Estados Unidos e seus aliados querem um acordo com Putin para acabar a guerra na Ucrânia

As consequências da guerra, pintura de Peter Paul Rubens (Siegen, Alemanha, 1577-Antuérpia, Bélgica, 1640).

A retirada das forças russas da cidade de Kherson, em 11 de novembro, representou um recuo importante, mas está muito longe de ser o começo do fim da guerra na Ucrânia como o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky afirmou.

A Rússia ainda ocupa 70% da província de Kherson, que fica a leste do rio Dnieper, sem falar em trechos da vizinha Zaporizhia, e Donetsk e Luhansk no Leste. Tratou-se, na verdade, de um recuo voluntário dos russos, motivado por razões táticas. Como ficou evidente nas imagens mostrando a entrada das forças ucranianas em Kherson sem encontrar resistência e nem material bélico aproveitável, a verdade é que a Ucrânia perdeu sua última grande oportunidade de encurralar e destruir/capturar um grande número de forças/equipamentos russos.

As tropas russas retiradas de Kherson estão sendo deslocadas para lutar em outros lugares, mais ao Norte, enquanto são substituídas pelos novos soldados. A Rússia convocou 300.000 reservistas e uma parte deles já recebeu treinamento e está nas linhas de combate. Ao recuar para a margem leste do rio Dnieper, os russos estão recompondo suas linhas de defesa na região e, ao mesmo tempo, reforçando sua ofensiva no Donbas, cuja ocupação total é condição sem a qual não haveria hipótese, para os russos, de começar a discutir o fim da guerra. À medida em que as forças russas se retiravam da cidade de Kherson, elas avançaram para outros lugares no Sul e no Norte do Donbas. São cerca de 30.000 soldados liberados de Kherson para atuar em outras frentes.

É verdade que a retomada de Kherson é importante para os ucranianos, pois dificulta a expansão russa em direção a Odessa e evita que a Ucrânia fique sem acesso ao mar. Entretanto, o avanço dos ucranianos para além dessas linhas de defesa estabelecidas pelos russos a leste do rio Dnieper será difícil e custoso. Assim como para os russos era custoso manter as tropas na margem oeste do rio Dnieper que, na região de Kherson, tem dois quilômetros de largura, da mesma forma será difícil para os ucranianos fazer o movimento oposto, mesmo porque todas as pontes ligando as duas margens do rio foram destruídas, primeiro pelos próprios ucranianos para dificultar o abastecimento das tropas russas que estavam no lado ocidental do rio e agora pelos russos para dificultar a contraofensiva ucraniana em direção ao Leste.

Além disso, os russos têm algumas de suas melhores tropas e muita artilharia na área. É natural que quem toma a ofensiva sofra mais baixas do quem se defende. Os ucranianos estão sofrendo pesadas baixas. Os Estados Unidos estimam que as baixas que estavam na proporção de 1:2 a favor dos ucranianos já estejam na proporção de 1:1. Conforme noticiou a revista The Economist (17/11), Mark Milley, presidente do Estado-Maior Conjunto dos Estados Unidos, disse em 9 de novembro que a Ucrânia, como a Rússia, sofreu aproximadamente 100.000 baixas, entre mortos ou feridos. O mesmo Mark Milley, o principal general dos Estados Unidos, comparou o conflito ao impasse da Primeira Guerra Mundial. Ele lançou dúvidas sobre a capacidade da Ucrânia de mudar ainda mais as linhas de frente e sugeriu que deveria considerar negociações com o Kremlin (The Economist 16/11).

Não há hipótese de um fim breve da guerra na situação atual. A Rússia continua o processo declarado de desmilitarizar a Ucrânia. No quadro atual Putin não tem outra alternativa a não ser continuar bombardeando a Ucrânia indefinidamente até que o governo de Kiev entre em colapso, o que pode demorar meses ou anos, dependendo o apoio que os ucranianos recebam de seus aliados da Otan.

À medida em que o inverno se aproxima, a Rússia intensifica o uso de mísseis em navios, artilharia terrestre e aérea para destruir a infraestrutura da Ucrânia e privar milhões de pessoas de calor, luz elétrica e água potável. A Ucrânia é um país 70% urbano, onde as consequências de um colapso energético podem se desencadear rapidamente.

Nenhuma força política relevante na Rússia, pelos mais diferentes motivos, admite a possibilidade de perder a guerra. Como afirmou Tatiana Stanovaya em artigo recente na revista Foreign Affairs (18/11), “Para as elites russas, demonstrar apoio à guerra – se não pela forma como ela está sendo travada atualmente – é a chave para a sobrevivência política. Muitos manifestam cada vez mais apoio ao escalonamento, um tema que se tornou popular. Apesar dos diferentes interesses em jogo, tecnocratas, agentes de segurança, nacionalistas conservadores e líderes empresariais estão amplamente unidos na crença de que a Rússia não pode perder, sob pena de resultar no colapso do regime do qual todos dependem (…) Não há ninguém na elite russa que apoiará uma retirada russa para as posições do país em 24 de fevereiro”.

Os ucranianos, por seu turno, dependem totalmente do fornecimento de armas e munições do Ocidente para continuar a guerra e é pouco provável que norte-americanos e europeus estejam realmente dispostos a sustentar indefinidamente um esforço de guerra que não irá chegar a lugar nenhum. Conforme observou o Wall Street Journal (01/12) “Os ucranianos precisam urgentemente de defesas contra mísseis Patriot dos EUA, mas o Pentágono disse na terça-feira que “no momento, não temos planos de fornecer baterias Patriot” para a Ucrânia. O general Pat Ryder, brigadeiro da Aeronáutica citou “uma necessidade bastante significativa de manutenção e sustentação, bem como necessidade de treinamento”, como razões pelas quais os EUA não enviaram Patriots”.

Os europeus já se deram conta de que os bloqueios econômicos à Rússia os prejudicam mais que aos próprios russos. “A Alemanha está servindo de marionete exclusivamente aos interesses americanos e da Otan”, “A política de embargo contra a Rússia falhou completamente e está sendo dirigida catastroficamente contra nós mesmos”, “Queremos que os belicistas da OTAN parem de criar um conflito entre a Alemanha e a Rússia, entre a Ucrânia e a Rússia”, “Queremos preços de gás e eletricidade normalizados”, “Alemães comuns estão pagando porque os Estados Unidos querem interferir na Rússia”, “Segurança energética e proteção contra a inflação — nossa terra em primeiro lugar!”, “Paz com a Rússia” são frases cada vez mais ouvidas em discursos e escritas em cartazes nas centenas de manifestações públicas, convocadas por partidos de direita e de esquerda por toda a Alemanha nas últimas semanas, contra a guerra.

Como observou o jornal o Estado de S. Paulo (07/11), “Sem um fim à vista dos combates na Ucrânia e com as consequências da guerra aumentando a irritação da população com a alta dos preços de energia e alimentos, cresce a movimentação do governo dos Estados Unidos nos bastidores em busca de uma solução para o conflito, segundo informa a mídia americana”.  Em 05/11, o Washington Post noticiou que “O governo Biden está incentivando em particular os líderes da Ucrânia a sinalizar uma abertura para negociar com a Rússia e abandonar sua recusa pública em se envolver em negociações de paz, a menos que o presidente Vladimir Putin seja removido do poder, de acordo com pessoas familiarizadas com as discussões”.

Conforme noticiou o New York Times (02/12), “Ao lado do líder francês que defendeu a necessidade de diálogo com Moscou, o presidente Biden disse na quinta-feira que conversaria com o presidente Vladimir V. Putin, mas apenas em consulta com os aliados da OTAN e somente se o líder russo indicasse que estava “procurando uma maneira de acabar com a guerra.” Apesar das autoridades dos EUA prometerem publicamente apoiar Kyiv com grandes somas de ajuda “pelo tempo que for necessário”, tudo indica que tanto os Estados Unidos quanto seus aliados europeus chegaram à conclusão de que a guerra já foi longe demais.

Luís Antonio Paulino é professor associado da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e membro da equipe de colaboradores do portal “Bonifácio”.

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