A Guerra das Vacinas

Enquanto os países ricos trataram de garantir a maior quantidade possível de vacinas, adquirindo, em muitos casos, um número suficiente para vacinar duas ou três vezes toda a sua população, a maior parte dos países pobres não obteve, ainda, uma única dose de vacina contra a Covid-19. Segundo o secretário geral da ONU, António Guterres, 10 países (incluindo o Brasil) concentram 75% das doses aplicadas, e 130 países ainda não receberam nenhuma dose[i]

Os Estados Unidos rejeitaram recentemente proposta do presidente da França, Emanuel Macron, de que os EUA e a União Europeia enviassem até 5% de seus suprimentos de vacinas para os países em desenvolvimento, onde a vacinação contra a Covid-19 mal começou. Afirmaram que a prioridade, por enquanto, é vacinar os americanos.

Os Estados Unidos dispõem de 15 doses de vacinas por 100 habitantes.

Em dezembro de 2020, Donald Trump assinou decreto que obrigava as empresas que produzem no país a priorizar o mercado interno. Joe Biden manteve isso e recusou apelos recentes dos vizinhos México e Canadá e de aliados na Europa pela liberação de mais vacinas. A União Europeia (UE), prejudicada por essa política americana, adotou regras para limitar a exportação de vacinas produzidas localmente, caso o mercado europeu não seja abastecido adequadamente[ii].

A Itália bloqueou, neste início de março, o envio de 250.000 doses de vacina coronavírus para a Austrália[iii]. Segundo o presidente da França, Emanuel Macron, em entrevista ao “Financial Times”, as nações africanas em alguns casos estão comprando vacinas ocidentais como as produzidas pela AstraZeneca a preços duas ou três vezes mais altos do que a União Europeia (UE) está pagando[iv].

Assistimos a uma escalada mundial na competição por vacinas na medida em que a possibilidade de novas ondas de infecção se tornam mais prováveis com o surgimento de diferentes variantes do coronavírus. O problema é que a falta de cooperação dos países ricos vai acabar se voltando contra eles mesmos. Nos lugares onde a vacina demorar para chegar ou mesmo não chegar, novas variantes do vírus, mais transmissíveis e agressivas, vão surgir e se espalhar pelo mundo, podendo baldar todo o esforço de contenção feito até agora. Como afirmou recentemente Patricia Garcia, ex-ministra da Saúde do Peru e epidemiologista, “a não ser que todos no mundo tomem a vacina rapidamente, nenhum de nós estará protegido”[v].

O presidente Biden manteve a decisão de Trump de obrigar as empresas que produzem nos Estados Unidos a priorizar a população norte-americana. O mercado funcionando com base no princípio da América primeiro.

Quem parece ter entendido corretamente a questão foi a China. Até o início de fevereiro a China havia administrado 40,52 milhões de doses para sua população, o que corresponde a apenas 3 vacinas por 100 habitantes, comparado com 15 doses por 100 habitantes nos Estados Unidos, 70 em Israel e 22 no Reino Unido. Em compensação, até aquela data, os chineses já tinham enviado para o exterior, principalmente para os países pobres e em desenvolvimento, o equivalente a 46 milhões de doses, seja na forma de vacinas prontas, seja na forma de ingredientes ativos (IFA)[vi]. Os fabricantes chineses de vacinas já assinaram contratos para fornecer mais de 500 milhões de doses para outros países, de acordo com a consultoria Gavekal Dragonomics[vii]

A China construiu no novo aeroporto de Addis Abeba, na Etiópia, um enorme centro para acelerar a distribuição de vacinas para toda a África e outros países em desenvolvimento.  Segundo relata o Wall Street Journal, os chineses construíram naquele aeroporto um enorme frízer, do tamanho de um campo de futebol para o armazenamento das vacinas, para guardar e organizar a distribuição[viii].

Os países pobres, em sua maioria, ainda não dispõem de vacina nenhuma.

É bem verdade que o enorme sucesso que a China teve no controle da pandemia por meio de medidas de lockdown, quarentena e distanciamento social tornaram a necessidade de vacinas em seu próprio território menos urgente. Em toda a China já não há mais sinal de surgimento autóctone do coronavírus; os poucos casos que aparecem são de pessoas vindas de fora, mas que são barrados na entrada, por meio de uma rigorosa quarentena de 28 dias, sendo 14 no aeroporto de chegada e mais 14 no destino final do viajante. Obviamente isso tem facilitado a ajuda internacional.  

Mais uma vez a geopolítica chinesa funcionou com a distribuição de vacinas para os países pobres.

Infelizmente, ao invés de adotar uma atitude mais solidária e cooperativa, os países ricos preferem acusar a China de estar tentando aumentar sua influência global por meio da “diplomacia das vacinas”. Biden anunciou com pompa que, finalmente, “A América está de Volta”. Mas como afirmou o escritor norte-americano Howard W. French, “A America estará de volta se ela ajudar a vacinar o mundo”[ix].


[i] Saccomandi, H. E se a China vencer a guerra das vacinas? Valor Econômico, 19/02/2021.  Disponível em: https://valor.globo.com/politica/coluna/e-se-a-china-vencer-a-guerra-das-vacinas.ghtml Acesso em 04/03/2021

[ii] Idem, ibidem

[iii] Fleming, S., Brunsden, J. e Johnson, M. Italy blocks shipment of Oxford/Astra Zeneca vaccines to Australia. Financial Times, 04/03/2021. Disponível em: https://www.ft.com/content/bed655ac-9285-486a-b5ad-b015284798c8 Acesso em 04/03/2021

[iv] FT Interview. Macron on the race to vaccinate Africa. Financial Times, 18/02/2021. Disponível em: Macron on the race to vaccinate developing countries | FT interview | Financial Times Acesso em 04/03/2021

[v] Pearson, S. e Dube, R. Brazil virus variant overwhelms region. Wall Street Journal, 03/03/2021. Disponível em: https://www.wsj.com/articles/covid-19-variant-in-brazil-overwhelms-local-hospitals-hits-younger-patients-11614705337?mod=searchresults_pos1&page=1 Acesso em 04/03/2021

[vi] Lew, L., Zuo, M. e McCarthy, S. China tilts to covid-19 vaccine diplomacy as domestic jab program lags. South China Morning Post, 15/02/2021. Disponível em: https://www.scmp.com/news/china/diplomacy/article/3121766/china-tilts-covid-19-vaccine-diplomacy-domestic-jab-programme Acesso em 04/03/2021

[vii] Parkinson, J., Deng, C. e Lin, L. China Deploys Covid-19 Vaccine to Build Influence, With U.S. on Sidelines. Wall Street Journal, 21/02/2021. Disponível em: https://www.wsj.com/articles/china-covid-vaccine-africa-developing-nations-11613598170?mod=searchresults_pos1&page=1 Acesso em 05/03/2021

[viii] Idem, ibidem.

[ix] French, H. W. America will be “back” if it helps vaccinate the world. World Politics Review (WPR), 04/03/2021. Disponível em: https://www.worldpoliticsreview.com/articles/29465/america-will-be-back-if-it-helps-vaccinate-the-world Acesso em 05/03/2021

2 COMENTÁRIOS

  1. […] Em dezembro de 2020, Donald Trump assinou decreto que obrigava as empresas que produzem no país a priorizar o mercado interno. Joe Biden manteve isso e recusou apelos recentes dos vizinhos México e Canadá e de aliados na Europa pela liberação de mais vacinas. A União Europeia (UE), prejudicada por essa política americana, adotou regras para limitar a exportação de vacinas produzidas localmente, caso o mercado europeu não seja abastecido adequadamente[ii]. […]

  2. […] Enquanto os países ricos trataram de garantir a maior quantidade possível de vacinas, adquirindo, em muitos casos, um número suficiente para vacinar duas ou três vezes toda a sua população, a maior parte dos países pobres não obteve, ainda, uma única dose de vacina contra a Covid-19. Segundo o secretário geral da ONU, António Guterres, 10 países (incluindo o Brasil) concentram 75% das doses aplicadas, e 130 países ainda não receberam nenhuma dose[i] […]

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