Santa Sofia e Jerusalém, duas faces da mesma moeda do “choque das civilizações”

    Resenha Estratégica – Vol. 17 | nº 27 | 15 de julho de 2020  

    Em 10 de julho, o presidente turco Recep Erdogan anunciou em cadeia nacional de televisão um decreto de conversão da histórica Basílica de Santa Sofia (Hagia Sophia), em Istambul, em mesquita, devendo os serviços religiosos ter início a partir da sexta-feira 24.

    Construída no século VI pelo imperador romano Justiniano, a basílica, símbolo do cristianismo ortodoxo, foi convertida em mesquita após a tomada da então Constantinopla pelo sultão otomano Mehmet II, em 1453, e em museu, em 1934, durante a criação da moderna Turquia secular por Mustafa Kemal Atatürk (1923-1938).

    O imperador Romano Justiniano construiu a Basílica de Santa Sofia no século VI.

    A iniciativa é uma manobra perigosa e provocativa de Erdogan, que reflete uma combinação de turbulências econômicas e políticas internas com a sua antiga e notória ambição de desmantelar o Estado secular “kemalista”, substituindo-o por uma reedição do Califado neo-otomano – evidentemente, com ele próprio no papel de “Sultão”, um líder simbólico do Islã sunita, como um coroamento dos seus 18 anos ininterruptos de poder.

    Saudado por seus fiéis seguidores e por islamistas radicais, dentro e fora da Turquia, o manifesto triunfalista de Erdogan dá a medida do seu ego e ambições. Em suas palavras, a “ressurreição [sic] de Hagia Sophia” é “precursora da libertação do Domo da Rocha [santuário islâmico em Jerusalém – n.e.]” e “uma saudação a todas aquelas cidades simbólicas da civilização, de Bucara [Uzbequistão] à Andaluzia [Espanha]” – óbvias referências ao período áureo da expansão do Islã, por volta do século X.

    O sultão Mehmet II converteu a Basílica de Santa Sofia em Mesquita em 1453.

    O Estado Islâmico não diria melhor.

    A audácia de Erdogan decorre da sua confiança de que não terá grandes problemas internos ou externos para prosseguir com seus planos. No primeiro caso, pelo fato de as Forças Armadas, o principal pilar do secularismo “kemalista”, se encontrarem bastante desgastadas pela tentativa de golpe de Estado de 2016 e, dificilmente, terão condições de exercer influência significativa. No segundo, pela indiferença generalizada das potências ocidentais em relação à agressiva política externa de outro igualmente belicoso e longevo líder regional, o premier israelense Benjamin Netanyahu, com a sua agenda de consolidar Jerusalém como a capital “una e indivisível” de Israel.

    Kemal Ataturk transformou a Basílica e depois Mesquita em Museu em 1934.

    Ademais, as mesmas potências têm se omitido sistematicamente diante da virtual “temporada de caça” aberta contra as comunidades cristãs no Grande Oriente Médio, desde a primeira década do século, ensejada pelas catastróficas intervenções militares dos EUA e seus aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) na região, em especial, no Iraque, Líbia e Síria, países que, não coincidentemente, se destacavam por terem regimes seculares, em meio a uma multidão de vizinhos teocráticos.

    A truculência do “Sultão” recebeu algumas críticas duras. O patriarcado ortodoxo de Moscou a considerou “um tapa na cara de todo o cristianismo”, nas palavras do metropolitano Hilarion, presidente do Departamento de Relações Exteriores da Igreja Ortodoxa Russa. O patriarca caldeu, cardeal Louis Raphael Sako, a rotulou como “um ato grave”, contrário à solidariedade necessária em uma região tão conflituosa. O Papa Francisco também lamentou a iniciativa.

    O presidente Erdogan mergulhou no “choque de civilizações” ao reconverter a Basílica em Mesquita.

    Porém, é improvável que passe muito disso. Assim como as agressivas ações de Israel na sua vizinhança não costumam gerar mais do que “ai-ai-ais” retóricos, a devolução de Santa Sofia ao status pré-1934 deverá transcorrer sem maiores percalços para Erdogan. Neste contexto, Santa Sofia e Jerusalém são duas faces de uma mesma moeda de intolerância e covardia, que mantém um “choque de civilizações” como o proposto pelo finado professor Samuel Huntington, como cenário para o mundo pós-Guerra Fria.

    Netanyahu: O dirigente israelense pratica o “choque de civilizações” em Jerusalén.

    Um conflito dessa natureza só se manifesta pela carência de uma autoridade mundial legítima, capaz de influenciar a construção de um marco global cooperativo, que supere a “Nova Ordem Mundial” pós-1990 e sua agenda neocolonialista. Na realidade, o confronto das políticas de Erdogan e Netanyahu poderia ser facilitado por um esforço de cooperação da Europa Ocidental com a Rússia, em benefício de uma autêntica agenda de segurança e desenvolvimento regional. Hoje, isto parece um sonho distante.

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