Estados Unidos estendem tapete vermelho para Modi e escancaram as contradições da sua política externa

    Em seu livro “Diplomacia”, Henri Kissinger aponta o que, na sua opinião, é a principal contradição da política externa dos Estados Unidos. Segundo ele, a política externa dos Estados Unidos, tal como a conhecemos hoje, foi formulada por Woodrow Wilson (1856-1924), o 28° presidente americano, com base na ideia do excepcionalismo dos Estados Unidos, ideia essa já presente no pensamento dos fundadores da nação americana.

    Segundo Kissinger, “Wilson reafirmou o que era o senso comum tradicional desde Jefferson, porém agora a serviço de uma ideologia messiânica: a missão americana transcende a diplomacia ordinária, penhorando-a em um modelo de liberdade para o restante do mundo; a política externa das democracias é moralmente superior, pois os povos são em si amantes da paz; a política externa deve refletir os padrões morais da ética pessoal; o estado não tem direito a uma moralidade em separado.

    Wilson deu uma dimensão universal a estas declarações sobre o excepcionalismo americano”. Segundo Kissinger: “Para Wilson, no entanto, a natureza altruísta da sociedade americana era prova da escolha de Deus: “É como se pela Providência Divina um continente estivesse intacto, à espera de um povo pacífico, amante da liberdade e dos direitos do homem acima de qualquer coisa que nele chegasse e criasse uma nação não egoísta. (…) Já em 1915, Wilson formulou a doutrina sem precedentes de que a segurança americana era inseparável da segurança de todo o resto da humanidade. Com o que era obrigação dos Estados Unidos, daí em diante, opor-se à agressão em toda a parte”.

    Nas palavras do próprio Wilson, “[…] porque exigimos o desenvolvimento não perturbado e o rumo sereno das nossas próprias vidas, segundo nossos princípios de justiça e liberdade, nós nos indignamos, de onde quer que venha, com a agressão que nós mesmos não praticamos. Fazemos questão de ter segurança no percurso das linhas por nós escolhidas para o desenvolvimento nacional. Vamos além. Exigimo-lo, também, para as outras nações. Não limitamos nosso entusiasmo pela liberdade individual e pelo desenvolvimento nacional livre à evolução e aos movimentos das questões que apenas a nós dizem respeito. Esse nosso sentimento está presente onde quer que haja um povo que tente trilhar os difíceis caminhos da independência e da justiça”. Estava ali posta a ideia dos Estados Unidos com o “bom policial” do mundo.

    Ocorre, entretanto, como reconhece o próprio Kissinger, que país algum associou jamais seu direito à liderança ao seu altruísmo. Ou seja, há uma contradição intrínseca na política externa dos Estados Unidos, uma vez que no mundo “real” a defesa dos seus interesses no mais das vezes não está em consonância com os princípios morais que supostamente orientam sua política externa. Entretanto, como observa Kissinger, “Os Estados Unidos não viam conflito entre altos princípios e as necessidades de sobrevivência. Com o tempo, a invocação da moralidade como meio de solucionar conflitos internacionais produziu uma espécie singular de ambivalência e um tipo bem americano de angústia. Se os americanos eram obrigados a revestir sua política externa com o mesmo grau de retidão aplicado a suas vidas pessoais, como analisar a segurança? Levando ao extremo, isso significaria que a sobrevivência se subordinava à moralidade? Ou a devoção americana às instituições livres conferia uma aura automática de moralidade aos atos mais visivelmente interesseiros?”.

    À luz dessas reflexões podemos pensar nos dois movimentos opostos que os Estados Unidos fazem na Ásia. De um lado, procuram dar um conteúdo moral à sua política agressiva e interesseira em relação à China, apoiando movimentos separatistas em Taiwan, no Tibet e Xinjiang, com base em autoatribuído dever de defender a democracia, a liberdade e os direitos individuais não só em seu próprio país, mas em todo o mundo. Já com relação à Índia, fazem o oposto. Ao tratar o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, com deferências feitas anteriormente somente a Churchill e Mandela, como se dirigir a uma sessão conjunta do Congresso em mais de uma ocasião ou oferecer o jantar de Estado mais glamoroso da Presidência de Biden em sua honra, os Estados Unidos apenas evidenciam como as justificativas para seus ataques à China são falsas e servem apenas para acobertar os reais motivos da agressão.

    Como afirmou Eduard Luce, comentarista do Financial Times, “Há dois problemas na ofensiva total dos EUA para seduzir Modi. O primeiro é que ela desmente a reivindicação de Biden de que os direitos humanos estão “no cerne” de sua política externa. Modi vem atropelando tantos direitos que mal dá para enumerar — a começar pela liberdade religiosa. No entanto, o Departamento de Estado dos EUA é tão silencioso sobre isso quanto é ruidoso ao condenar as transgressões de outros em posições menos importantes no tabuleiro do xadrez mundial. Isso só pode aprofundar o cinismo em relação à discrepância entre o que os EUA dizem e o que fazem. Numa era em que o Sul Global está em disputa, essa postura de dois pesos e duas medidas de nada ajuda a credibilidade dos EUA”.

    Luís Antonio Paulino
    Luís Antônio Paulino é professor doutor associado da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e membro da equipe de colaboradores do portal “Bonifácio”.

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    1 COMENTÁRIO

    1. USA/Biden claramente estao lutando para adiar uma ( relativa) rapida decadencia do poderio. Jogar a India contra a China e’ uma estrategia, dividir o Brics, impedir ou retardar ameaca ao dolar. O que nao entendo e’ que parece que os USA declarou. ” guerra” ao resto do mundo e a metade de seu povo, e isso nao consigo entender. Pergunto : ha semelhanca entre o cerco a China hoje com o cerco ao Japao na decada de 30? Parabens ao instituto

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