Desenvolvimento do Extremo Oriente russo: movido pelo espírito pioneiro

Foto: divulgação

Uma fascinante conferência ocorreu de 4-6 de setembro, em Vladivostok, Rússia, o quinto Fórum Econômico Oriental (EEF, na sigla em inglês). Na pauta, as perspectivas para o desenvolvimento econômico do Extremo Oriente russo, um projeto colossal para o futuro, não apenas do país, mas de toda a humanidade. Como no tempo do grande cientista alemão Alexander von Humboldt (1769-1859), pioneiro na exploração daquela vasta região (e também da América Latina), um grande desafio de hoje é como explorar e desenvolver uma região que é duas vezes maior que a Índia, mas tem apenas 8 milhões de habitantes (contra os 1,3 bilhão de indianos).

Em seu discurso de saudação aos 8.700 participantes de 65 países, incluindo delegações da China, Índia, Coreia do Sul e do Norte, Japão, Malásia, Mongólia e vários outros países da Ásia-Pacífico, além de, pela primeira vez, uma grande delegação empresarial da Itália (praticamente, a única presença europeia), o presidente Vladimir Putin qualificou o desenvolvimento da região, o fortalecimento do seu potencial econômico e de inovação e a elevação do padrão de vida dos seus habitantes como “a principal prioridade e um objetivo nacional fundamental da Rússia”. Ele enfatizou que, como ator-chave na Eurásia, a Rússia confere uma grande importância a um desenvolvimento dinâmico da região Ásia-Pacífico.

O discurso otimista de Putin contrasta fortemente com a inibição e o pessimismo cultural prevalecentes em vários países europeus. Por exemplo, atualmente, a Alemanha concentra quase exclusivamente a atenção dos seus cidadãos na questão das mudanças climáticas, ao mesmo tempo em que mantém a sua atitude obstinada em relação às sanções contra a Rússia e uma atitude crítica em relação ao papel global da China.

Sem surpresa, a China se posiciona para ser um parceiro muito importante na empreitada, como se observa com a importante delegação liderada pelo vice-primeiro-ministro do Conselho de Estado, Hu Chunhua. Durante o fórum, o governo regional de Khabarovsk (em Amur, perto da fronteira com a China) e a empresa chinesa Sherwood Energy assinaram um acordo para a construção da maior planta de metanol do mundo. Outras empresas chinesas pretendem investir o equivalente a 700 milhões de dólares em projetos de processamento de leite.

Além da China, também esteve presente uma grande delegação japonesa, liderada pelo primeiro-ministro Shinzo Abe. Os acordos bilaterais envolveram projetos na área médica e a estatal russa Rosneft ofereceu participações em projetos de exploração e produção de petróleo e gás, refinarias e projetos petroquímicos. O maior deles contempla investimentos japoneses de 5,5 bilhões de dólares na construção de uma planta de gás natural liquefeito (GNL) na Península de Jamal, no Ártico.

Outro chefe de governo presente foi o primeiro-ministro indiano Narendra Modi, que anunciou uma linha de crédito de 1 bilhão de dólares para projetos conjuntos no desenvolvimento da região. Modi ressaltou que “Vladivostok é uma confluência da Eurásia e do Pacífico. Isto representa oportunidades para as rotas do Ártico e da Passagem do Norte”, observando que a população do Extremo Oriente tem superado “os desafios da natureza com seu trabalho incansável, coragem e inovação”, transformando “a terra congelada em um canteiro de flores”.

Sobre a visão de Putin para a região, Modi afirmou que “a sua abordagem holística aqui é um esforço motivador para melhorar todos os aspectos da vida, seja economia ou educação, saúde ou educação. esportes, cultura ou comunicação, comércio ou tradição”. Segundo ele, “quando os navios começarem a navegar entre Vladivostok e Chennai e quando Vladivostok se tornar o trampolim da Índia no mercado do Nordeste da Ásia, a parceria Índia-Rússia se aprofundará e florescerá ainda mais. Então, o Extremo Oriente se converterá numa confluência da União Eurasiática, de um lado, e do outro, um Indo-Pacífico aberto, livre e inclusivo”.

A ausência europeia

Um aspecto a se lamentar no fórum foi a perda de relevância da Europa, que limitou-se a uma importante delegação italiana e uma menor britânica. Isto, a despeito de ter sido anunciado que a empresa ferroviária russa RZD reduziu de 19 para 11 dias o frete de cargas para a Europa pela Ferrovia Transiberiana. O fato é que a Europa insiste em manter-se presa na obsessão das sanções contra a Rússia e em mostrar-se incapaz de oferecer uma resposta produtiva à Iniciativa Cinturão e Rota chinesa.

Durante a sessão plenária, Putin fez um esboço ousado:
A força e as vantagens competitivas do Extremo Oriente estão em seu povo talentoso, trabalhador e enérgico, jovens instruídos e ambiciosos, em novos centros de pesquisa, no crescimento industrial e nas indústrias do futuro. A sua força está em ricos recursos naturais, em um enorme potencial logístico, como a Rota do Mar do Norte e outras rotas transeurasiáticas. Por fim, mas não menos importante, a sua força é um símbolo de inovação, na proximidade com economias em rápido desenvolvimento da região mais dinâmica do mundo, a Ásia-Pacífico. Embora, em épocas anteriores, o Extremo Oriente fosse uma área usada principalmente para fins militares, ele se tornou um símbolo de abertura para todo o país, um símbolo de inovação e determinação em levantar todos os tipos de barreiras aos negócios e contatos humanos e cooperação na região Ásia-Pacífico como um todo.
Como exemplos, ele apontou para as excelentes relações com a Índia, China, Mongólia, Coreia do Sul, Malásia, Japão e outros países da região, baseadas nos “princípios de respeito e diálogo honesto”.

Putin falou sobre as condições especiais oferecidas pelo Estado russo para fomentar as atividades produtivas na região, envolvendo regimes fiscais especiais e medidas de apoio estatal. Segundo ele, recentemente, cerca de 369 empresas instalaram-se na região, com investimentos da ordem de 2,5 trilhões de rublos (aproximadamente 40 bilhões de dólares) e representando mais de 60 mil novos empregos. O regime de porto livre de Vladivostok foi estendido a 22 municípios, com o objetivo de facilitar a integração das regiões do Extremo Oriente no espaço econômico da Ásia-Pacífico e promover o desenvolvimento de empresas de alta tecnologia. Nos últimos cinco anos, afirmou, o crescimento da produção industrial no Extremo Oriente aumentou cerca de 23%, quase três vezes mais que no restante do país.

Em Vladivostok, a Universidade Federal do Extremo Oriente está se desenvolvendo como um centro de novas competências, intercâmbio de jovens e cooperação internacional, com experimentos ambiciosos em educação, ciência e indústrias inovadoras na nova era tecnológica. “Nos anos acadêmicos anteriores, a universidade recebeu 20 mil estudantes, incluindo 3.500 estrangeiros de 74 países. Mais de 200 professores estrangeiros estão ensinando lá e traduzirão as conquistas econômicas da região feitas nos últimos anos em avanços sociais, a fim de oferecer às pessoas uma melhor qualidade de vida”, destacou Putin.

O presidente caracterizou o Extremo Oriente russo como “uma região muito jovem”, com um enorme potencial demográfico que precisa ser preservado e ampliado. “Aqui, a taxa agregada de nascimentos é superior à média nacional. Dos 8,2 milhões de habitantes do distrito federal, quase 1,5 milhão são estudantes” de todos os níveis. Ele anunciou que, logo, haverá um aumento dramático na construção de moradias modernas, incluindo um programa especial de hipotecas, para que os jovens contrair empréstimos para comprar apartamentos ou casas. Igualmente, há incentivos para que médicos, paramédicos e professores se modem para a região.

Segundo Putin, “o futuro está nas mãos dos jovens e estudantes de hoje, que amam sua região e querem viver e trabalhar aqui. Precisamos oferecer a eles uma oportunidade de obter educação de qualidade, independentemente da renda ou da situação financeira de suas famílias. (…) Das 1.834 comunidades no Extremo Oriente, 1.614 têm uma população de menos de 5.000 pessoas cada uma, enquanto cidades e vilas podem estar a centenas de quilômetros de distância ”.

Um dos empreendimentos citados por ele é um novo “cluster” de inovação na Ilha Russky, em torno do centro de lançamentos espaciais Vostochny. Além disto, indústrias aeronáuticas, processamento de gás natural e químicas estão se desenvolvendo ativamente na região. A construção do estaleiro Zvezda está em andamento e até 2024 serão modernizados 40 aeroportos na região, que expandirão a rede de vôos domésticos.

Nos debates, respondendo a uma pergunta sobre o estaleiro, que visitou junto com Modi, Putin informou que ali serão construídos “navios modernos de grande capacidade para operações na plataforma continental, na zona do Ártico, e para o transporte de GNL, produtos petrolíferos e outros produtos”.

Igualmente, afirmou que a Rússia e a Índia implementam projetos conjuntos de exploração espacial: “Trabalhamos ativamente nesses programas com a República Popular da China; em princípio, mantemos uma boa cooperação com a Agência Espacial Europeia e esperamos que esse processo continue a se desenvolver, e também cooperamos com os Estados Unidos.”

Em termos de proteção ambiental, ele elogiou a beleza natural do Extremo Oriente e lembrou que, em âmbito global, a estrutura da indústria energética russa é uma das mais “verdes”: “A energia hidrelétrica e nuclear são responsáveis por mais de um terço de nossa indústria de energia, o gás é responsável por mais de 50%, e o gás é conhecido por ser o combustível mais ecológico de todos os hidrocarbonetos.”

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