Demissão de Bolton é revés para belicistas de Washington

A súbita demissão do conselheiro de Segurança Nacional do presidente Donald Trump, John Bolton, é um importante revés para os setores mais belicosos e radicais do Establishment estadunidense. Bolton era de longe o mais agressivo, belicista e desagregador entre os principais assessores de Trump, e vinha se empenhando com sucesso em sabotar todas as suas tentativas de encaminhamento da crise na Venezuela, entendimentos com a Coreia do Norte e o Irã e de saídas dos conflitos no Afeganistão e na Síria, além de defender intervenções militares diretas contra esses países.

Com a sua saída, também perdem o seu melhor aliado em Washington o premier israelense Benjamin Netanyahu, às voltas com uma complicada campanha pela sua reeleição, da qual necessita desesperadamente para evitar um processo pelas notórias acusações de corrupção que o cercam, e o magnata dos cassinos Sheldon Adelson, um dos principais financiadores tanto de Netanyahy como de Trump.

Bolton, que foi o terceiro a ocupar o cargo no governo Trump, foi guindado a ele como um duplo agrado a Adelson e aos belicosos “neoconservadores” hegemônicos em Washington, em vez de por qualquer vínculo de amizade com o presidente, que nunca de caracterizou por elas.

A demissão foi no melhor estilo do Trump animador de reality show, quando dispensava os participantes com a frase, “Você está demitido!”. Usando o seu meio de comunicação favorito, o Twitter, Trump anunciou, na terça-feira 10 de setembro, que havia informado a Bolton “que os seus serviços não eram mais necessários na Casa Branca”, devido a desentendimentos com ele próprio e com outros altos funcionários do governo.

No dia seguinte, em uma entrevista na Casa Branca, Trump aprofundou uma virtual humilhação pública de Bolton, destacando os vários “erros muito grandes” cometidos pelo ex-conselheiro, principalmente, a sua menção ao “modelo líbio” para as negociações com a Coreia do Norte:

Assim que ele mencionou aquilo, o modelo líbio, que desastre! Vejam o que aconteceu com [o líder líbio Muamar] Kadafi. Eu não culpo [o líder norte-coreano] Kim Jong-un pelo que ele disse depois disso. E ele não queria mais nada com John Bolton. E isso não é uma questão de ser durão. É uma questão de não ser inteligente para dizer algo assim.

John não estava em linha com o que nós estávamos fazendo e, na realidade, em alguns casos, ele pensou que o que estávamos fazendo era muito duro. O Sr. Durão, vocês sabem, vocês tinham que ir ao Iraque. Ir ao Iraque era algo muito caro para ele (The Hill, 11/09/2019).

Embora o próprio Trump tenha dito que a gota d’água para a decisão tenha sido o fracasso de Bolton em relação à crise na Venezuela, fontes ligadas à Casa Branca afirmam que a motivação maior foi a sua oposição radical a qualquer tipo de entendimento com o Irã, que Trump está contemplando. Uma possibilidade é um sinal verde para a concessão de uma linha de crédito da União Europeia (UE), no valor de 15 bilhões de dólares, referente ao retorno das vendas de petróleo pelo Irã, que representaria um grande alívio para a pressionada economia do país. A iniciativa é do presidente francês Emmanuel Macron, ventilada durante a cúpula do G-7 em Biarritz, em agosto, oferecida a Trump como uma forma de superação do impasse com Teerã.

Em paralelo, Trump manifestou a disposição de reunir-se “sem pré-condições” com o presidente iraniano Hassan Rouhani, nos bastidores da abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, na próxima semana. No entanto, Teerã condicionou o encontro a uma sinalização clara de um alívio nas sanções impostas pelos EUA, depois que Trump se retirou do acordo sobre o programa nuclear iraniano, em 2018. A condição foi ressaltada por Rouhani, em conversa telefônica com Macron, sabendo-se que se trata de uma questão fechada para o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã, e a linha dura que o apoia, nem sempre simpática às posições moderadas de Rouhani.

De forma emblemática, um alto assessor do presidente iraniano, Hesameddin Ashena, também fez uso do Twitter para afirmar que a saída de Bolton representava “um sinal decisivo do fracasso da estratégia de pressão máxima dos EUA, em face da resistência construtiva do Irã (Bloomberg, 11/09/2019)”.

Além da Coreia do Norte e do Irã, Bolton é apontado como principal responsável pelo fracasso das negociações com o Talibã para uma retirada parcial dos EUA do Afeganistão, para as quais Trump estava disposto até mesmo a receber representantes do grupo islamista na Casa Branca.

Evidentemente, a decisão de Trump teve uma motivação pragmática com vista às eleições de 2020, para as quais pretende apresentar-se mais como um negociador exitoso do que como um presidente de guerra, como seus antecessores imediatos, Barack Obama e George W. Bush.

Independentemente dos desdobramentos imediatos das iniciativas da Casa Branca, a defenestração do “Sr. Durão” representa um forte golpe nas pretensões dos “neoconservadores” e outros setores ultrabelicitas de Washington, no sentido de manter os atuais múltiplos empregos da máquina bélica estadunidense como instrumento favorito de política externa e preservação da hegemonia que veem ameaçada pela ascensão do eixo eurasiático encabeçado pela China e a Rússia, como novo centro de gravidade geoeconômico e geopolítico do planeta.

Trump anunciou que o substituto de Bolton será anunciado na próxima semana.

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