Destino e Política: Napoleão, Goethe e a Política nos EUA

Napoleão cruzando os Alpes, pintura de Jacques-Louis David (Paris,1748-Bruxelas, 1825)

Formou-se, entre os analistas, quase que um consenso dando como certa uma derrota acachapante dos democratas nas eleições de meio-mandato nos Estados Unidos, em novembro próximo, com a provável perda do controle do Senado e possivelmente da Câmara dos Representantes.

Entre as principais razões para esse cenário pessimista, aponta-se principalmente a inflação, que alcançou o maior nível dos últimos 40 anos, nos Estados Unidos, mas não só ela. Também entra na conta a atabalhoada saída das tropas americanas do Afeganistão que muitos viram como uma nova humilhação para os Estados Unidos e as dificuldades que Biden enfrenta no Congresso para levar adiante seu plano de governo que tem como prioridade investir na desgastada infraestrutura dos EUA, empreender uma ação firme contra as mudanças climáticas e expandir a rede de seguridade social, especialmente para famílias com criança.

As dificuldades para aprovar e transformar em lei seu plano de governo eram debitadas nem tanto aos republicanos, pois já se sabia que votariam sempre em ordem unida contra tudo que Biden propusesse, mas a um senador democrata da Virginia Ocidental chamado Joe Manchim, que infringiu várias derrotas aos democratas ao negar apoio a diversas propostas que Biden enviou ao Congresso. Como as 100 cadeiras do Senado estão divididas meio a meio entre democratas e republicanos, as vitórias democratas dependem rotineiramente do voto de minerva da vice-presidente Kamala Harris, que preside o Senado, desde que não haja nenhuma defecção no lado democrata. Mas parecia que Joe Manchim estava sempre disposto a jogar água no chope de Biden. Em julho, ele causou revolta entre os democratas ao dizer aos líderes do partido que queria esperar mais um mês – até que os números da inflação de julho fossem divulgados – antes que ele pudesse decidir se iria apoiar o pacote de mudanças climáticas. Mas, surpreendentemente, em agosto, com o voto de Joe Manchin, os democratas conseguiram aprovar os pacotes da Lei de Redução da Inflação e o de Chips e Ciência que podem ter efeito importante na política interna americana e na competitividade dos democratas nas eleições legislativas de novembro.

Conforme informou o jornal Valor Econômico, em 11/08, “O IRA [a sigla em inglês da Lei de Redução da Inflação] faz várias coisas ao mesmo tempo, coerentemente integradas. Ele dá estímulos poderosos para a transição energética rumo às tecnologias verdes, ao mesmo tempo que as financia com uma reforma de tributos que taxa mais as empresas com lucro superior a US$ 1 bilhão e fecha brechas tributárias que reduzem muito o imposto a pagar das multinacionais americanas. Mais: dá sobrevida ao Obamacare, destinando US$ 4 bilhões para evitar o aumento do prêmio dos seguros de quem aderiu à iniciativa (os mais necessitados), 13 milhões de pessoas, e torna mais acessíveis os remédios com receita no âmbito do Medicare. O mix engenhoso trouxe ainda um ingrediente para retirar os argumentos tradicionais com os quais os republicanos recusam apoiar iniciativas democratas, a da piora das contas públicas: haverá, com a lei, redução do déficit de US$ 300 bilhões em dez anos com o aumento de arrecadação dele decorrente. Entre outras medidas, o IRS, a Receita americana, receberá aporte de US$ 80 bilhões, com o objetivo de aperfeiçoá-la para que possa realizar a missão de fechar as brechas tributárias para ricos e grandes empresas. O IRS estima que a diferença entre o que os contribuintes deveriam pagar de imposto de renda e o que pagam de fato chega a US$ 441 bilhões anuais”.

De repente, o tom do noticiário mudou radicalmente tanto em relação à sorte do governo Biden e dos democratas, quanto em relação a Joe Biden. Como observou o prêmio Nobel de Economia, Paul Krugman, em artigo publicado no New York Times (19/08), “Sério, tem sido incrível ver a narrativa da mídia sobre o governo Biden mudar. Apenas algumas semanas atrás, o presidente Biden foi retratado como infeliz, à beira de presidir uma presidência fracassada. Então veio a Lei de Redução da Inflação, um grande relatório de emprego e algumas boas notícias sobre a inflação, e de repente estamos ouvindo muito sobre suas realizações”.

O mesmo se deu em relação a Joe Manchim que de traidor e sabotador dos planos de Biden virou de uma hora para outra o senador democrata mais importante, por sua habilidade de garantir a maioria aos democratas no Senado, vencendo seguidamente as eleições em um estado conservador dominado pelos republicanos, onde Trump venceu as eleições, em 2020, com quase 40 pontos de vantagem.

Como David Leonhardt notou no mesmo New York Times, em artigo publicado no dia 11/8, cujo título é “The Decisive Vote. Now that Joe Manchin has saved the Democratic agenda, how should liberals think about him?”, “Joe Manchin passou grande parte do ano passado como o vilão da América liberal, recebendo o tipo de crítica que normalmente é reservada para Donald Trump, Mitch McConnell ou um juiz conservador da Suprema Corte. Ativistas protestaram agressivamente contra Manchin, alguns em caiaques do lado de fora de sua casa flutuante em Washington, outros cercando seu carro e gritando vulgaridades para ele. Um membro democrata da Câmara o chamou de “antinegro, anti-criança, anti-mulher e anti-imigrante”, enquanto outros o chamaram de indigno de confiança. Bernie Sanders acusou Manchin de “sabotar intencionalmente a agenda do presidente” e sugeriu que os doadores ricos de Manchin eram o motivo. Outros críticos o chamaram de um cúmplice da indústria de energia, observando que ele é dono de uma empresa de carvão. E então Manchin tornou possível que o Senado aprovasse a lei climática mais agressiva da história americana”. O artigo conclui que “Em última análise, Manchin é muito mais positivo do que negativo para os democratas. O maior problema do partido é que não tem mais versões de Joe Manchin, porque luta tão fortemente para ganhar eleições em regiões operárias fora das principais áreas metropolitanas. Com ainda mais um democrata no Senado, a apostasia progressiva de Manchin teria muito menos consequências do que é. Seu voto não seria mais vital”.

Impossível prever se essas mudanças irão alterar o destino dos democratas nas eleições de novembro, mas pelo menos serve para nos lembrar o quão certo estava Napoleão Bonaparte quando afirmou em sua famosa conversa com o poeta alemão Goethe: “O destino é a política”.

Luís Antonio Paulino é professor associado da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e membro da equipe de colaboradores do portal “Bonifácio”.

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