A história é conflito e o “politicamente correto” é coisa de estúpidos

    Ilusão de ótica: o Ocidente convenceu-se de que é o mundo inteiro, mas não é. O Islã, a cultura chinesa e a africana produzem muitas outras sensibilidades e formas de pensar.

    Luciano Canfora[*]

    Expomos uma prévia do livro Dicionário Político Mínimo, editado por Antonio Di Siena, publicado pela Editora Fazi.

    Há algum tempo, uma escola secundária de Edimburgo decidiu não oferecer mais To Kill a Mockingbird (O sol é para todos) como leitura para os alunos porque, segundo os professores, o romance promove uma narrativa em que negros são salvos por um branco.

    A editora inglesa do escritor Roald Dahl modificou os textos de seus livros, eliminando as partes em que o autor, com seu estilo irreverente, caracterizava personagens negativos com características físicas de feiúra e gordura.

    O departamento de Clássicos da Universidade de Princeton decidiu eliminar o estudo obrigatório de grego e latim, bem como o seu conhecimento intermédio, e substituí-lo pelo estudo da raça e da identidade dos EUA.

    Tudo isto para melhorar a inclusão e a equidade dos currículos e combater o racismo sistêmico porque, como muitos escreveram, os clássicos seriam cúmplices de diversas formas de exclusão, escravatura, segregação, supremacia branca, destino manifesto, genocídio cultural, etc. Uma fúria iconoclasta que proíbe livros e destrói monumentos dedicados a pessoas acusadas de racismo. Acabarão por nos dizer para demolir o Coliseu, porque é um símbolo da escravatura e o Arco de Tito, porque é antissemita?

    Apressem-se a contratar imediatamente empresas especializadas em demolição. Acrescente-se  à lista todas as estátuas de Júlio César, culpado do genocídio gaulês (pelo menos 800 mil mortos), e depois aquelas dedicadas a Genghis Khan, a Ivan, o Terrível e ao Papa Bórgia, por outros motivos. Vamos derrubar tudo para que não fique nada e resolvemos o problema. Sem esquecer, obviamente, toda a história dos EUA, mas não só até à guerra de secessão, até ontem. Porque se este for o princípio, então todos os livros didáticos de história americana deveriam ser invalidados e cancelados. O único tópico da história dos Estados Unidos acabaria sendo a biografia de Joe Biden, o que seria uma matéria mais do que fácil.

    Piadas à parte, a verdade é que estamos falando de uma estupidez universal. Além do mais, todas as afirmações acima são falsas. Todas as fases da história, remotas e recentes, são conflituosas, não têm um sentido único.

    A história do mundo greco-romano, por exemplo, não é apenas a história daqueles que comandaram, mas também a daqueles que se rebelaram. Não é apenas o pensamento daqueles que apoiaram a escravatura, mas também daqueles que a consideraram absolutamente antinatural. A história é um conflito. Se você não tem coragem de enfrentá-lo com seriedade, o caminho mais cômodo e tolo consiste em simplificar, revogar, eliminar, anular, regressar à Idade da Pedra. E depois tem a questão de reescrever os textos.

    Há algum tempo li um romance muito engraçado, em que o novo diretor de uma editora decide reimprimir Tolstói mudando o título de seu romance mais famoso. Não mais Guerra e Paz, mas apenas Paz, porque “guerra”é uma palavra perigosíssima. E então como lidamos com a morte dos personagens mais icônicos? Ninguém morre e todos vivem felizes para sempre. Estamos num nível em que, citando Leopardi, não sei se prevalece o riso ou a comiseração. Não se pode comentar. Deve-se constatar, no entanto, que os chamados progressistas nos quatro cantos do planeta, especialmente no mundo americano, convenceram-se de que esta é uma forma de progressismo. A verdade é que são uns ignorantes perigosos.

    Mais do que uma forma de etiqueta lexical, para a antropóloga Ida Magli, o politicamente correto é uma técnica sofisticada de lavagem cerebral. Promove uma autocensura espontânea e insinua distorções lexicais da realidade que, a longo prazo, impedem a formação linguística de conceitos. O que equivale a assumir o controle do pensamento. Se assim for, a direção tomada é a de um “pensamento único” em que as ideias se tornam limitadas e imutáveis.

    Felizmente não em todos os lugares. Acontecerá em certos ambientes do mundo euro-americano que, no entanto, não é todo o planeta. A ilusão de ótica ocidental é de ser o mundo inteiro. Sinto muito, mas não é assim.

    O Islã tem características próprias, por vezes apreciáveis, muitas vezes negativas. O mundo chinês tem uma herança cultural que remonta a milhares de anos. Fingimos que a África não existe, ou que é povoada apenas por bárbaros, embora tenha hospedado civilizações muito antigas. Tudo isto produz muitas outras sensibilidades, maneiras de pensar, até formas de censura e modos de prevalecer, formas de luta que o Ocidente deve resignar-se a considerar tão legítimas como as suas. É por isso que o impulso obsessivo de autocensurar a linguagem e o comportamento é como bater água no pilão: um esforço inútil.

    O politicamente correto irá resistir no nosso pedaço de mundo até que aconteça algo traumático o suficiente para apagar essa matéria, mudando o foco para questões mais substantivas. Num certo sentido, o conflito na Europa oriental levou muitos a falarem com mais veracidade, a tirarem as máscaras e a dizerem as coisas como elas são. A doçura do engano lexical começa a se mostrar inútil e por isso sai lentamente de cena, passando para as páginas internas.

    Depois, naturalmente, no nosso mundo a autocensura dos meios de comunicação é estrutural, não há necessidade sequer de indicar o dia em que começou. E, sendo assim, facilita muito este tipo de desvio que, no entanto, repito, não constitui um problema generalizado. Permanece inerente e limitado a um determinado mundo, e como estamos nele todos os dias, tememos que ele possa se tornar o universo inteiro. Não é este o caso.

    Tradução: Anselmo Pessoa Neto

    Publicado originalmente em: https://www.ilfattoquotidiano.it/in-edicola/articoli/2024/05/01/la-storia-e-conflitto-e-il-politicamente-corretto-e-da-fessi/7531983/amp/


    [*] Filólogo clássico, helenista, historiador e ensaísta italiano. Autor, entre outros, de Livro e Liberdade, Ateliê editorial.

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