Sofisticação crescente da indústria chinesa dificulta o desacoplamento

    A Oficina de um Tecelão (1656), pintura de Gillis Rombouts (Holanda, 1630-1672).

    Em sua cruzada para evitar a ascensão da China, a principal estratégia dos Estados Unidos e seus aliados europeus é promover o “desacoplamento” da economia chinesa da economia mundial, o que significa, na prática, reduzir a dependência das importações de insumos, componentes e produtos acabados da China. Para tanto, os Estados Unidos e a União Europeia voltaram a investir pesado em políticas industriais, com o objetivo trazer de volta para seus territórios a produção de insumos industriais e produtos acabados, que, no auge do processo de globalização produtiva, tinha sido transferida para a China.

    Para tanto, pacotes bilionários de financiamento e incentivos têm sido aprovados. Como informou o jornal Valor Econômico (11/08), “O pacote dos chips e da ciência vai em outra direção, com o mesmo espírito – melhorar a competitividade americana e preparar a mão de obra para usufruir dos empregos mais atraentes que os saltos tecnológicos propiciarão. Serão US$ 52,7 bilhões para aumentar a produção de semicondutores, insumo estratégico a várias indústrias. A fatia da produção global detida pelos EUA já foi de 40%, hoje é de 10%. 80% da capacidade de fabricação mundial encontra-se atualmente  na Ásia. Para formar a força de trabalho para novas tecnologias, incluindo as minorias, serão investidos US$ 13,2 bilhões e outros US$ 10 bilhões irão para a formação de hubs tecnológicos regionais. Cerca de US$ 100 bilhões se destinarão à pesquisa e desenvolvimento em cinco anos”.

    Por mais que os Estados Unidos e a União Europeia se esforcem, as estatísticas de comércio internacional mostram que é impossível fazer a roda da história girar para trás, para um tempo em que a China não era, ainda, a fábrica do mundo. Como destaca matéria do jornal Valor Econômico (19/08), “EUA e Europa estão mais dependentes das fábricas chinesas, apesar das preocupações com a segurança nacional e riscos de ruptura das cadeias de suprimentos”. Segundo a matéria, “Apesar dos esforços dos EUA e da Europa de reduzir a dependência das fábricas chinesas, nos últimos dois anos, a China consolidou sua posição de maior fornecedora global de bens manufaturados”.

    Segundo dados divulgados pela Unctad, a agência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, a participação da China nas exportações globais de bens em valor aumentou durante a pandemia, para 15% no fim de 2021, de 13% em 2019. Enquanto isso, a participação da Alemanha caiu para 7,3% em 2021, de 7,8% em 2019; a do Japão encolheu de 3,7% para 3,4%; e a dos EUA diminuiu de 8,6% para 7,9%. Ainda segundo a Unctad, a fatia da China nas exportações globais de eletrônicos aumentou para 42% em 2021, de 38% em 2019, enquanto sua participação nas exportações de têxteis cresceu de 32% para 34%. Isso obviamente se reflete nos resultados da balança comercial. O déficit comercial dos EUA com a China nos primeiros seis meses de 2022 aumentou 21% ao ano, para US$ 222 bilhões, segundo dados do Departamento de Comércio americano (Valor Econômico, 21/08).

    Para o Wall Street Journal (22/08), “Apesar de toda a conversa nas capitais ocidentais de reduzir a dependência das fábricas chinesas, a China consolidou nos últimos dois anos sua posição como fornecedora dominante de produtos manufaturados do mundo”.  Ainda segundo o jornal, “Essa “dissociação” é especialmente desafiadora, pois as fábricas chinesas estendem seu alcance para produtos de ponta, como chips e smartphones, e novas tecnologias, como carros elétricos e energia verde”.

    No caso dos Estados Unidos, até por causa da sobretaxa de 25% imposta a milhares de produtos chineses, observa-se uma redução da participação da China no total das importações dos Estados Unidos. Segundo o Valor Econômico (19/08), “A participação da China nas importações totais dos EUA caiu nos últimos anos, refletindo o impacto das sobretaxas em alguns produtos e o esforço das empresas para reduzir sua dependência da China abrindo fábricas em outros países, como o Vietnã”.

    É preciso considerar, contudo, que muitas empresas chinesas estão realizando investimentos no México com o objetivo de atender o mercado norte-americano. Conforme destaca outra matéria do Valor, em 16/08, o México atraiu investimentos de 1.289 empresas chinesas até 2022.  Ainda segundo o jornal, no Estado de Nuevo Leon, a duas horas e meia da fronteira com os Estados Unidos, teve início, em 2017, um projeto estimado em US$ 1,2 bilhão, num esforço conjunto entre as companhias chinesas Holley Group e Futong Group, juntamente com um parceiro mexicano. Vinte empresas chinesas devem se instalar no local, dez das quais já começaram a produzir ali. Ainda segundo o jornal, a fabricante chinesa de eletrodomésticos Hisense está investindo US$ 260 milhões em uma fábrica mexicana para exportar para os EUA, com planos de produzir em massa refrigeradores no local até o fim do ano. A fabricante de móveis de Kong Kong Man Wah Holdings está construindo uma unidade de US$ 300 milhões, enquanto a Kuka Furniture de Zhejiang informou em março que está ampliando sua capacidade no México.

    Luís Antonio Paulino é professor associado da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e membro da equipe de colaboradores do portal “Bonifácio”.

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