O problema que a Guerra na Ucrânia se tornou para a Alemanha

    Cavalgada das Valquírias, pintura de Cesare Viazzi, (Itália,1857-1943)

    Nenhum outro país da Europa Ocidental foi tão afetado pela Guerra na Ucrânia como a Alemanha e, provavelmente, nenhum outro será mais impactado no futuro, caso a guerra adquira contornos mais amplos, envolvendo a Otan diretamente no conflito. Em sua política de abertura para os países outrora socialistas do leste da Europa – Ostpolitik – favorecida pelo Partido Social-Democrata, agora de volta ao poder, a Alemanha estabeleceu fortes laços com a Rússia, notadamente no setor de energia e, agora, vem sendo um dos países europeus mais afetados pelo boicote econômico imposto aos russos pelos Estados Unidos e seus aliados na Otan.

    Do ponto de vista político-militar, sua desmilitarização, imposta após a derrota da Alemanha Nazista na IIª Guerra, está sendo igualmente posta em xeque, seja pela exigência da Otan de um suporte militar mais efetivo à Ucrânia, seja porque como a principal economia da União Europeia, há tempos a Alemanha vem sendo pressionada a colaborar mais com a defesa do bloco e aumentar seus gastos com defesa que mal chegam a 1% do seu PIB. (vide gráfico)

    Afora a questão imediata da energia, cuja dependência em relação à Rússia não tem como ser eliminada de uma hora para outra, há um problema maior: saber até que ponto a Rússia toleraria um maior envolvimento da Alemanha no apoio militar à Ucrânia, sobretudo no caso de um acirramento do conflito que, ao que tudo indica, deve ocorrer nos próximos meses.

    Falando três dias depois que os tanques russos cruzaram as fronteiras da Ucrânia, o novo chanceler alemão, Olaf Scholz, do partido Social-Democrata e chefe da coalização que reúne social-democratas, verdes e liberais, anunciou a chegada de um Zeitenwende – um “ponto de virada”, “uma mudança no espírito da época” na Alemanha. De acordo com essa nova orientação, a Alemanha apoiaria a Ucrânia ao máximo, puniria a Rússia com sanções e aumentaria seu próprio exército. Entre as medidas que anunciou estavam o envio de armas para a Ucrânia e o aumento adicional de 100 bilhões de euros em gastos com defesa.

    Falar é mais fácil do que fazer. Na prática, a dependência energética e o pesadelo de um conflito militar entre os dois países têm levado a Alemanha, mesmo pressionada pelos Estados Unidos e seus aliados na Otan, a assumir publicamente certos compromissos, mas arrastar os pés na hora de implementá-los. O compromisso de enviar armas para a Ucrânia e para os países do leste europeu que forneceram seus estoques de armamentos de fabricação soviética para os ucranianos até agora não saiu do papel. Os pagamentos da Alemanha por combustíveis fósseis importados da Rússia colocaram cerca de 18 bilhões de euros no bolso de Putin desde que a guerra começou ajudando mesmo que indiretamente seu esforço de guerra. Tudo isso tem gerado críticas à Alemanha, inclusive da parte da Ucrânia.

    Trata-se, contudo, de uma situação bastante delicada para a Alemanha, que se vê obrigada, como Ulisses, a navegar perigosamente entre Caríbdis e Cila. De um lado precisa evitar lançar-se em um confronto direto com a Rússia. De outro lado, entretanto, como principal economia da Europa não pode permitir que seu papel de liderança do bloco seja corroído, particularmente em um momento em que, como notou a revista The Economist,  frente à troca de recriminações pós-Brexit entre o Reino Unido e Bruxelas, com o presidente francês Emmanuel Macron perdendo seu brilho e a Itália encerrando abruptamente a administração confiável do primeiro-ministro Mario Draghi e retornando à volatilidade política, muitos estão perguntando se Berlim está mais uma vez preparada para liderar. 

    Luís Antonio Paulino é professor associado da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e membro da equipe de colaboradores do portal “Bonifácio”.

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