Garrincha, o inventor do futebol barroco!

O futebol brasileiro possui a vocação para a consagração pela beleza, pela exuberância daquilo que oferece ao olhar contemplativo um instante descomunal e sublime. Garrincha é a encarnação do gênio estético do Povo. Um homem barroco, definitivo e plástico. Garrincha é o Aleijadinho da finta, o Antônio Francisco Lisboa da jogada entusiasmada, o brasileiro que reverbera a sinuosidade perfeita da expressão dramática.

Em síntese: o maior driblador da história esculpiu com gestos de perna, talhou e inventou tensões estéticas com os pés – Garrincha é o segundo nome do Barroco Mineiro. Para Mário de Andrade, a originalidade de Aleijadinho foi o primeiro gesto de independência da antiga colônia de Portugal. Ao seu modo, Garrincha proclamou a Independência Brasileira ao inventar a alegria do povo, o sorriso das massas, o gargalhar das multidões.

Com Garrincha e Pelé em campo, a seleção brasileira não soube o que era perder.

Antes de Garrincha, o futebol era uma Idade Média. O gramado era o pasto perfeito para o tédio bovino dos acontecimentos triviais. Além de gênio plástico, Garrincha foi um Copérnico e um Galileu da bola. O nosso Mané tirou o mundo do sedentarismo confortável e monástico e, ao mesmo tempo, fez com que todos percebessem que o sol estava no lugar errado – o craque colocava o mundo em movimento. Antes de Garrincha, a bola ainda não havia se tornado bola. A bola possuía a coerência geométrica dos objetos esféricos; contudo, antes dos pés sublimes de Mané, a pelota ainda não havia nascido para si mesma.

Quando o craque nasceu, a medicina pronunciou o que parecia ser uma triste e desoladora sentença: o menino Manoel Francisco dos Santos não seria capaz de andar, de exercer sobre o mundo um único e modesto passo. Para a razão, o craque era um aleijado. Dito e feito. Mané jamais caminhou sobre o mundo. Com seu nome de Pássaro, o camisa 7 foi para o futebol um ser mitológico –  possuía asas e ostentava pernas retorcidas! Garrincha era um curupira que aprendeu a voar! O verdadeiro mito, um folclore autêntico, uma lenda brasileira!

Insisto, leitor: Garrincha foi o inventor do futebol Barroco. O craque dos dribles infinitos tornou o estádio do Maracanã um templo, o lugar da fé e da devoção popular, onde a geral e a arquibancada se convertiam na igreja de Nossa Senhora do Carmo de Ouro Preto. A fé que o gênio despertava era, entretanto, uma fé alegre – um tipo de crença que destoa da fé dos tempos atuais. Na capital do Brasil, não por acaso, um majestoso templo foi erguido em sua homenagem – o estádio Mané Garrincha!

Garrincha encantou a geral do Maracanã no tempo em que os pobres, os mestiços e os pretos podiam ver seus ídolos em campo.

Garrincha era a encarnação da alegria do Povo, o inventor da gargalhada das massas. No gramado e espontaneamente, como uma metamorfose alada, com o mistério do casulo convertido em aquarela voadora, o artista desfilava um repertório imodesto de ilusões fantásticas. Da geral, como numa procissão inútil e fadada ao fracasso, o povo tentava acompanhar a sequência de milagres inventados pelas arrancadas do portentoso driblador – o maior dos milagres era a alegria do Povo!

No patrimônio eterno da sagrada memória dos feitos impossíveis, consta dos fatos inesquecíveis, o acontecimento dos ‘’três minutos mais incríveis da história do futebol’’. Repito: Garrincha ensina a crer pelo incrível, inspira um tipo de fé na alegria. Contra o chamado ‘’futebol científico’’ praticado pelos soviéticos, nosso Mané iniciava a trinca eterna dos minutos futebolísticos. Gavril Katchalin, o técnico da URSS, era uma espécie de engenheiro da computação. O estrategista russo possuía um grande banco de dados, um imenso pátio de informações técnicas e relatórios completos sobre os seus adversários. Outras vez, diante do Gênio barroco, tudo se converteria num esforço inútil e débil na tentativa de marcar o Sátiro Brasileiro.

Por ironia da numerologia da bola, na Copa de 1958, o camisa 7 vestiu a 11. A maior ironia de todos os tempos, todavia, ainda esperava para acontecer. Redimindo a blasfêmia de ter um Garrincha no banco, o técnico Vicente Feola deu a titularidade ao Gênio Brasileiro. Iniciada a partida, Garrincha recebe a bola e avança pela direita e, com a leveza irresponsável da probabilidade negativa da graça divina, o ponta direita driblou João Kuznetsov. Pobre russo, pobre João. Kuznetsov caiu de forma patética no chão. O marcador russo parecia um devoto dobrado diante da imagem do Santo Milagreiro. Desmoralizado o conjunto defensivo do adversário, o craque fez a bola explodir na trave. Yashin, aclamado melhor goleiro do mundo, sentia no peito a impotência retumbante de todos os mortais.

O escultor Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, foi o Garrincha do Barroco e Garrincha foi o Aleijadinho dos gramados.

Uma segunda explosão foi ouvida. Era Pelé quem implodia o travessão do Aranha Negra. A pressão absoluta, por fim, resultaria em gol. Na sequência, Didi faria um passe magistral e, com a precisão dos seres impiedosos, o artilheiro Vavá abriria o placar. A jogada que deu início ao primeiro gol brasileiro na partida nascia das possibilidades tortas das penas de Garrincha. Sofrendo de labirintite, a defesa adversária sabia da inocuidade de seus esforços. O Craque havia desnorteado a defesa do futebol científico. Um time inteiro despencava tonto de humilhação. Tudo que aconteceu depois era como um eco e um reflexo da ilusão criadora do Pássaro Driblador. O trio de minutos eternos da história do futebol era mais uma escultura do Aleijadinho dos gramados.

Como qualquer herói, como qualquer ser forjado pelo princípio de diferenciação, o Craque possuía seu ponto de vulnerabilidade. Como um Aquiles do futebol brasileiro, a anatomia dos grandes mitos fez do joelho de Garrincha um calcanhar. O calcanhar de Aquiles, o joelho do Craque. É impossível que em nossa língua ainda não tenhamos inventado uma expressão, uma frase para traduzir o ponto fraco de um ser invencível, implacável e heroico – o joelho de Garrincha. Talvez o nosso idioma também tenha caído nas miragens produzidas pelo Pássaro, nas ilusões fabricadas pela ludibriosa cinesia do Craque.

Consumido pela dor, Garrincha teve de abandonar os gramados. O joelho, o ponto de vulnerabilidade do Gênio, foi a estação terminal de sua trajetória nos campos. E foi assim, derrotado em seu ponto fraco, que o Mané abandonou o futebol. Com razão, um grande poeta havia afirmado: as tristezas voltam, e não há outro Garrincha disponível. Precisa-se de um novo, que nos alimente o sonho. O Brasil atual, tornado triste e desesperado, precisa de um novo Garrincha. O Brasil precisa de alguém que possa nutrir a dimensão onírica de seu Povo. O Povo Brasileiro precisa de alguém que mate a sua fome de alegria e de sonho.

3 COMENTÁRIOS

  1. Excelente. Teixeira Mendes consegue nos fazer ver e reviver, de forma magistral, a grandeza de um homem, de um futebol, da expressão criadora de um povo. A habilidade que expõe a grandeza de grandes é também ela grande.

  2. Há tempos não leio uma crônica tão bem escrita, lírica, imponente, exaltando um dos nossos maiores jogadores de futebol do nosso Brasil!

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