É possível um mundo sem a Rússia?

    Retrato de Aleksandr Púchkin, pintura do artista russo Orest Kiprensky (Nezhnovo, 1782 – Roma, 1836).

    Toda a campanha anti Rússia desencadeada pela mídia ocidental após o início da guerra na Ucrânia levou muita gente a sonhar com um mundo sem Rússia. Na cabeça dessas pessoas, não apenas Putin, mas todo o povo russo seria responsável pelo que a mídia Ocidental está tentando caracterizar como um genocídio na Ucrânia.  Desde o início do conflito, os países ocidentais impuseram à Rússia sanções abrangentes e indiscriminadas nos setores político, econômico e financeiro, assim como cultural e esportivo. Os atletas russos foram impedidos de competir. Obras literárias, artísticas e musicais russas foram boicotadas e músicos russos foram expulsos de orquestras ocidentais. O “Lago dos Cisnes”, de Tchaikovsky, obra-prima universal da dança e música, escrita há mais de 100 anos, foi proibido na Europa.

    Essa tentativa de apagar a Rússia da história, de agir como se ela não existisse e isolá-la do mundo como se fosse uma grande Chernobyl é tão absurda quanto insensata. Absurda, a começar pelo fato de que não faz o menor sentido imaginar que um país de 17 milhões de quilômetros quadrados, um território quase equivalente ao dos Estados Unidos e China somados, possa ser simplesmente ignorado. Insensata porque, mesmo com todos os seus problemas econômicos, a Rússia é, ainda, a 12ª maior economia do mundo, o maior exportador mundial de gás natural e um dos maiores exportadores de petróleo. Banir o petróleo, gás e carvão russos do mercado europeu trará, provavelmente, mais impactos negativos sobre os países importadores do que sobre a própria Rússia.

    O Bundesbank, o poderoso banco central alemão, anunciou que uma proibição imediata da UE às importações de gás russo prejudicaria o produto interno bruto da Alemanha em 5 % este ano e jogaria o país na recessão. O executivo-chefe da BASF, Martin Brudermüller, disse que uma súbita parada das entregas de gás russo pode destruir a “economia inteira” da Alemanha e desencadear a pior crise econômica desde 1945 (FT, 22/4). Em 2021, 34 % do suprimento de gás da UE foi importado da Rússia, principalmente por gasoduto. Os países do leste, nordeste e Europa central dependem particularmente da oferta russa. No total, a UE importou 155 bilhões de metros cúbicos (BCM) de gás russo em 2021. A Comissão Europeia quer reduzir esse valor em dois terços até o final deste ano, aumentando a oferta de outras fontes e reduzindo a demanda por gás de vários setores da economia. Essa equação pode fechar no papel, mas viabilizá-la na prática é de fato impossível (FT, 19/4). A Rússia representa 55 % de todas as importações de gás da Alemanha. Mais de um terço desse gás é consumido pelo setor manufatureiro (FT, 22/4). A própria secretária do Tesouro dos Estados Unidos, Janet Yellen, pediu à Europa que fosse “cuidadosa” em impor uma proibição completa às importações de energia russa, alertando sobre o dano potencial que tal movimento poderia infligir à economia global. (FT, 22/4).

    Aliás, a secretária do Tesouro americano, Janet Yellen, deixou claro qual é o plano dos Estados Unidos para Rússia. Deu a entender que a ideia americana não é propriamente deixar de comprar o gás natural e o petróleo russos, desligando-a completamente do mundo ocidental, mas reduzir a Rússia a um fornecedor enfraquecido de matérias-primas dos países ricos, o mesmo que já fazem com o chamado “Sul Global”.

    Isso fica evidente por suas declarações relatadas pelo Financial Times (22/4): “Em vez disso [parar de importar gás e petróleo russo], o foco dos aliados ocidentais deve reduzir “as receitas das vendas de petróleo e gás” da Rússia. “Se pudéssemos descobrir uma maneira de fazer isso, sem prejudicar o globo inteiro através de preços mais altos de energia que seriam ideais. E é uma questão que todos estamos tentando passar juntos “, disse ela.

    Pelo jeito, vão ter que pensar muito, pois o que está ocorrendo é exatamente o oposto. Embora a questão do gás chame mais atenção, as restrições à exportação do petróleo russo fizeram os preços dispararem e a Rússia está ganhando muito mais.  Conforme relatou o mesmo Financial Times, em 03/05, “A Rystad Energy, um grupo de pesquisa, estima que preços mais altos significam que o Kremlin deve arrecadar US$ 180 bilhões em receitas de impostos sobre petróleo este ano, apesar de os comerciantes se recusarem a tomar um petróleo russo – equivalente a 60 % do orçamento federal de 2022 de Moscou.”

    Como se verifica no gráfico abaixo, publicado pelo Wall Street Journal (22/4), as exportações de petróleo russo dispararam em abril, sendo a maior parte transportada para “destino desconhecido”, na verdade uma forma de os Estados Unidos e alguns países europeus continuarem a comprar o petróleo russo ao mesmo tempo que incentivam os outros a não o fazer. Segundo a mencionada matéria do Wall Street Journal, “As exportações de petróleo de portos russos com destino aos Estados-Membros da União Europeia, que historicamente têm sido os maiores compradores de petróleo russo, subiram para uma média de 1,6 milhão de barris por dia até agora em abril, de acordo com o Tanker-Trackers.com”. Isso provavelmente explica em parte por que mesmo sob o inusitado bloqueio econômico, o rublo se valorizou.

    Fonte: Wall Street Journal, 22/4/2022.

                                                     

    Conforme relata a matéria do Wall Street Journal, “O navio Elandra Denali estava ao largo da costa de Gibraltar na semana passada, quando recebeu três cargas de petróleo de navios-tanque que deixaram dos portos de Ust Luga e Primorsk na Rússia, de acordo com os operadores de embarcações, pessoas envolvidas no transbordo e duas empresas de rastreamento de navios. Os registros do navio mostram que partiu de Incheon, Coréia do Sul, e planeja chegar em Roterdã, um porto de refino importante na Holanda”.

    O Secretário Adjunto do Conselho de Segurança da Rússia, Mikhail Popov, informou à mídia russa, em entrevista no dia 3 de abril, conforme relatado pelo jornal chinês Global Times (04/04), que “Em uma jogada contrastante para a pressão dos aliados europeus para não comprar petróleo russo no contexto da crise em andamento na Ucrânia, os EUA aumentaram o suprimento de petróleo da Rússia em 43 %, ou 100.000 barris por dia, na semana passada”. Na mesma entrevista, Popov ainda informou que “Além disso, Washington permitiu que suas empresas exportassem fertilizantes minerais da Rússia, reconhecendo-os como bens essenciais”.

    Ao comentar o comportamento duplo dos Estados Unidos, Cui Heng, pesquisador assistente do Centro de Estudos Russos da Universidade Normal da China Oriental, disse ao Global Times que a política dos EUA em relação à Rússia está centrada em dois pilares – um sendo o liberalismo para combater o sistema político e a ideologia coletiva e o outro sendo o pragmatismo para servir aos interesses nacionais dos EUA. “Por necessidade de confrontar ideologicamente a Rússia, os EUA incentivam os aliados a sancioná-la, enquanto baseados em suas necessidades reais, os EUA compram energia russa a um preço mais barato e a vendem para a Europa a um preço mais alto para servir às intenções domésticas s dos grupos de interesse do petróleo. No final, a Europa se torna a vítima – a riqueza europeia flui para os EUA e ajuda a consolidar a vantagem do dólar contra o euro” (GT 04/04).

    Ainda segundo o Global Times, “as exportações [dos Estados Unidos] de gás natural liquefeito subiram quase 16 % no mês passado, para um recorde, com as remessas para a Europa continuando a dominar, de acordo com dados preliminares do Refinitiv. O GNL dos EUA está em alta demanda, pois os países europeus tentam cortar as importações de gás da Rússia após sua operação militar na Ucrânia, enquanto também procuram reconstruir os estoques decrescentes. (…) A mídia local informou que a Europa tem sido o principal importador dos EUA por quatro meses consecutivos, levando cerca de 65 % das exportações dos EUA. Em um acordo conjunto, os EUA anunciaram em 25 de março que irão fornecer pelo menos 15 bilhões de metros cúbicos a mais do gás natural liquefeito para a Europa este ano, buscando encerrar a dependência do bloco nas exportações de energia russa. Espera-se que esses volumes adicionais de GNL aumentem no futuro, informou a Casa Branca em comunicado”.

    Ou seja, a Europa quer se livrar da dependência em relação à Rússia apenas para se tornar ainda mais dependente dos Estados Unidos.

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