A batalha errada do Banco Central

    O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central elevou, em junho, a taxa básica de juros de 3,5% ao ano para 4,25% ao ano e afirmou que “antevê” novo ajuste de 0,75 ponto para agosto. Até operadores do mercado financeiro acham um exagero[i]. Conforme destaca matéria do jornal Valor Econômico “Depois de colocar, durante a pandemia, a Selic na mínima histórica de 2% ao ano, o colegiado vem apertando a política monetária desde março. Para 2021, o Copom projeta inflação de 5,8% – acima da meta (3,75%) e do intervalo de tolerância (5,25%). Mas, com o aperto monetário, espera baixar a meta de inflação para 3,5% em  2022”[ii] . As expectativas para a taxa Selic ao final de 2021 estão entre 6,5% e 7%.

    Como se diz na linguagem militar, o Banco Central está travando a batalha errada. Apesar da forte recuperação da atividade econômica nos primeiros três meses do ano, a subida dos preços não se deve a pressões de demanda e o remédio que está sendo aplicado para conter a inflação – a elevação das taxas de juros – só vai prejudicar a recuperação da atividade econômica que, embora positiva, segue abaixo da média mundial. De acordo com estimativas do Banco Mundial, a previsão de crescimento do PIB para 2021 é de 5,6% para o mundo, 5,4% para as economias desenvolvidas e 6% para as economias emergentes, enquanto, para o Brasil as projeções apontam 4,5%. Para 2022, o quadro se repete: 4,3% para o mundo, 4% para as economias desenvolvidas, 4,7% para as economias emergentes e apenas 2,5% para o Brasil.

    É provável que a inflação caia nos próximos meses, mas não será por causa do aumento da taxa de juros ou principalmente por causa disso. O aumento da inflação que vem ocorrendo desde o ano passado se deve principalmente à acentuada desvalorização do real, que provocou um aumento expressivo no preço de insumos importados, além de estimular a exportação de commodities, como carne e soja, cujo preço também se elevou no mercado interno. O outro vetor de aumento da inflação foram os preços administrados, como os combustíveis, o gás de cozinha e a energia elétrica. Todos esses aumentos estão relacionados a outros fatores que não o excesso de demanda, entre os quais a já mencionada desvalorização do real e, no caso da energia elétrica, a crise hídrica.

    É provável que o mercado internacional de commodities entre em uma fase de acomodação nos próximos meses, mesmo porque a demanda chinesa, que tem sido um dos fatores por trás da alta de preços, tende a arrefecer. O governo chinês tem liberado estoques de diversas commodities com o objetivo de conter a alta dos preços internacionais. Pela primeira vez no ano, o dólar foi cotado abaixo de R$ 5,00. Segundo o jornal Valor Econômico, “A moeda brasileira vem em contínua recuperação desde meados de março, refletindo uma série de fatores externos e internos. Entre eles, destacam-se a alta dos preços das commodities, a subida da Selic, a redução dos temores fiscais e indicadores de atividade econômica e arrecadação melhores que o esperado, além do avanço da vacinação”[iii]. Todos esses fatores devem contribuir para a redução das expectativas inflacionárias nos próximos meses.

    O Banco Central usa o aumento da inflação como justificativa a para o aumento da taxa básica de juros, mas na verdade atende principalmente a outros interesses do mercado financeiro. Desde que a taxa de juros Selic foi baixada para o nível de 2%, a rentabilidade dos diversos produtos financeiros indexados aos títulos da dívida pública estava próxima de zero e em muitos casos dando retornos negativos. Desde o início do ano os gestores dessas carteiras já apontavam para a necessidade de uma taxa Selic de no mínimo 6% para voltar a entregar retornos positivos. O aumento da inflação ofereceu essa oportunidade. Mera coincidência.


    [i] Bertão, N. BC corre risco de elevar juros além da conta, diz sócio da Kapitalo. Valor Econômico, 24/06/2021

    [ii][ii] Taiar, E. e Ribeiro, A. BC discutiu aumento maior da taxa Selic. Valor Econômico, 23/06/2021

    [iii] Resende, V., Osakake, M. e Saturnino, F. Dólar fecha abaixo de R$ 5 pela primeira vez em

    Mais de um ano. Valor Econômico, 23/06/2021

    1 COMENTÁRIO

    1. Trata-se de um governo a serviço da banca e do capital rentista, que assim paga o apoio para os golpes praticados no Brasil contra os interesses do povo brasileiro. Mais um ótimo artigo do Professor Paulino.

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