Guerra na Ucrânia e os riscos de uma guerra por procuração

Despedida de Eslava (1974), pintura de Konstantin Vasilyev.

No dia 24 de agosto a Guerra na Ucrânia completou seis meses e não há perspectiva de que esteja perto do fim. Desenhar cenários a respeito de sua evolução futura tornou-se tarefa complicada dadas as circunstâncias excepcionais que envolvem o desenrolar do conflito. Fosse apenas uma guerra entre Rússia e Ucrânia, provavelmente já teria tido um desfecho, dada a disparidade de poderio militar entre os dois países. A realidade, porém, é que se trata de uma guerra “por procuração”, na qual as duas forças em conflito são, na realidade, Rússia e Estados Unidos. E isso torna as coisas muito mais complicadas.

A questão central por trás dessa guerra nunca foi, para os russos, o alegado desejo de Putin de restaurar a “Grande Rússia”, cuja origem histórica está no que é hoje a Ucrânia e muito menos pretensões imperialistas em relação à Europa. Como afirma John J. Mearsheimer, professor de ciência política da Universidade de Chicago e provavelmente o maior expoente da chamada escola realista de relações internacionais, em artigo publicado na revista Foreign Affairs em sua edição de agosto, “Contrariamente à sabedoria convencional do Ocidente, Moscou não invadiu a Ucrânia para conquistá-la e torná-la parte de uma Grande Rússia. Preocupava-se principalmente em evitar que a Ucrânia se tornasse um baluarte ocidental na fronteira russa. Putin e seus assessores estavam especialmente preocupados com o fato de a Ucrânia eventualmente ingressar na Otan. O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, falou sucintamente em meados de janeiro, em uma entrevista coletiva que “a chave de tudo é a garantia de que a Otan não se expandirá para o leste”. Para os líderes russos, a perspectiva da adesão da Ucrânia à Otan é, como o próprio Putin colocou antes da invasão, “uma ameaça direta à segurança russa” – que só poderia ser eliminada indo à guerra e transformando a Ucrânia em um estado neutro ou falido”.

Da parte dos Estados Unidos, a questão central também nunca foi a defesa da integridade territorial da Ucrânia ou de seu sistema político “democrático”. Como lembrou o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Lloyd Austin, em abril, “Queremos ver a Rússia enfraquecida ao ponto de não poder fazer o tipo de coisa que fez ao invadir a Ucrânia.” Ou seja, as motivações dos Estados Unidos vão muito além da Ucrânia; sua intenção de tirar a Rússia das fileiras das grandes potências. Pensar, portanto, em desfechos possíveis dessa guerra, exige enxergá-la, sobretudo, como uma “guerra por procuração”, na qual as duas grandes forças em conflito são, na realidade, Estados Unidos e Rússia.

 A Ucrânia tem sido capaz de resistir à ofensiva russa graças ao apoio militar e logístico recebido dos Estados Unidos e seus aliados da Otan. Cessado esse apoio, provavelmente a Ucrânia não teria condições de resistir nem um dia mais, uma vez que praticamente 100% das armas e munições que está utilizando na fase atual da guerra está sendo fornecida pelos Estados Unidos e seus aliados, enquanto a Rússia tem uma poderosa indústria bélica funcionando a pleno vapor. Mesmo quando se trata do fator humano, os ucranianos dependem hoje do treinamento oferecido pelos Estados Unidos e seus aliados para novos recrutas que, em sua maioria, nunca pegaram em uma arma na vida. Tudo isso torna o cenário muito mais complicado do que aparenta ser à primeira vista, pois a política norte-americana de “resistir até o último ucraniano” pode arrastar o conflito por meses e ter desdobramentos imprevisíveis.

No já mencionado artigo de John J. Mearsheimer, com o sugestivo título “Brincando com fogo na Ucrânia. Os riscos subestimados de uma escalada catastrófica”, o autor analisa alguns dos aspectos acima mencionados. Para ele, os dois riscos principais são de o conflito evoluir para uma guerra em toda a Europa e a possibilidade de aniquilação nuclear. Para o autor, embora toda a estratégica por parte dos Estados Unidos e seus aliados esteja baseada nas hipóteses da não entrada das forças norte-americanas diretamente na guerra e de que os russos não ousariam usar armas nucleares, não há como garantir, a priori, nenhuma dessas duas condições. E isso pelo simples motivo de que a resultante final desse conflito não seria uma vitória ou derrota da Rússia ou da Ucrânia e sim numa derrota ou vitória da Rússia ou dos Estados Unidos, o que seria, a esta altura, inaceitável para qualquer um dos dois lados.

Dadas essas circunstâncias, supor que haveria limites quanto aos meios a serem utilizados seria o mesmo que supor que alguém, em perigo de morte, se recusasse a utilizar todos os meios disponíveis para evitar tal desfecho. Se, em 1945, a justificativa para o uso da bomba atômica foi de “acabar a guerra’, porque não seria hoje, quando toda a pesquisa militar na área nuclear está voltada não para o desenvolvimento de armas nucleares para não serem usadas, dado seu potencial de aniquilação da humanidade, mas para serem usadas sem esse risco?

Aceitas as premissas iniciais de que a Guerra na Ucrânia é, na realidade, um conflito entre Estados Unidos e Rússia e que a derrota é inaceitável para qualquer um dos lados, é forçoso reconhecer que uma solução diplomática a esta altura dos acontecimentos é praticamente impossível, o que aponta necessariamente para uma escalada na batalha com consequências imprevisíveis. Supor, portanto, que independentemente da sua evolução, os Estados Unidos se recusarão a entrar diretamente no conflito ou que os russos, na iminência de uma possível derrota, se recusem a usar armas nucleares talvez seja uma conclusão que não encontre sustentação nos fatos.

Luís Antonio Paulino é professor associado da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e membro da equipe de colaboradores do portal “Bonifácio”.

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