Resenha de Flávio Goldberg, advogado e mestre em Direito.
(publicada no Portal Ig em 31 de março de 2026)
Livro confronta revisões sobre o imperador Dom Pedro I e se apresenta como levante contra a falsa moralidade aplicada à história
Há obras que se limitam a narrar a história; outras, mais raras, assumem a função de reconstituí-la com densidade crítica e coragem intelectual. É nessa segunda categoria que se insere o mais recente trabalho de Aldo Rebelo, Dom Pedro I – Caudilho do Brasil, lançado em 31 de março, na cidade de São Paulo, cuja proposta ultrapassa o mero relato biográfico para se afirmar como um verdadeiro gesto de resistência cultural.
Ao revisitar a figura de Dom Pedro I, o autor não apenas reabilita um personagem historicamente tensionado por leituras parciais, mas também enfrenta, com notável vigor argumentativo, uma tendência contemporânea que, sob o pretexto de revisão historiográfica, frequentemente resvala na desconstrução sistemática dos fundamentos da identidade nacional. Nesse ponto, a obra assume contornos quase normativos, como se estabelecesse um limite ao arbítrio interpretativo que ignora o contexto histórico em nome de juízos anacrônicos.
A crítica de Rebelo à prática de julgar o passado com os valores do presente revela, em essência, uma advertência metodológica que dialoga com a própria ideia de segurança jurídica aplicada ao campo da história. Não se pode reinterpretar fatos pretéritos à luz de critérios que lhes eram absolutamente estranhos sem incorrer em distorção. Tal postura, longe de representar um saudosismo acrítico, constitui um chamado à responsabilidade intelectual.
O livro não se prende às amarras de uma biografia tradicional. Alterna entre episódios da trajetória política e pessoal do imperador e incursões mais amplas sobre personagens que orbitam o processo de independência, como Leopoldina, José Bonifácio, Thomas Cochrane e Maria Quitéria. Essa construção fragmentada, porém coerente, confere à obra uma densidade narrativa que espelha a complexidade do próprio processo de formação do Estado brasileiro.
Mas é no plano das ideias que o livro revela sua maior força. Ao afirmar que o grito do Ipiranga e a figura de Dom Pedro constituem um dos mais simbólicos mitos fundadores da nacionalidade, Rebelo não apenas resgata um episódio histórico. Ele reafirma a legitimidade dos símbolos como elementos estruturantes da coesão social. Em tempos em que tais referências são frequentemente relativizadas ou esvaziadas, essa defesa adquire inequívoco caráter de levante.
E aqui reside o ponto central da obra. Trata-se, sem exagero, de um contraponto àquilo que se pode denominar de falsa moralidade contemporânea, um discurso que, sob a aparência de virtude, opera muitas vezes como instrumento de deslegitimação da própria história nacional. Rebelo, com sua escrita firme e intelectualmente honesta, recusa essa lógica e propõe uma releitura que não ignora contradições, mas tampouco se rende à tentação de reduzir o passado a um inventário de culpas.
No plano mais amplo, o livro de Aldo Rebelo cumpre uma função que transcende o campo historiográfico. Reafirma a importância de uma narrativa nacional minimamente coesa, sem a qual o próprio conceito de comunidade política se fragiliza. Em linguagem quase jurídica, trata-se de uma defesa dos elementos constitutivos da identidade brasileira, ameaçados por leituras que, ao pretenderem desconstruir, acabam por dissolver.
