Golpe contra Mohammad Mossadegh no Irã completa 69 anos

    O Assassinato de César, pintura de Vicenzo Camuccini (Roma, 1771-1844).

    No dia 19 de agosto, completaram-se 69 anos do golpe orquestrado pelos serviços secretos dos Estados Unidos e da Inglaterra para tirar do poder o primeiro-ministro iraniano Mohammad Mossadegh e colocar em seu lugar um governo títere chefiado pelo xá Reza Pahlavi.

    Conforme noticiou o jornal Tehran Times[i], em 19/8, “o golpe, de codinome Operação Ajax nos EUA e Operação Boot na Grã-Bretanha, reinstalou a dinastia Pahlavi e garantiu a brutal repressão do povo iraniano por quase 26 anos. A emancipação final ocorreu em 1979, quando milhões de iranianos oprimidos confiaram ao Imam Khomeini a liderança da primeira revolução no verdadeiro sentido da palavra na história moderna do Irã”. O motivo do golpe que derrubou o então primeiro-ministro Mossadegh, democraticamente eleito, foi o fato de ele ter promovido a estatização da indústria petrolífera iraniana. Com o golpe e a instalação do xá no poder, as empresas britânicas voltaram a operar no país.

    Ainda segundo o jornal “A intervenção dos EUA no Irã faz parte de uma tendência mais ampla da política externa americana, centrada na derrubada de regimes que se recusam a se aliar à América. Os Estados Unidos realizaram quase 400 intervenções militares desde sua fundação em 1776, de acordo com uma nova pesquisa publicada em agosto, que estudou bancos de dados disponíveis e outros recursos sobre o assunto. De acordo com o estudo do Military Intervention Project: A New Dataset on U.S. Military Interventions, 1776–2019, metade desses conflitos e outros usos da força ocorreram entre 1950 e 2019, durante a Guerra Fria. Das quase 400 intervenções militares, 34% foram na América Latina e no Caribe; 23% no Leste Asiático e na região do Pacífico; 14% na Ásia Ocidental e Norte da África; e 13% na Europa e Ásia Central. John Bolton, ex-assessor de segurança nacional do governo Trump, recentemente se gabou de planejar golpes em outros países. Em uma entrevista em julho à CNN, Bolton sublinhou que era errado descrever a tentativa de Trump de permanecer no poder após as eleições de 2020 como um golpe. Bolton disse que o ex-presidente dos EUA, Donald Trump, não era competente o suficiente para realizar um “golpe de estado cuidadosamente planejado”. Ele acrescentou: “Como alguém que ajudou a planejar golpes de estado – não aqui, mas você sabe (em) outros lugares – é preciso muito trabalho. E não foi isso que ele (Trump) fez.”

    De acordo com Christopher de Bellaigue, autor da excelente biografia de Mossadegh, “Patriot of Persia. Muhammad Mossadegh and a Very British Coup”, os idealizadores do golpe foram o secretário de estado dos Estados Unidos, John Foster Dulles, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill, o presidente americano Dwight D. Eisenhower e Anthony Eden, ministro das Relações Exteriores do Reino Unido. Segundo o autor, “Mossadegh tornou-se notório em todo o mundo, em 1951, quando ousou nacionalizar o maior ativo ultramarino da Grã-Bretanha, a Anglo-Iranian Oil Company. Ele passou a liderar o governo mais esclarecido que seu país já conheceu. Os britânicos queriam vingança e pediram a ajuda dos Estados Unidos, alegando que Mossadegh era um fantoche comunista. Em 19 de agosto de 1953, ele foi derrubado por uma conspiração dos serviços secretos americanos e britânicos em favor do xá. Ele foi banido para sua propriedade e se tornou uma não-pessoa sob a nova ditadura do xá. O pai da nação havia sido posto de lado, mas era impossível esquecê-lo”.

    A consequência do golpe urdido pelos Estados Unidos e pelos ingleses contra Mossadegh foi a deposição de um governo liberal, que queria a amizade do Ocidente, mas rejeitava a dependência escrava, por um regime teocrático antiamericano. Como afirma de Bellaigue, “Mossadegh era o primeiro líder liberal do moderno Oriente Médio. Ele era um racionalista que odiava o obscurantismo e acreditava no primado da lei. Seu entendimento da liberdade era excepcional no Irã e em toda a região. Na verdade, o Ocidente teria gostado mais se ele fosse menos comprometido com a liberdade. Mas ele não iria retroceder de sua demanda por independência econômica da Grã-Bretanha. Ele não iria prender comunistas apenas para agradar a Washington”.

    Nos anos seguintes, os Estados Unidos iriam repetir o mesmo roteiro mundo afora, principalmente na América Latina, urdindo golpes para depor governos democraticamente eleitos apenas para pôr em seu lugar ditaduras sanguinárias, desde que fossem, pró-americanas. E esse tipo de conduta tira toda a credibilidade dos Estados Unidos, quando se voltam, como agora, contra a Rússia e China em nome da “liberdade” e da “democracia”.


    [i] https://www.tehrantimes.com/news/475822/1953-coup-America-is-still-the-same

    Luís Antonio Paulino é professor associado da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e membro da equipe de colaboradores do portal “Bonifácio”.

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