Pode a Ucrânia vencer a guerra?

    Cossacos escrevem carta ao Sultão turco. Pintura de Ilia Repin (Rússia, 1844 - Finlândia, 1930).

    Transcorridos cinco meses desde o seu início, não há sinais de que a Guerra na Ucrânia esteja caminhando para um desfecho rápido. Ao contrário, o lento avanço das forças russas no leste do país mostra que, apesar da sua superioridade bélica, o apoio recebido pela Ucrânia dos aliados da Otan, nomeadamente dos Estados Unidos, com equipamentos militares mais avançados e de maior alcance, tem permitido aos militares ucranianos dificultar o avanço russo e prolongar um conflito que, não fosse isso, já estaria encerrado há tempos. Os russos precisaram de quase três meses para tomar o último quinto do território da província de Luhansk após redirecionar sua guerra para o leste do país na metade de abril. Mantido o atual status quo é possível que essa guerra se prolongue por meses a fio. Daí, entretanto, concluir que uma guerra de atrito poderia levar os russos à exaustão e permitir à Ucrânia retomar os territórios já conquistados e negociar uma paz em condição de força, como têm apregoado o presidente Zelenski e seus aliados na Otan, é pura ilusão.

    Embora os novos equipamentos fornecidos pelos Estados Unidos possam aumentar o custo para os russos manterem o controle dos territórios já conquistados e tornar o avanço para o leste em direção ao rio Dnieper e para o sul em direção a Odessa mais lento e custoso, isso não quer dizer de forma alguma que os russos serão forçados a abrir mão dos territórios já conquistados ou impedidos de avançar para novas áreas.

    A esse respeito Barry R. Possen, em matéria publica na revista Foreign Affair em 08/07, afirma: ‘Um possível contra-argumento é que o Ocidente poderia fornecer à Ucrânia uma tecnologia tão superior que poderia superar os russos, ajudando Kyiv a derrotar seu inimigo por meio de atrito ou guerra móvel. Mas essa teoria também é fantasiosa. A Rússia desfruta de uma vantagem de três para um na população e na produção econômica, uma lacuna que até as ferramentas de maior tecnologia teriam dificuldade em fechar. As armas ocidentais avançadas, como os mísseis guiados do Javelin e Nlaw Antitank, provavelmente ajudaram a Ucrânia a exigir um preço alto dos russos. Mas até agora essa tecnologia tem sido amplamente usada para alavancar as vantagens táticas que os defensores já desfrutam – cobertura, ocultação e capacidade de canalizar as forças inimigas por meio de obstáculos naturais e artificiais. É muito mais difícil explorar a tecnologia avançada para derrotar um adversário que possuir uma vantagem quantitativa significativa, porque isso exige superar números superiores e as vantagens táticas da defesa. No caso da Ucrânia, não é óbvio que tipo de tecnologia especial do Ocidente poderia dar tanta vantagem aos militares ucranianos a ponto de quebrar as defesas russas”.

    É preciso levar em conta, ainda, que os russos possuem uma poderosa indústria bélica que está operando a todo vapor para a produção de armas e munições para sustentar o esforço de guerra, enquanto a Ucrânia depende totalmente do envio de armas pelos aliados que, na medida em que a guerra se prolonga, vão ficando cada vez mais relutantes em sustentar um esforço de guerra que não vai chegar a lugar nenhum. A revista Economist, em matéria de 30/6, lembra que ‎ as fábricas de armas russas estão trabalhando em turnos duplos ou triplos, além de possuir grandes estoques de tanques antigos para usar. Já no lado ucraniano, lembra a revista, “‎O governo diz que eles estão sofrendo até 200 baixas por dia. Em 15 de junho, um general ucraniano disse que o exército havia perdido 1.300 veículos blindados, 400 tanques e 700 sistemas de artilharia, muito mais do que se pensava. Muitas das unidades mais experientes e bem treinadas da Ucrânia foram destruídas, deixando reservistas mais verdes para tomar seu lugar. Em 19 de junho, a inteligência de defesa britânica disse que havia deserções entre as tropas ucranianas.”

    Na mesma matéria, a revista lembra que as forças ucranianas têm usado a maioria de suas munições e, sem a capacidade de fabricação doméstica para reabastecê-las, agora dependem completamente de doações estrangeiras. Os combates recentes, destaca a revista, centraram-se em longas e pesadas barragens de artilharia que consomem grandes quantidades de munição. “Acredita-se que a Rússia, que tem enormes estoques, esteja bombardeando tão indiscriminadamente que toda a produção anual dos Estados Unidos seria suficiente para manter suas armas disparando por apenas duas semanas”, observa Alex Vershinin, um oficial aposentado do Exército ‎‎dos EUA‎‎. Embora a Ucrânia esteja tentando racionar seu consumo, os países ‎‎da Otan‎‎ podem ter dificuldade para mantê-la adequadamente suprida de bombas”‎. O resultado mais provável desta estratégia, afirma Barry R. Possen, não é um triunfo da Ucrânia, mas uma guerra sangrenta e irresolvida.

    A tese de que a ajuda militar à Ucrânia combinada com as sanções econômicas fará Putin recuar é igualmente fantasiosa. Se essa estratégia não funcionou nem com o Irã, um país com muito menos recursos, muito menos vai funcionar com a Rússia continental com tantos recursos que por mais de 70 anos, entre a Revolução Russa, em 1917, e o fim da União Soviética, em 1991, viveu isolada e boicotada pelo Ocidente e ainda assim transformou-se em grande potência militar e industrial. Aliás, tudo indica que os russos já estejam preparados para a hipótese de viver por uma ou duas décadas isolados do Ocidente e não teriam grandes dificuldades para isso.

    Primeiro, porque esse isolamento seria relativo. A Rússia não está isolada. Os russos continuam vendendo gás natural para a Europa que depende dele para gerar energia para sua indústria e suas cidades. Se o Ocidente não quiser o petróleo e seus derivados produzidos na Rússia não faltará compradores na Ásia, África e América Latina. Insumos de alta tecnologia que a Rússia não produz podem, em parte, ser obtidos na China. A Índia não cortou seus laços comerciais com a Rússia.  Os países que até agora se negaram a condenar a Rússia abrigam mais da metade da humanidade. Prova de que a Rússia não está isolada como se quer fazer crer, foi o Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo, também conhecido como “Davos da Rússia”, realizado entre 15 e 18 de junho, na antiga capital imperial da Rússia. Apesar das medidas tomadas por alguns países hostis à Rússia para impedir a participação da comunidade de negócios e funcionários de governo no fórum, compareceram ao evento mais de 14.000 pessoas de 130 países, com 81 países enviando representantes oficiais. Segundo, porque como afirma o já citado Possen, “A Rússia é um país vasto e populoso, com amplas terras aráveis, suprimentos de energia abundantes, muitos outros recursos naturais e uma base industrial grande, apesar de datada”.

    Jens Stoltenberg, o secretário-geral da Otan advertiu: “Devemos nos preparar para o fato de que [a guerra] pode levar anos.” Mais do que para os russos, para os europeus isso seria uma tragédia. O próximo inverno pode se tornar um pesadelo para alguns países da Europa caso os russos resolvam fechar as torneiras do gás natural que mandam para a Europa. Os únicos que estão ganhando com isso são as empresas do complexo industrial-militar americano. Mas mesmo nos Estados Unidos, a disparada nos preços da energia provocada pela guerra empurrou a inflação para o nível mais alto dos últimos 40 anos e ameaça descarrilhar a economia americana que vinha se recuperando bem dos impactos da pandemia e fulminar o Partido Democrata nas eleições de meio-mandato em novembro. A perda do controle pelos democratas sobre a Câmara dos Deputados já é dada como certa e o Senado pode ter o mesmo destino.

    O presidente Joe Biden prometeu apoiar a Ucrânia pelo tempo que for necessário. Os Estados Unidos já gastaram cerca de US$ 8 bilhões em ajuda militar à Ucrânia e o Congresso aprovou um orçamento suplementar de US$ 40 bilhões. Mas na medida em que a guerra se prolonga e o presidente Biden se torna mais impopular que Trump a esta altura do governo, muitos se perguntam até que ponto a opinião pública americana estaria disposta a concordar com esse apoio ilimitado dos Estados Unidos ao presidente Zelenski. A situação da Europa é ainda mais complicada. Como afirmou a revista The Economist (30/06), “Quanto mais tempo a guerra continua, e maior o custo em termos de preços punitivos da energia e desaceleração das economias, mais relutantes os aliados da Ucrânia se tornarão para fornecer armas e dinheiro sem fim”.

    Os russos não vão sair das áreas ocupadas, como já ficou evidente no caso da Criméia, em 2014, mesmo porque contam com o apoio de parte da população local formada por russos étnicos; em muitas áreas ocupadas já estão sendo instalados governos pró-russos e parte da população local está sendo engajada no combate aos militares ucranianos. Enquanto a guerra não acabar, os russos vão continuar, mesmo que lentamente, sua marcha para o Leste e para o Sul, que vai se tornando o foco principal do conflito, para, em um eventual acordo de paz, negociar em condição ainda mais vantajosa. Odessa será seu próximo objetivo e Zelenski deveria buscar um acordo antes que a Ucrânia perca todas as suas saídas para o Mar Negro.

    O governo do presidente Zelenski, por sua vez, dá sinais de rachaduras, como ficou evidenciado pela demissão de altos funcionários, acusados de não se empenharem o suficiente para livrar o governo dos colaboracionistas pró-Rússia que, pelo jeito, não são poucos. Saber até que ponto são de fato traidores ou apenas discordam de levar adiante uma guerra que consideram perdida é difícil. O embaixador ucraniano em Londres já afirmou que quem governa de fato o país são os militares; Zelenski é apenas um relações públicas, um garoto propaganda. Ele e sua mulher deram agora para posar em revista de moda, verdadeiro escárnio para as milhares de famílias que perderam entes queridos na guerra. Nunca é demais lembrar que o governo ucraniano, às vésperas da guerra, encontrava-se em situação difícil devido a seguidos escândalos de corrupção envolvendo figuras da cúpula do governo. É só uma questão de tempo que comecem a surgir denúncias de apropriação de recursos enviados pelos aliados por figuras de proa do governo ucraniano. O que ocorreu no caso do Afeganistão é emblemático: grande parte dos recursos enviados pelos Estados Unidos e seus aliados foram desviados por membros da cúpula do governo que, na véspera da queda para o Taliban, deram um jeito de fugir do país levando centenas de milhões de dólares. Tudo indica que na Ucrânia pode ocorrer o mesmo.

    Luís Antonio Paulino é professor associado da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e membro da equipe de colaboradores do portal “Bonifácio”.

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