A agricultura brasileira e suas relações com a China

    *Diego Pautasso e *Carlos Renato Ungaretti 

    Acaba de ser publicado o livro China-Brazil partnership on agriculture and food security, cujos editores são Marcos Sawaya Jank, Pei Guo e Silvia H. G. de Miranda. A obra foi organizada a partir do suporte da Universidade de São Paulo (USP) e da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ), em cooperação com universidades chinesas, a saber, a China Agricultural University e o College of Economics and Management

    Partindo da constatação de que Brasil e China constituem atores protagônicos no futuro da agricultura global e de que há uma profunda interconexão bilateral no campo do agronegócio, o conjunto do livro busca dar conta da multiplicidade de perspectivas associadas aos universos brasileiro e chinês. Em última instância, há a pretensão de estabelecer potenciais encontros construtivos em um amplo leque de aspectos vinculados ao comércio, aos investimentos, à infraestrutura, à inovação e à sustentabilidade, que por sua vez desempenham um papel fulcral no enfrentamento de desafios em torno da agricultura e da segurança alimentar em tempos de pandemia global.

           De modo a dar conta dessas perspectivas múltiplas, a obra se estrutura em seis partes, cada qual composta por dois artigos, sendo um de autoria de pesquisadores brasileiros e outro assinado por pesquisadores chineses. A primeira parte busca oferecer um panorama geral acerca da evolução dos setores agroalimentares de Brasil e China, oferecendo, em consequência, relevantes análises comparativas. A segunda parte trata da segurança alimentar global, partindo especificamente de casos bem-sucedidos de internacionalização setorial. 

           A terceira parte, por sua vez, aborda o tema da inovação e da bioenergia, destacando, de um lado, o papel da cana-de-açúcar no fornecimento de alimentos, bioenergia e biomateriais; enquanto, de outro lado, trazendo à tona o tema da “Agricultura 5.0” na China. A quarta parte da obra se ocupa em analisar a cooperação em infraestrutura e investimento, especialmente o “apetite chinês” por investimentos na área da agricultura e as oportunidades oferecidas pela China para uma estreita parceria bilateral em termos de infraestrutura de transportes. 

    O professor Marcos Jank, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ-USP), é um dos organizadores do livro. O professor foi presidente da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (ÚNICA) e é especialista em Agricultura e Comércio Exterior.

    Seguindo na seara das relações sino-brasileiras, a quinta parte trata das oportunidades e desafios para fortalecer o comércio bilateral agroalimentar com base nas perspectivas brasileira e chinesa. Na sexta e última parte, entra em cena a temática da promoção da sustentabilidade e os consequentes desafios para ambos os países. No caso chinês, a ênfase recai sobre a relevância de se preservar recursos naturais e se prevenir de desastres naturais, ao passo que, no caso brasileiro, descrevem-se os desafios-chave e os potenciais espaços de colaboração com a China no âmbito da promoção da sustentabilidade. 

    A obra vem em excelente hora dado que ajuda a iluminar os (des)caminhos das relações sino-brasileiras na atualidade. Destaque-se que a China é a maior parceira comercial do Brasil desde 2009. Somente em 2019, representou cerca de 80% do nosso superávit comercial. O Brasil é o único país da América Latina a superar os US$ 100 bilhões no comércio com a China e já recebeu US$ 80 bilhões em investimentos chineses. Mais que isso: o ciclo econômico de bonança experimentado pela economia brasileira no início do século XXI esteve intimamente relacionado com o boom das commodities estimulado pelo crescimento da demanda chinesa.  

    A centenária Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz une seu conhecimento com acadêmicos chineses para aproximar Brasil e China na busca de objetivos comuns.

    Apesar da sinergia existente nas relações sino-brasileiras, e da necessidade de ainda maior reforço destas num contexto de pandemia e agudas crises econômicas e políticas no Brasil, membros do executivo federal preferiram optar pela estratégia de produzir atritos inócuos e contraproducentes com a China. Os ministros da Educação, Abraham Weintraub, e das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, acusaram a China de impulsionar a pandemia, com o último chegando a empregar a expressão “comunavírus” – acusando justamente o país que produz sozinho mais da metade dos equipamentos de proteção individual (EPI) e equipamentos de saúde do mundo. 

    Além da inabilidade política, a diplomacia do governo Bolsonaro tem apresentado descontinuidades com linhas historicamente assumidas pelo Itamaraty em prol da defesa dos interesses nacionais. Os descaminhos da atual política externa têm afetado o comércio exterior do Brasil, sobretudo o seu setor mais dinâmico, responsável por cerca de ¼ do PIB e pelo grosso do superávit comercial: o agronegócio. Como exemplo, cabe lembrar a polêmica da mudança da embaixada brasileira de Israel para Jerusalém. Um desgaste político desnecessário com um dos nossos principais mercados, o mundo árabe, que ameaçou produzir significativos reveses comerciais para o setor agrícola nacional. 

    O agronegócio, formado por uma multiplicidade de produtores, que vão dos pequenos agricultores às grandes agroindústrias, apoiou em peso a eleição do atual presidente. Agora, contudo, tal setor está cada vez mais apreensivo com uma diplomacia errática e seus possíveis efeitos nocivos sobre o comércio exterior. No atual quadro de desalinhamento das relações sino-brasileiras, conduzido pelo caricato chanceler Ernesto Araújo, urge repensar as relações bilaterais, em todos os âmbitos. 

    Em resumo, é crucial restabelecer a norma do relacionamento sino-brasileiro, promovendo complementaridades e sinergias no campo da agricultura. Para o Brasil, a China é e continuará sendo o principal destino de nossas exportações agropecuárias e, portanto, uma interlocutora estratégica. Ademais, há um espaço importante de possibilidades a ser explorado, que vem desde a agroindústria, passando pela logística e setores de inovação.

    A China Agricultural University é fonte credenciada chinesa em pesquisa para a área da agricultura.

    A concretização e potencialização disso, contudo, depende da plena implementação de um estruturado projeto nacional de desenvolvimento, e da retomada da capacidade de formulação da inserção internacional do Brasil em consonância com as mudanças correntes numa ordem global marcada pela ascensão da Ásia Oriental, cujo epicentro reside exatamente na China.  

    *Diego Pautasso é doutor e mestre em Ciência Política e graduado em Geografia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atualmente é professor de Geografia do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) e professor convidado da Especialização em Relações Internacionais – Geopolítica e Defesa, da UFRGS. Autor do livro China e Rússia no Pós-Guerra Fria, ed. Juruá, 2011. E-mail: dgpautasso@gmail.com

    *Carlos Ungaretti é mestrando em Estudos Estratégicos Internacionais pelo PPGEEI-UFRGS.

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