos brasileiros, formados em universidades dos EUA, aqui retornaram com as teses provenientes dos centros acadêmicos de lá, financiados por importantes fundações como a Ford e a Rockefeller.

Risério é enfático na posição de que é impossível admitir coisíssima alguma em nenhum tipo de escravidão, todas foram e são execráveis.

Assim, não pode haver complacência para com o sistema escravista na velha Grécia, na África, dos índios Tupis, ou seja ela qual for. E muito menos para o escravismo brasileiro ou norte-americano. Todos foram aos seus modos cruéis e sádicos.

Mestiço – Cândido Portinari (1934).

Mas a questão é que por aqui o processo de colonização deu-se de maneira distinta dos EUA, com “uma intensa promiscuidade” de misturas, mas que nos Estados Unidos foi violentamente reprimida e abominada, tidas como aberrações, inclusive até a década de sessenta passada, no século XX.

E declara: com isso não quero dizer que por aqui foi melhor ou pior que lá. Não há escravidão boa ou ruim. Ela foi como foi, em contextos Históricos determinados.

Mas se nós quisermos entender o que somos como tal, devemos partir dos nosso próprio processo civilizatório e não importar outras realidades, mais especificamente a norte-americana, porque não foram e não são idênticas.

Isso seria mais uma vez “uma leitura colonizada do nosso itinerário como nação”. Segundo Risério, tal incompreensão constituiu por aqui um racialismo político-acadêmico fora da nossa realidade concreta.

Como um dos exemplos, Risério diz: muitos leitores brasileiros não estão familiarizados com as realidades e noções norte-americanas, especialmente em suas dimensões Históricas, culturais e políticas. Na verdade, os Estados Unidos constituem um caso único, em todo o planeta, em matéria de classificação racial, continua Risério.

“São a única nação do mundo em que uma gotícula de sangue negro é suficiente para definir uma pessoa como negra legalmente. Lá, oficialmente, por lei, não existem pessoas mestiças. É a célebre one drop rule, a regra de uma gota só, criação dos senhores escravagistas brancos e inspiradoras das práticas segregacionistas da Ku Klux Klan”.

Mas, diz Risério, paradoxalmente essa mesma regra, também foi adotada pelo movimento negro nos EUA, para definir conceitos de negritude, onde existem mestiços que não conseguem se encaixar em nenhuma dessas duas classificações, ficando assim como párias nas nomenclaturas oficiais, culturais e sociais. Sem reconhecimento ou identidade própria.

Aqui no Brasil, pelo menos alguns setores do movimento negro também adotaram semelhante classificação; relações de negros, ou neo-negros, com brancos, ou neo-brancos, passaram a ser definidas politicamente como prática de genocídio racial, especialmente em casos de reprodução. Tudo isso em um País majoritariamente miscigenado.

O mestiço vaqueiro nordestino

Antônio Risério tem consciência do caráter polêmico dos ensaios reunidos em seu livro e adverte: a discussão e o debate no Brasil estão cada vez mais malditos e suspeitos. Não há lugar para críticas, só para adesão ou condenação feroz. A quase totalidade das pessoas que falam em diálogo, nele, de fato, não acreditam.

“Vivemos dias de intolerância, indignações fáceis, sensibilidade neurótica a ódios e dissenções, de ataques brutais às divergências. Males de que padecem as políticas identitárias tanto como as suas oponentes conservadoras, em sistemáticas polarizações, sem praticamente valor científico, cultural e rasa serventia política. Fico, então, com as exceções. Com a paixão do debate, da troca clara, direta, e honesta de ideias”, afirma Risério.

Por fim, Antônio Risério é considerado um dos principais estudiosos da africanidade, suas heranças, presenças marcantes e definitivas no Brasil além de pesquisador dos principais dialetos oriundos dos escravos por aqui vindos de várias latitudes da África.

Antônio Risério transita pela riquíssima cultura negra no Brasil, suas marcas e influências definitivas, aborda aspectos da colonização portuguesa, a massiva presença judaica em nosso País, inicialmente como cristão novos, muito pouco divulgada e conhecida, a fundamental presença indígena em nossa formação cultural.

Defende “a livre fusão dos contatos, das experiências e interpenetrações físicas entre os povos, condena os isolamentos como empobrecimento em qualquer circunstância que se apresente. Abomina radicalmente o racismo, a tirania da pobreza e a opressão de qualquer tipo, inclusive a cultural”.

Risério é igualmente tradutor dos cantos sagrados Nagôs ao português, escreveu o livro Oriki Orixá sobre a poesia oral afro-brasileira, Editora Perspectiva, além de várias outras publicações.

1 COMENTÁRIO

  1. Parabéns, Eduardo Bomfim, pela síntese bem apresentada do ideário de Antônio Risério. Quem ainda não teve oportunidade de conhecer diretamente o estudo científico de Risério passa a ter uma boa noção geral do universo de seu pensamento, mas ao mesmo tempo incentiva a leitura direta de sua obra, a exemplo do “Da Utopia Brasileira e os Movimentos Negros”.

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