Novas miragens do Eldorado

Alerta Científico e Ambiental – Vol. 26 – nº 50 – 10 de dezembro de 2020.

Maynard Marques de Santa Rosa*

O fascínio do Eldorado maravilhoso oculto na selva, que atraiu para a morte ilustres aventureiros do passado, está hoje transfigurado na ambição dos próceres globalistas pelas riquezas conhecidas do subsolo e do bioma amazônicos.

Infelizmente, o imperialismo colonialista sobreviveu no campo das ideias e já conseguiu impor o paradigma ambientalista à opinião pública. Recentemente, o ambientalismo deu mais um passo à frente. No dia 19 de fevereiro de 2019, enquanto o mundo deparava-se com o espectro do coronavírus, surgiu o Conselho Militar Internacional sobre Clima e Segurança – IMCCS (sigla em inglês), com a missão de planejar ações de força destinadas a impor o cumprimento da agenda ambientalista.

No dia 30 de novembro, o mesmo Conselho liberou um relatório instando os líderes brasileiros: “a fazer da mudança climática e das medidas de contra – desflorestamento uma prioridade de segurança, bem como a colocar à prova de clima a sua segurança nacional”. São 33 personalidades que compõem o Conselho Consultivo do IMCCS, das quais 18 são oficiais-generais e dois oficiais superiores, todos da reserva das Forças Armadas dos Estados Unidos e um general holandês, também, da reserva. Inegavelmente, a poluição ambiental é um flagelo real que deve ser enfrentado com determinação.

O aquecimento global, porém, é uma falácia midiática. A mudança climática parece um fato, mas a sua causa pode não ser antrópica. E usar uma teoria não comprovada para justificar pressões sobre a soberania dos Estados mais fracos é uma estratégia moralmente abominável. Desde a década de 1980, a prensa ambiental vem sendo apertada sobre a soberania brasileira, fortemente orquestrada pela mídia e pelas organizações-não-governamentais militantes.

A liberdade de ação para decidir sobre as questões amazônicas está, visivelmente, prejudicada, mas a opinião pública desconhece a ameaça, que ganha forma a cada dia. Olhando para fora, há experiências exitosas para cenários correlatos, como a que foi adotada na China, que merecem estudo. As medidas de integração e povoamento adotadas pelos chineses tornaram inócuos os movimentos de resistência uigures, tibetanos e mongóis.

Atualmente, há mais chineses de etnia han no Sinkiang, no Tibete e na Mongólia interior do que as populações nativas originais. As migrações artificiais impactam os vizinhos da China, particularmente, a Rússia, cuja população do Extremo Oriente vem decaindo ao longo do tempo. Sobre população, o eminente professor paraense Armando Mendes alertou, em 1974: “A Amazônia tem problemas políticos que ninguém pode esquecer, o primeiro dos quais é o vazio demográfico, que a transforma em megafúndio.”

O mais afamado historiador nativo da Amazônia, Arthur Cézar Ferreira Reis, escreveu, em 1982, no prefácio do seu livro A Amazônia e a Cobiça Internacional, baseado em fatos: “A Amazônia continua a ser uma reserva para o futuro. E nesse futuro é que está o grande perigo. Um dia, a continuar a ausência criminosa do poder público, poderemos acordar com o extremo Norte sob o domínio de estranhos”. Portanto, o Brasil precisa preparar-se. A opinião pública nacional tem de ser persuadida. A pressão demográfica sobre a fronteira agrícola é inexorável e não pode ser contida, simplesmente, por repressão, cuja consequência inevitável é o aumento da favelização rural. A soberania nacional não pode ser alienada por medo, boa vontade ou bônus ambientais.

A Amazônia anseia por desenvolvimento, que só pode ser alcançado mediante integração, povoamento e investimento na formação de um mercado interno. O enfrentamento da crise requer ação efetiva combinada com diplomacia, mais do que discurso, bravata ou apaziguamento.

* General-de-Exército (RRm) e ex-secretário de Assuntos Estratégicos da Presidência da República.

1 COMENTÁRIO

  1. Uma das análises mais abalizadas que já li sobre a Amazônia. Como Geólogo e Professor no Pós-Doc na Unicamp, escrevi e o Estadão publicou, em 31/03/2010, o artigo de opinião ‘’Desaquecimento Global’’. Um contraponto inquestionável à tendenciosa teoria midiática do aquecimento global que grassa no mundo ‘’imperialista’’ norte – americano e europeu. Uma ardilosa forma revisitada de dominação dos países ricos e inibição ao desenvolvimento sustentável dos países amazônicos, detentores de riquezas minerais e biodiversas que podem trazer efetivamente independência política dessas nações, especialmente a nossa brasileira. Difícil é implementar políticas continentais com este (des) governo bolsonarista negacionista da ciência e da racionalidade…

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