Um novo superciclo de commodities?

Frente à alta recorde no preço das principais commodities minerais e agrícolas no primeiro trimestre de 2021, alguns analistas têm levantado a hipótese de que a economia mundial pode estar iniciando um novo superciclo de commodities semelhante ao que ocorreu no início dos anos 2000.  “Naquela época, duas forças principais estavam por trás da alta dos preços. Primeiro, a entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC), que fez com que o crescimento do país passasse da faixa de 7% a 8% para patamares como 10% e 12%. Outro fator foi o longo período de política monetária expansionista nos Estados Unidos, que levou ao enfraquecimento do dólar ante outras moedas”[i]. A adoção, pelo governo chinês, do plano de investimentos de 4 trilhões de RMB (USD 586 bilhões) em obras de infraestrutura para fazer frente à crise de 2008 ajudaram a prolongar esse ciclo de alta até o fim da década.

Desta vez, os fatores por trás da elevação dos preços são mais difusos e o fôlego do atual ciclo de alta parece ser mais curto. Como destaca matéria do jornal Valor, “Salvo algumas vozes discordantes, o atual ciclo das commodities é considerado pelos analistas econômicos como temporário – e pode se desfazer em um ano ou dois, quando a recuperação cíclica de China e Estados Unidos se esgotar ou quando o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) começar a retirar estímulos monetários. Ou antes disso, já que a tarefa de projetar a evolução dos preços das commodities é tão difícil quando antecipar a taxa de câmbio”[ii].

A recuperação na Europa e na China – a maior consumidora mundial de matérias-primas – além de fortes sinais de retomada da economia americana, onde um boom do mercado imobiliário e a intenção do governo Biden de lançar um megapacote de investimentos em infraestrutura de US$ 2,3 tri alimentam as expectativas de aumento de demanda, estão por trás do novo ciclo de alta. 

Uma nova onda de investimentos em projetos da economia verde e em carros elétricos também está puxando a demanda de diversas matérias-primas. “A China gastou US$ 150 bilhões apenas em petróleo, minério de ferro e cobre nos primeiros quatro meses de 2021. O valor supera em US$ 36 bilhões a quantia gasta no mesmo período do ano passado, um reflexo da recuperação da demanda e aumento dos preços”[iii].

Qual será o folego desse novo “superciclo” é uma questão em aberto, mesmo porque as elevadas taxas de crescimento da China que sustentaram o ciclo anterior não retornarão mais. A taxa de crescimento da China para os próximos cinco anos está projetada para algo entre 5% e 6% ao ano. O país está substituindo o modelo econômico de crescimento baseado no uso extensivo de recursos naturais e mão-de-obra para um modelo intensivo em tecnologia e conhecimento, poupador de recursos. Há também uma mudança de foco, com menos ênfase em investimentos e exportações e mais atenção para o consumo interno.

Mas o fato é que houve um aumento generalizado no preço das commodities nestes primeiros três meses de 2021.   O S&P GSCI spot index, que acompanha o movimento de preço de 24 matérias-primas já subiu 24% este ano.

O minério de ferro liderou o aumento, subindo mais de 150% para um valor recorde superior a US$ 230 por tonelada. Os preços do petróleo se recuperaram para níveis pré-pandêmicos, acima de US$ 65 o barril desde o início do ano. Embora a demanda ainda esteja deprimida por viagens internacionais, o preço do petróleo acelerou com a reabertura das economias. Como a Opep e seus aliados como a Rússia continuam a restringir o fornecimento, há a expectativa de os preços do petróleo atingirem US$ 80 o barril no segundo semestre deste ano.

O preço do cobre também atingiu recordes históricos, sendo negociado acima de US$ 10.000 a tonelada pela primeira vez desde 2011. Um conjunto de matérias-primas necessárias para as baterias e motores de veículos elétricos também dispararam. O carbonato de lítio subiu mais de 100% neste ano e as terras raras, quase 40%, assim como o cobalto, metal usado em baterias. Os preços das commodities agrícolas, como soja e milho, também estão em alta. O preço da soja e do milho praticamente dobrou em um ano, subindo 80% e 84%, respectivamente.

O superciclo de commodities do início dos anos 2000 alimentou o crescimento das economias da América Latina e permitiu que diversos governos da região, o Brasil inclusive, pudessem implementar políticas sociais progressistas sem comprometer o equilíbrio fiscal exigido pelos mercados. Caso esse novo superciclo realmente ocorra, qual poderia ser seu efeito para os países da região, às voltas com baixo crescimento, alto desemprego, elevados déficits públicos e sob pressão dos mercados para reequilibrar os orçamentos e restringir os gastos públicos destinados a contrabalançar os efeitos da pandemia?

Trata-se de outra questão em aberto. Por enquanto o único efeito palpável que se observa é a inflação no preço dos alimentos puxada pela elevada demanda mundial, aumentando a instabilidade social. A Argentina chegou a suspender a exportação de carne porque a elevada demanda chinesa estava desabastecendo o mercado interno. Em tese, um maior crescimento econômico puxado pelo aumento da demanda das commodities exportadas pelos países da região poderia melhorar a arrecadação tributária, aliviar as contas públicas e dar espaço para o aumento dos gastos sociais. Mas para que isso ocorra seria preciso vencer a quebra de braço com os mercados que prefeririam ver esses recursos destinados à redução da dívida pública e à busca do equilíbrio fiscal.

Possíveis impactos sobre a economia brasileira e as eleições de 2022

“A combinação de alta dos preços de commodities, de taxa de câmbio desvalorizada e de expansão do comércio mundial vai dar uma sustentação mínima à atividade econômica no Brasil neste ano, contrabalançando uma parte dos efeitos negativos da pandemia e das incertezas políticas e fiscais”[iv] afirma matéria do jornal Valor Econômico do dia 18/05.

Animados com os resultados do primeiro trimestre, bancos, consultorias e o próprio governo vêm revisando para cima as projeções de crescimento da economia brasileira para 2021. A maioria está apostando agora em um crescimento mais próximo dos 4% para 2021. O resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil no primeiro trimestre, que apontou crescimento de 1,2% em relação aos três meses anteriores, surpreendeu positivamente e levou alguns bancos a projetarem um crescimento na casa dos 5%, como foi o caso do Citi Brasil (5,1%), Bank of America (5,2%), Goldman Sachs (5,5%) e BNP Paribas (5,5%)[v]. O fato, entretanto, de não estarem alterando as projeções para 2022, que se mantêm na casa dos 2%, mostra que o mercado não acredita que essa melhora tenha muito fôlego.

Nos cálculos do governo, a retomada econômica deve gerar uma folga de até R$ 40 bilhões no Orçamento, que funcionará como base para um novo programa social, previsto para o segundo semestre e outros projetos com apelo eleitoral como o “passaporte tributário”, alcunha do novo Refis. Este cenário é também a principal aposta do governo para garantir a reeleição de Bolsonaro em 2022. “O que nós vamos viver neste ano e no próximo é muito parecido com o que Lula viveu entre 2009 e 2010”, afirmou líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), ao citar o ciclo das commodities. “O presidente é o favorito à reeleição”[vi].

Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, o ministro da Economia Paulo Guedes, conhecido por fazer previsões furadas, também se mostrou otimista: “Nós jogamos na defesa nos primeiros três anos, controlando despesas. Agora vem a eleição? Nós vamos para o ataque. Vai ter Bolsa Família melhorado, BIP [Bônus de Inclusão Produtiva], o BIQ [Bônus de Incentivo à Qualificação], vai ter uma porção de coisa boa para vocês baterem palma. Tudo certinho, feito com seriedade, sem furar teto, sem confusão”[vii].

Todo esse otimismo talvez seja mais expressão do desejo do que da realidade. Em primeiro lugar porque boa parte do crescimento de 2021 estará inflado por fatores estatísticos e, portanto, “Um crescimento de 3,6% significa que a atividade está apenas parada. O Brasil deve se expandir mais devagar que o mundo, cujo crescimento o Fundo Monetário Internacional (FMI) estima em 6%”[viii] . Em segundo lugar, a recuperação da economia tem sido muito desigual e alguns dos setores que mais empregam mão-de-obra, como os serviços e construção, na verdade encolheram no primeiro trimestre do ano.

 Conforme matéria do jornal Valor, “Enquanto a atividade agropecuária cresceu 5,8%, a financeira e de seguros aumentou 5,2%, a indústria de transformação teve expansão de 4,3%, outros setores tiveram queda acentuada. O grupo de transporte, armazenagem e correio teve retração de 1,1%, a administração, defesa, saúde, educação pública e seguridade social caiu 4,5%, construção teve contração de 2,9% e outras atividades de serviços (serviços prestados às famílias, às empresas e domésticos, dentre outros) tiveram queda de 9,5%”[ix].

 Os efeitos da pandemia sobre a economia popular têm sido devastadores. A não ser que o governo retome a ajuda direta à população com valores semelhantes ao de 2020, dificilmente esses números positivos vão se refletir na vida real da maioria das pessoas. O desemprego, no primeiro trimestre de 2021, subiu para 14,7%, atingindo um recorde de 14,8 milhões de brasileiros de uma população economicamente ativa de cerca de 100 milhões de pessoas. “É a maior taxa e o maior contingente de desocupados já registrado pela série histórica do IBGE, iniciada em 2012. O número de subutilizados chegou a 33,2 milhões e também atingiu nova máxima. Os chamados ‘desalentados’, que não são computados no número de desempregados, somaram outros 6 milhões”[x].

Isso significa que mais da metade da população economicamente ativa ou está desempregada ou vivendo de bicos. “Sem a recuperação do emprego e da renda falta sustentabilidade à retomada econômica. Como se tudo isso já não fosse preocupante, há ainda as turbulências no cenário político, que inibem os investimentos e tolhem as empresas. Não é por outro motivo que as previsões para 2022 são de crescimento do PIB inferior ao deste ano”[xi].

Por último, mas não menos relevante, há a questão da vacinação. Matéria do jornal Valor Econômico lembra que “A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) qualifica de “preocupante” a situação sanitária no Brasil e conclui em seu relatório sobre as perspectivas econômicas globais que a retomada da economia brasileira dependerá da evolução da pandemia. Para a OCDE, desde que a pandemia possa ser controlada e o ritmo da vacinação melhorado o Produto Interno Bruto (PIB) no Brasil poderá aumentar em torno de 3,7% em 2021 – comparado a 4,5% que bancos como o UBS já projetam para o país – e 2,5% em 2022 impulsionado por um aumento progressivo do consumo e dos investimentos domésticos”[xii].

O problema é que o ritmo da vacinação continua lento e irregular, devido à insuficiência de vacinas. E o governo federal pouco tem feito para acelerar a oferta dos imunizantes. Nas últimas semanas o Instituto Butantan, que produz a vacina CoronaVac, foi obrigado a paralisar a produção devido à falta de insumos que deveriam chegar da China, mas acabaram não chegando na data esperada. A Fiocruz, que produz as vacinas da AstraZeneca também teve problemas com o abastecimento de insumos também esperados da China. O governador de São Paulo e o diretor do Instituto Butantan atribuíram o atraso aos novos ataques de Bolsonaro ao governo da China[xiii]. Recentemente o presidente voltou a fazer insinuações de que a origem do vírus causador da Covid-19 poderia ser resultado de uma guerra bacteriológica da China[xiv].

Embora em nenhum momento as autoridades chinesas tenham estabelecido qualquer relação entre os atrasos e as insinuações de Bolsonaro é óbvio que isso não ajuda nenhum pouco nas nossas relações com a China. A China tem sido o principal fornecedor de vacinas não só para o Brasil e a América Latina, mas para a maioria dos países pobres e em desenvolvimento. A China remeteu mais da metade dos 143 milhões de doses de vacinas entregues aos dez países mais populosos da América Latina. A recente piora da situação da pandemia na Ásia também exige maior apoio e atenção da China. Ou seja, não falta no mundo quem precise da ajuda chinesa. Por que iriam dar prioridade exatamente a quem os ataca?

Embora a vacina russa Sputnik V esteja sendo amplamente administrada em outros países – já foi registrada em mais de 67 países, entre eles Argentina, Hungria, Belarus, Jordânia, Iraque, Venezuela, Egito – e já esteja sendo produzida no Brasil para ser exportada para países vizinhos, o governo brasileiro negou-se, até agora, a aprovar o seu amplo uso no país. No último dia 05 de junho, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) aprovou a importação excepcional dos imunizantes de forma controlada e com rigorosas restrições[xv], estabelecendo que o total de vacinados com a Covaxin – outra vacina indiana – ou com a Sputnik V não pode ultrapassar 1% da população nacional ou estadual, respectivamente.

Diz um dito popular que para quem não tem rumo, nem os bons ventos ajudam. Infelizmente, parece ser o caso do Brasil.


[i] Ribeiro, A. Commodities “salvam” a economia do Brasil. Mas essa “mágica” pode acabar em dois anos. Valor Econômico, 18/5/2021.

[ii] Idem, ibidem

[iii] Bloomberg. China envia sinal de alerta que pode abalar o boom global de commodities. Valor Econômico, 24/5/2021.

[iv] Ribeiro, A. Commodities “salvam” a economia do Brasil. Mas essa “mágica” pode acabar em dois anos.

Valor Econômico, 18/5/2021.

[v] Fernandes, A. et alii. PIB surpreende e bancos melhoram projeções para economia em 2021.Valor Econômico, 01/06/2021.

[vi] Truffi, R. Lima, V. e Exman, F. “Economia reelege Bolsonaro” diz Bezerra. Valor Econômico, 24/05/2021.

[vii] Salomão, A. e Caram, B. ‘Agora vem a eleição? Vamos para o ataque’, diz Paulo Guedes. Folha de S. Paulo, 23/05/2021.

[viii] Ribeiro, A. Commodities “salvam” a economia do Brasil. Mas essa “mágica” pode acabar em dois anos. Valor Econômico, 18/5/2021.

[ix] Safatle, C. A retomada da atividade é desigual. Valor Econômico, 04/06/2021.

[x] Alvarenga, D. e Silveira, D. Desemprego sobe para 14,7% no 1º trimestre e atinge recorde de 14,8 milhões de brasileiros. O Globo, 27/05/2021.

[xi] Idem, ibidem.

[xii] Moreira, A. Situação sanitária no Brasil é preocupante e condiciona retomada, nota OCDE. Valor Econômico, 31/05/2021.

[xiii] Vieira, A. G. Atraso de insumo chinês é retaliação a Bolsonaro, indica Doria. Valor Econômico, 11/05/2021.

[xiv] Schuch, M. e Bitencourt, R. Bolsonaro insinua que China pode ter criado Vírus na esteira de “guerra bacteriológica”. Valor Econômico, 05/05/2021.

[xv] Ribeiro, M. e Martins, L. Anvisa aprova importação das vacinas Covaxin e Sputnik V, com restrições. Valor Econômico, 04/06/2021

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1 COMENTÁRIO

  1. O artigo poderia abordar ainda a questão da escassez de chuvas nas regiões Sudeste, Centro-oeste e Sul com possível efeito sobre as restrições a oferta de energia para os setores produtivos.

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