EUA: tudo ou nada na Venezuela – Brasil a tiracolo

    Lorenzo Carrasco e Geraldo Lino
    Resenha Estratégica
    Vol. 17 | nº 37 | 23 de setembro de 2020

    A turnê sul-americana do secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeu, visitando a Guiana, Suriname, Brasil e Colômbia, entre 17 e 20 de setembro, não teve apenas o propósito de reforçar a posição do presidente Donald Trump junto a alguns setores hispânicos da Flórida do eleitorado, para as eleições de 7 de novembro.

    Embora, no momento, todas as ações da política externa estadunidense estejam calibradas com referência ao calendário eleitoral, a visita teve também o propósito central de manter a política do Establishment de evitar ou sabotar qualquer solução política negociada que permita uma transição na qual as maiores reservas petrolíferas do mundo se mantenham sob o controle do Estado venezuelano.

    O que exige Washington, a despeito da retórica “democrática”, é simplesmente uma mudança de regime ou o colapso do Estado nacional. Sem este resultado, o Establishment estadunidense prefere a manutenção do presidente Nicolás Maduro, submetido a um processo de sangramento contínuo.

    Essa política não se iniciou com o governo de Trump que só deu continuidade, ainda que com um maior volume retórico, à linha herdada de Barack Obama, que de maneira semelhante intervinha com provocações diplomáticas ou ameaças de intervenção. É bem sabido que a garantia de manutenção de um regime como o de Maduro, na América Latina, são as ameaças provenientes dos EUA. Por isso, os beligerantes “neoconservadores” que controlam a política do Departamento de Estado para a Ibero-América chegaram ao ponto de apoiar o frustrado levante militar de abril de 2019 e, em maio último, a desastrada Operação Gedeão, uma patética tentativa de sequestro de Maduro por dissidentes venezuelanos e mercenários estadunidenses, em uma opereta bufa semelhante à idealizada pela CIA (Agência Central de Inteligência) na catastrófica invasão da Baía dos Porcos, em Cuba, em 1961.

    Washington vê nas eleições parlamentares venezuelanas de dezembro a possibilidade de uma transição negociada para o período pós-Maduro, como se mostra na posição do ex-governador de Miranda e ex-candidato presidencial, Henrique Capriles, para que a oposição participe do pleito eleitoral. Assim, as declarações de Pompeo, deslegitimando o processo eleitoral, significam ainda a ilusão delirante de substituir Maduro pelo “presidente interino” Juan Guaidó, que apesar de reconhecido por mais de 50 países, Brasil inclusive, não controla qualquer órgão ou setor do governo venezuelano.

    A precária estabilidade do regime de Maduro é algo evidente para o seu entorno e para as Forças Armadas, o seu principal pilar de apoio, e a necessidade de um entendimento com a oposição, que assegure uma saída negociada para o presidente e seu grupo, é um imperativo que se impõe. Todavia, a atitude intervencionista dos EUA apenas dificulta este desfecho e os piromaníacos de Washington têm plena consciência disto.

    Por outro lado, não se deve esquecer que ainda prevalece no Establishment estadunidense a estratégia do “Grande Caribe”, com a qual os EUA poderiam reconstruir parte de seu poder mundial declinante, especialmente, pelos erros cometidos no Oriente Médio, a partir da Guerra do Golfo no início da década de 1990. O “Grande Caribe” inclui proeminentemente a Colômbia e a Venezuela, além da região das antigas Guianas. De forma emblemática, a visita de Pompeo incluiu a Guiana e o Suriname.

    A projeção de poder dos Estados Unidos na área do grande Caribe explica a obsessão em desestabilizar o regime venezuelano.

    Nas ex-colônias inglesa e holandesa, que experimentam um importante boom na produção de petróleo, Pompeo fez um ativo lobby em favor das empresas estadunidenses, criticando despudoradamente a crescente presença de empresas chinesas, não só nos dois países, mas em todo o subcontinente sul-americano. Em Paramaribo, ao lado do recém-eleito presidente Chan Santhoki, usando um tom que não ocultava uma intenção ameaçadora, ele disparou: “Nenhuma operação estatal pode vencer a qualidade dos produtos e serviços de companhias privadas estadunidenses. Nós temos observado o Partido Comunista Chinês investir em países e, no início, tudo parece grande e, depois, vem abaixo quando os custos políticos conectados a isso se tornam claros. E nós fazemos o nosso melhor, onde quer que eu viaje para argumentar e deixar claro que todo mundo entenda no que está entrando (Al-Jazeera, 18/09/2020).”

    Com a diplomacia que faltou ao secretário, Santhoki retrucou que não via uma competição entre os EUA e a China, que convidou seu país e a vizinha Guiana a juntar-se ao megaprojeto da Iniciativa Cinturão e Rota. “Não foi um tópico de discussão, de modo que não é uma questão de fazer escolhas”, afirmou.

    Quanto ao Brasil, o alinhamento diplomático com a agressividade estadunidense não só exclui o País da possibilidade de exercer um papel relevante na crise, mas atrai para suas fronteiras um conflito que lhe pode custar caro no futuro. Desde o início do governo do presidente Jair Bolsonaro, o chanceler Ernesto Araújo tem se empenhado em alinhar a política exterior brasileira ao intervencionismo dos EUA. Em relação à Venezuela, a tentativa foi inicialmente contornada por uma prudente “diplomacia militar”, coordenada pelo vice-presidente Hamilton Mourão (Resenha Estratégica, 06/02/2019 e 28/02/2019). Diante dos fatos recentes, uma oportuna sugestão a este respeito foi feita pelo ex-embaixador Rubens Barbosa, em um lúcido artigo publicado no “Estadão” de 22 de setembro (“Brasil e Venezuela, a quem possa interessar”), com cujos últimos parágrafos encerramos esta nota:

    “Nenhum outro país estaria em melhor posição para tomar a iniciativa de ressuscitar uma proposta semelhante à dos EUA do que o Brasil. Cabe ressaltar que nunca foi interrompido o relacionamento entre as Forças Armadas dos dois países. A última visita de alto nível à Venezuela foi no governo Temer, quando o ministro da Defesa esteve duas vezes em território venezuelano para se encontrar com sua contraparte para examinar a questão dos refugiados e do fornecimento continuado de energia ao Brasil. Longe dos holofotes, o canal militar privilegiado e preservado, talvez com discreta ajuda de Cuba, poderia sondar a possibilidade de iniciar conversas visando a uma transição pacífica na política venezuelana.”

    “É senso comum que em qualquer negociação, além da representatividade dos participantes, sempre se deve evitar encurralar e deixar o interlocutor sem alternativa. Há que oferecer uma saída ao outro lado. Os militares têm experiência nisso, pois negociaram a transição democrática com o elemento mais importante, a anistia – que não consta na proposta norte-americana. Por sua atuação histórica no processo de integração regional e sobretudo, no atual momento, por seus interesses concretos, o Brasil teria credibilidade para iniciar conversas nessa linha, via diplomacia militar. O governo seria insuspeito por tudo o que tem declarado a respeito do governo de Caracas, mas o interesse nacional estaria sendo posto acima de ideologias e alinhamentos.”

    2 COMENTÁRIOS

    1. Excelente artigo! Aponta a conveniência da solução negociada para a crise política venezuelana e o papel privilegiado que nossos meios militares poderiam desempenhar nesse sentido. Em contraste com o alinhamento do ministro Ernesto Araújo ao interesse dos EUA manterem permanente ameaça intervencionista, até emplacarem governo subserviente.

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