Guerra na Ucrânia

    A caminho de completar dois anos, não há nada que indique um fim próximo para o conflito entre Rússia e Ucrânia. A tão anunciada contraofensiva de primavera pelas forças ucranianas para retomar as áreas ocupadas pelos russos pouco avançou até agora. Mesmo com novos tanques e sistemas antimísseis fornecidos pelos Estados Unidos e seus aliados da Otan, como os blindados americanos Bradley, os tanques alemães Leopard 2, os mísseis ingleses Storm Shadow e sua versão gêmea francesa Scalp – que podem atingir alvos a mais de 240 quilômetros de distância com extrema precisão, os ucranianos não conseguem furar as linhas de defesa que a Rússia construiu nos últimos meses.

    A recente decisão dos Estados Unidos de fornecer bombas de fragmentação para a Ucrânia, cujo uso é proibido em 123 países pelos riscos para a população civil, é, por si só, um importante indicador das dificuldades que os ucranianos estão encontrando para levar adiante sua contraofensiva.

    O conflito transformou-se em uma guerra de atrito com uso intensivo de artilharia que os Estados Unidos e seus aliados da Otan não dão conta de fornecer aos ucranianos. Conforme observou matéria do jornal “O Estado de S. Paulo” (27/7), “Kiev foi arrastada por Moscou para uma guerra de atrito, que exige muito poder de fogo e começa a sofrer com a falta de munição. A Ucrânia queima mais artilharia do que os Estados Unidos e os aliados da Otan conseguem produzir e, mesmo com os incentivos à indústria bélica, aumentar os estoques requer tempo”.

    Protegidas por uma extensa faixa de terreno onde os russos plantaram centenas de milhares de minas antitanque e antipessoal, as linhas de defesa russa continuam inexpugnáveis. Conforme noticiou o Wall Street Journal (25/7), “Campos minados profundos e mortais, extensas fortificações e poder aéreo russo combinaram-se para bloquear amplamente os avanços significativos das tropas ucranianas. Em vez disso, a campanha corre o risco de cair em um impasse com o potencial de queimar vidas e equipamentos sem uma grande mudança no momento.”

    Um novo ataque da Ucrânia à ponte que liga a Crimeia à Russia pelo estreito de Kerch levou a Rússia a denunciar o acordo firmado no ano passado, por intermédio da ONU e da Turquia, que permitia à Ucrânia exportar parte de sua produção de grãos pelos portos do mar Negro. Ao ameaçar atacar navios mercantes que fazem o transporte de grãos da Ucrânia para o resto do mundo por meio dos portos na costa do Mar Negro, além de atacar as instalações portuárias e de armazenamento de grãos não só ao longo da costa do Mar Negro, mas também no porto ucraniano de Reni, no rio Danúbio, a Rússia cria um enorme problema para a Ucrânia e para o resto do mundo. A Rússia e a Ucrânia são responsáveis por cerca de 30% das exportações mundiais de trigo e o mero anúncio do fim do acordo já fez o preço do trigo nos mercados futuros aumentar em cerca de 8%.  O risco da guerra se expandir para o Mar Negro pode colocar a guerra em um novo patamar.

    A proximidade das eleições nos Estados Unidos, nas quais o presidente Joe Biden deve concorrer à reeleição, pode mudar o cenário da guerra na Ucrânia. O receio de que o eleitor possa reagir negativamente a um esforço de guerra sem perspectiva de acabar e que está consumindo bilhões de dólares pagos pelo contribuinte norte-americano pode levar o governo Biden a rever seu apoio incondicional ao governo da Ucrânia.

    A tensão observada entre o presidente da Ucrânia e funcionários do governo americano no encontro da Otan realizada na Lituânia no mês passado mostra que a direção dos ventos pode estar mudando. Conforme noticiou o Washington Post (12/7), “A intervenção de Zelensky no meio da cúpula de alto risco da OTAN deixou os membros da delegação dos EUA “furiosos”. Entre os países da Europa Ocidental vai se consolidando a ideia de que apenas uma derrota da Rússia proporcionaria a segurança necessária ao continente. O problema, porém, é que eles não têm capacidade de dar à Ucrânia os meios necessários para isso e tampouco a disposição de tomar qualquer iniciativa sem a anuência e liderança dos Estados Unidos. Trata-se além disso de uma ideia equivocada, pois a estabilidade de Europa Oriental é a chave para a estabilidade da Europa como um todo.  E isso não vem de hoje; remonta pelo menos ao Congresso de Viena no final as guerras napoleônicas, como observou Henry Kissinger em seu livro “Diplomacia”.

    Luís Antonio Paulino
    Luís Antônio Paulino é professor doutor associado da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e membro da equipe de colaboradores do portal “Bonifácio”.

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    2 COMENTÁRIOS

    1. As historias de Russia e Ucrania sao muito entrelacadas. Briga de irmaos; mas a acao americana/ europeia de usar a Ucrania como cao de guerra contra a Russia desqualifica- os para tratar da paz. Falta ponderacao

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