A nova onda da Covid-19 e os riscos da Covid Longa

    Bonaparte visitando as vítimas da peste de Jaffa. Pintura de Antoine-Jean Gros (Paris, 1771 - Meudon, 1835)

    Uma nova onda de infecções pela Covid-19 acendeu os sinais de alerta nos países do hemisfério Norte à medida em que o inverno se aproxima naquela parte do Globo. A principal responsável é a subvariante BA.5 da variante Ômicron, que está circulando amplamente em diversas partes do mundo. Estima-se que a BA.5 é responsável por 2/3 de novos casos nos Estados Unidos, que têm registrado mais de 100 mil ocorrências por dia nas últimas semanas, com um número diário de mortes variando de 300 a 350.  A Europa vive a 7ª onda de infecções. Conforme noticiou o jornal Folha de São Paulo, “o boletim mais recente da Organização Mundial da Saúde (OMS), na quinta-feira (22), mostrou que nos sete dias anteriores a Europa concentrou 44% dos novos casos no mundo”. O número de hospitalizações por Covid cresceu 40% na semana passada na França, 34% no Reino Unido e mais de 20% em outros países europeus (Valor Econômico, 18/07).

    Embora não haja evidências de que a subvariante BA.5 possa provocar casos mais severos da doença, nomeadamente em pessoas já vacinadas ou que já tiveram a doença, sua capacidade de evadir-se das defesas proporcionadas pelas vacinas ou infecções anteriores é muito grande. Mesmo pessoas que já tiveram a variante Ômicron estão sendo infectadas novamente por essa nova subvariante. O reduzido risco de morte tem levado a que as pessoas, já cansadas da pandemia, não mudem o comportamento mesmo diante do surgimento dessa nova subvariante muito mais transmissível. O Wall Street Journal (19/07) cita o chefe de departamento de medicina da Universidade de Califórnia, San Francisco, Robert Wachter, para quem “parte do que motivou as pessoas a serem supercuidadosas por um longo período foi o medo de que eu vou morrer dessa coisa”. Afastado esse risco imediato é difícil convencer as pessoas a voltar a tomar as mesmas precauções, como usar máscara ou manter o distanciamento social. As pessoas acham que a pandemia acabou.

    Mas por mais reduzido que seja o risco de morte ele não é nulo, haja vista o aumento do número de óbitos causados pela doença em todo o mundo. A taxa de mortalidade por Covid-19 ainda está muito maior do que a mortalidade por gripe ou outras doenças contagiosas.  O pior, entretanto, é o risco da chamada “Covid Longa” que, pelas estatísticas, tem afetado entre 5% e 7% de todos os infectados. Com o aumento do número de infecções e reinfecções, que deve ser muito maior que os reportados oficialmente, pois a maioria das pessoas deixou de fazer testes ou está fazendo em casa – nos Estados Unidos estima-se um milhão de infectados por dia ao invés dos 100 mil registrados oficialmente – o número de pessoas acometidas pela Covid Longa tende a crescer exponencialmente.

    Segundo a OMS, a chamada Covid longa pode aparecer três meses após o início da infecção, com sintomas que duram pelo menos dois meses e que não podem ser explicados por um diagnóstico alternativo. Matéria do Wall Street Journal (08/07) informa que ‎a OMS considera que a Covid Longa é uma condição na qual pessoas que tiveram Covid-19 três meses antes permanecem com sintomas como fadiga grave e problemas cognitivos que duram pelo menos dois meses. Independentemente de como se define, os números são assustadores: pesquisadores que analisaram os registros de pacientes da Administração de Saúde dos Veteranos, nos Estados Unidos, calculam que 4% a 7% dos pacientes infectados com Covid-19 desenvolveram a Covid longa. Segundo a matéria, este número está abaixo das estimativas mais recentes, mas, considerando que a maior parte da população dos EUA ‎‎parece ter sido infectada‎‎, ainda se traduz em milhões de sofredores.‎ ‎

    ‎Segundo os pesquisadores, além do risco de experimentar sintomas como dificuldade de pensar, as pessoas que tiveram Covid têm risco aumentado de doenças graves, como doenças cardíacas e diabetes tipo 2. Sintomas longos de Covid, como tosse persistente, podem desaparecer, mas doenças crônicas não.‎ Conforme o site do Instituto Butantan, “relatada por mais de 35% dos pacientes investigados pela Fiocruz Minas, a fadiga está no topo das reclamações. O cansaço extremo tem impacto direto na rotina dos pacientes, uma vez que complica a execução de tarefas do dia a dia. Tosse persistente, dificuldade para respirar, perda do olfato ou paladar e dores musculares foram outras queixas observadas. Em alguns casos, o bem-estar mental também foi comprometido. De acordo com a pesquisa brasileira, 8% dos 646 entrevistados relataram sofrer com insônia, 7,1% com ansiedade e 5,6% com tontura após a infecção por SARS-CoV-2”.  De acordo com a pesquisa da Fiocruz Minas, “metade das pessoas diagnosticadas com a doença apresentam sequelas que podem perdurar por mais de um ano”.

    Infelizmente, as autoridades de saúde em geral não têm alertado devidamente a população sobre a necessidade de manter cuidados com uso de máscaras, lavagem frequente das mãos e distanciamento social para evitar a contaminação e o resultado tem sido um aumento exponencial de infecções. Mesmo com o risco de morte diminuído, o número das pessoas que irão desenvolver a Covid Longa aumenta, o que pode trazer impactos negativos não apenas sobre a qualidade de vida das pessoas, mas uma sobrecarga nos serviços de saúde pública, aumento de preços dos planos privados de saúde e perda de dias de trabalho. ‎Segundo a já mencionada reportagem, os pesquisadores estimam que as pessoas que tiveram Covid têm ‎‎40% mais chance de desenvolver diabetes tipo 2 ‎‎do que se não tivessem sido infectadas. O custo médio de tratamento, em homens de 45 a 54 anos, é de US$ 106.200, o que nos Estados Unidos, pode significar vários bilhões de dólares em custos adicionais de saúde‎. Em outros lugares, a situação não deve ser muito diferente.

    Luís Antonio Paulino é professor associado da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e membro da equipe de colaboradores do portal “Bonifácio”.

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