Guerra na Ucrânia: como isso vai acabar?

    Acontecimentos recentes colocaram a guerra na Ucrânia em um novo patamar. A retomada do controle, pela Ucrânia, de parte da região nordeste do país que estava sob controle russo e ataques bem sucedidos a alvos russos utilizando equipamento militar de alta tecnologia e apoio logístico fornecidos pelos Estados Unidos produziram uma onda de otimismo no Ocidente e na própria Ucrânia quanto aos rumos da guerra nos próximos meses. Começou-se a falar em “ponto de virada” na guerra, como se a expulsão definitiva dos russos do território ucraniano e inclusive a retomada das áreas ocupadas em 2014, como a península da Criméia, fosse, agora, apenas uma questão de tempo e a derrota definitiva de Putin estivesse logo ali.

    Não é bem assim. Frente aos acontecimentos recentes, ao invés de recuar, Putin dobrou a aposta. Determinou a mobilização de 300 mil reservistas para lutar na guerra, realizou plebiscitos nas áreas já ocupadas, habitadas por maioria russa, tornando-as parte da Federação Russa e ameaçou recorrer às armas nucleares caso o território russo seja atacado por esse tipo de armamento pela Otan. Muitos viram nessa ameaça um gesto de desespero e um blefe por parte de Putin. Mas estariam os Estados Unidos e seus aliados na Otan dispostos a pagar para ver?

    Uma questão importante, portanto, é se os Estados Unidos e seus aliados na Otan pretendem insistir na estratégia de fornecer armas, equipamento militar avançado e treinamento para os ucranianos na expectativa de que, até o início do inverno no hemisfério norte, os russos sejam empurrados pelo menos ao status quo anterior ao início da guerra ou se, diante da reação de Putin, irão recuar.

    Tudo indica que nem os Estados Unidos irão recuar do objetivo de não só impingir uma dura derrota a Putin na Ucrânia, mas, principalmente, de enfraquecer militarmente a Rússia, e nem Putin aceitará ser derrotado sem antes lançar mão de todos os meios que tenha à mão, como está ameaçando.  No que isso vai dar?

    O complexo industrial-militar privado dos Estados Unidos vem trabalhando há anos no desenvolvimento do que eles chamam de armas nucleares táticas. Essas armas vêm sendo desenvolvidas pela indústria armamentista norte-americana desde o início dos anos 2000 como parte da chamada “guerra ao Terror”, iniciada depois do 11 de setembro e são parte de uma nova geração de armas nucleares, “menores”, “mais seguras” e “mais usáveis” no teatro de guerras nucleares do século 21. Os russos também investiram nessa direção e possuem armas nucleares do mesmo tipo. Provavelmente não usaram, ainda, porque mesmo em se tratando de ogivas de menor potência do que as ogivas nucleares convencionais, ainda assim seria difícil garantir que o próprio território russo fosse afetado pela radioatividade carregada pelos ventos. Mas Putin não costuma blefar.

    Estamos chegando a um ponto extremamente perigoso com potencial de projetar a guerra para um novo patamar não só em termos de capacidade destrutiva, como também em abrangência do conflito. Para os Estados Unidos, até por estarem geograficamente longe do palco da guerra, a estratégia de “lutar até o último ucraniano” parece conveniente. Ademais, além dos interesses da indústria armamentista norte-americana estar sempre envolvida em uma “boa guerra”, lutando por uma “causa nobre”, como se estivessem num eterno filme de Hollywood, parece ser para muitos, nos Estados Unidos, a única coisa capaz de infundir energia nos nervos enfraquecidos de uma nação sem propósito e em profunda decadência moral e política.

    Para os russos, o conflito já deixou há muito de ser uma “operação militar especial” para se tornar uma guerra verdadeira, uma questão de vida ou morte, nomeadamente para Putin. Para eles já não se trata mais de uma guerra apenas contra a Ucrânia, mas contra o Ocidente, como recentemente declarou o ministro da Defesa russo Sergei Shoigu em um programa na televisão russa. “Estamos em guerra não apenas com a Ucrânia e o exército ucraniano, mas com o Ocidente coletivo”, declarou na ocasião.

    Dissuadir norte-americanos e russos de levar a guerra às últimas consequências não é coisa simples. Caminham como sonâmbulos para a beira do precipício.  Estão tão focados nos seus objetivos imediatos que provavelmente não se dão conta das suas possíveis consequências.  Em uma carta a Werner Sombart, datada de 11 de março de 1895, o pensador alemão Friedrich Engels afirmou: “toda a história até aqui, no que toca aos grandes eventos, se processa sem consciência, isto é, estes eventos e as suas ulteriores consequências não são queridos; os figurantes históricos ou quiseram algo diretamente diferente do alcançado ou este alcançado traz por sua vez consigo consequências imprevistas inteiramente diferentes”. Isso ocorreu inúmeras vezes na história mundial e parece que está ocorrendo de novo.

    Os países da Europa Ocidental, especialmente a Alemanha, têm muito a perder e absolutamente nada a ganhar com essa guerra. Por isso podem jogar um papel para apressar o fim do conflito. Com a aproximação do inverno e a disparada no preço da energia muitos europeus, notadamente os mais pobres, vão ter de escolher entre comer ou se aquecer. Caso a Rússia venha de fato recorrer às armas nucleares, a Europa Ocidental, mesmo que não se envolva diretamente no conflito, pode sofrer consequências graves com efeitos que podem se estender por décadas. Supondo que tenha restado um mínimo de racionalidade ao chanceler alemão, ao presidente francês e à nova primeira-ministra britânica, porque os italianos já perderam o juízo faz muito tempo, é de se esperar para as próximas semanas alguma ação mais incisiva para pôr fim ao conflito, mesmo que seja um “acordo sujo” que não deixe ninguém totalmente satisfeito.

    Por outro lado, como transpareceu do encontro entre Xi Jinping e Putin na reunião da Organização de Cooperação de Xangai (OXC) na cidade de Samarkand, no Uzbequistão, em 16/9, a China está crescentemente preocupada com o desenrolar do conflito. Embora em nenhum momento a China tenha criticado publicamente os russos pela invasão da Ucrânia, os chineses estão se abstendo de apoiar militarmente a Rússia e vêm respeitando as sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos e seus aliados na Otan. As empresas chinesas estão se abstendo de ocupar o espaço deixado no mercado russo pelas milhares de multinacionais norte-americanas e europeias que deixaram o país nos últimos meses. O ministro das Relações Exteriores, Wang Yi, vem pressionando por alguma solução e por “todos os esforços para buscar a paz”; na mesma linha, o embaixador da China na ONU, Zhang Jun, pediu a redução da escalada e “um acordo político o mais rápido possível”.

    Luís Antonio Paulino é professor associado da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e membro da equipe de colaboradores do portal “Bonifácio”.

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