O que as eleições na Colômbia nos falam sobre a América Latina

As dores da Colômbia - Fernando Botero (Medelín, Colômbia, 1932)

Na primeira década deste século, a América Latina viveu uma onda de eleições de partidos de esquerda: Lula e Dilma no Brasil, Cristina Kirchner na Argentina, Rafael Correa no Equador, Fernando Lugo no Paraguai, Evo Morales na Bolívia, José Mujica no Uruguai. Embalados por uma conjuntura mundial favorável e uma melhora expressiva nos termos de troca de suas exportações graças ao boom mundial de commodities, esses governos lograram realizar melhorias substantivas nas condições de vida da população mais pobre sem mexer muito com os interesses dos ricos. Com a crise de 2008, os ventos começaram a soprar no sentido contrário.

No Brasil, por exemplo, os preços da commodities que haviam crescido 170% no governo Lula recuaram 23%, entre 2011 e 2014, no governo Dilma. As relações de troca que subiram mais de 40% nos oito anos da gestão Lula, recuaram 10%, entre 2011 e 2014.  Com as receitas fiscais minguando, o dinheiro disponível já não era suficiente para pagar juros aos investidores em títulos do governo e manter os gastos sociais. O endividamento público aumentou e com ele os juros. As economias pararam de crescer e começaram a andar para trás. Com a piora das condições de vida, os eleitores deram as costas aos governos de esquerda.

Maurício Macri elegeu-se na Argentina com um discurso neoliberal. Hugo Cartes, Pedro Pablo Kuczynski e Sebastián Piñera, todos de centro-direita, elegeram-se respectivamente no Paraguai, Peru e Chile.  A direita se manteve no poder na Colômbia, com Iván Duque e, em 2021, Guilhermo Lasso, também de direita, elegeu-se no Equador. Luís Lacalle Pou, também de centro-direita, elegeu-se no Uruguai. No Brasil, a presidente Dilma Rousseff sofreu impeachment, em 2016. Assumiu seu vice, Michel Temer, de centro e, em 2018, com Lula preso, Jair Bolsonaro, de extrema-direita tornou-se presidente.

Os programas neoliberais adotados por todos esses governo de direita e centro-direita não lograram recolocar as economias da região novamente no caminho do crescimento. Ao contrário, a obsessão com o equilíbrio fiscal cortou investimentos públicos e gastos sociais, agravando ainda mais as condições de vida da população e travando a economia. As tensões geopolíticas e a pandemia da Covid-19 tornaram o que já estava ruim ainda pior. O povo revoltado saiu às ruas em muitos países da região, como no Chile, Peru e Colômbia. E novamente o ponteiro da bússola eleitoral voltou a apontar para a esquerda.

Na Argentina, Alberto Fernandez derrotou Macri que tentava se reeleger. Na Bolívia, Luís Arce se elegeu presidente depois do golpe que impediu Evo Morales de assumir um terceiro mandato consecutivo. No Chile, o principal líder das revoltas estudantis de 2019, Gabriel Boric, tornou-se o mais jovem presidente da América Latina, com apenas 36 anos. E agora, na Colômbia, Gustavo Petrus derrota um populista de direita e se torna o primeiro presidente de esquerda em um país com forte tradição conservadora e católica. No Brasil, o também candidato de esquerda, Luiz Inácio Lula da Silva está à frente de Bolsonaro nas pesquisas eleitorais, e tem boa chance de também ser eleito em outubro próximo.

Que conclusões tirar dessa gangorra entre esquerda e direita na América Latina nos últimos 20 anos? A primeira é que para o grosso da população as inclinações ideológicas dos candidatos não contam muito na hora do voto. Frustrados com governos de esquerda, que apesar das boas intenções não conseguem solucionar os problemas estruturais que afligem sobretudo os mais pobres, os eleitores votam na direita e, frustrados com governos de direita, que só lembram dos pobres às vésperas das eleições, votam na esquerda. A segunda é que as instituições funcionam; quem ganha as eleições, em geral, toma posse. Aparentemente já não há espaço para golpes e quarteladas. A terceira é que nem direita e nem esquerda estão sendo capazes de responder aos enormes desafios colocados, nomeadamente a retomada do crescimento econômico de forma sustentada e a redução da extrema desigualdade social, o principal apanágio da América Latina desde que portugueses e espanhóis pisaram nessas terras há cinco séculos.

A direita, quando chega ao poder, só pensa em agradar o mercado financeiro e, para isso, corta gastos, sobretudo aqueles que beneficiam os mais pobres, para alimentar o capitalismo parasitário que vive às custas do estado. A esquerda se esquece de que para dividir é preciso crescer; prioriza o social, no que está correta, mas nunca sabe bem o que fazer para garantir o crescimento e, em geral, conta apenas com a sorte. Pensar no meio-ambiente, na juventude, nas mulheres e nas minorias é mais do que necessário, mas em uma região onde as elites nunca tiveram um compromisso sério com o desenvolvimento, o estado precisa fazer muito mais do que isso.

O desenvolvimento, entendido não apenas como crescimento econômico, mas como desenvolvimento humano para o conjunto da população, só acontecerá se as elites decidirem que é do seu interesse fazê-lo. E a grande tragédia da América Latina é que suas elites não tiveram, até agora, muito interesse nisso. Vivendo há séculos de uma economia exportadora baseada no monopólio da terra que depende pouco do mercado interno, nunca houve real interesse em elevar as condições de vida da população muito acima do nível de subsistência. Mesmo em países, como o Brasil, que lograram se industrializar em meados do século passado e, com isso, criaram uma elite cuja prosperidade depende de um mercado interno amplo, assistimos hoje a um acentuado processo de desindustrialização e reprimarização da economia que nos empurra de volta a um modelo exportador de commodities ainda mais problemático, pois sequer necessita do uso intensivo de mão de obra. Um enorme contingente de reserva de mão de obra vai se amontoando nas periferias das grandes cidades, alimentando a nova “economia de bicos” e o tráfico de drogas.

Paralelamente a isso, o estado foi capturado por uma parcela parasitária de nossa elite que, por meio do mecanismo da dívida pública, enriquece sem produzir nada. Não formamos mais engenheiros, administradores e economistas para trabalhar nas fábricas ou mesmo no governo, mas no mercado financeiro. Uma parte cada vez maior de nossa juventude, quando sai dos bancos da universidade, pensa em migrar para os Estados Unidos, Canadá ou Europa à procura de oportunidades que já não encontra na região.

Para manter esse estado de coisas, só com muita repressão e polícia na rua, para controlar esses verdadeiros barris de pólvora em que se tornaram as periferias das grandes e, agora, até das pequenas cidades. Com o estado ausente e sem oportunidades reais de progresso, estas áreas acabam dominadas pelo tráfico de drogas e pelas milicias que criam um poder paralelo e se infiltram como um câncer nas próprias instituições. Como vimos no assassinado recente de um jornalista e um funcionário licenciado da Funai no remoto Vale do Jaguari, não há espaço vazio. Onde o estado se ausenta, a barbárie toma conta, seja na periferia dos grandes centros urbanos, seja na profundeza da selva amazônica.

Dissociar toda essa barbárie do modelo econômico reivindicado pelo mercado é uma forma cômoda de olhar para os efeitos sem pensar nas causas. Lideranças de extrema-direita, como Bolsonaro, e seus congêneres na América Latina, só chegam ao poder porque têm o consentimento do mercado e porque se dispõem a fazer o que o mercado quer: destruir o estado-providência e colocar em seu lugar o estado-gendarme, cuja única função é defender privilégios. A questão é que não há a menor hipótese de haver um modelo econômico bem-sucedido sem quatro pré-requisitos fundamentais dos quais o incentivo de mercado, embora importante, é apenas um deles. É preciso também que haja um estado ativo, coesão social e cooperação internacional.

O problema é que o estado, como está hoje, não é capaz de responder aos desafios colocados. O estado, na América Latina, deixou há muito de ser um espaço onde o inevitável conflito entre classes sociais é processado de forma pacífica para se tornar um espaço de disputa por privilégios entre corporações. E talvez resida nisso a incapacidade da esquerda de resolver os problemas quando chega no poder. Ao assumir a defesa acrítica de um estado corporativista, fica de mãos atadas, incapaz de fazer o que precisa ser feito. Experiências exitosas como a da China mostram que sem uma burocracia decente e comprometida com as ideias do desenvolvimento não se chega a lugar algum.

Luís Antonio Paulino é professor associado da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e membro da equipe de colaboradores do portal “Bonifácio”.

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