Professor da ESG vê como graves recomendações de ONGs e acadêmicos dos EUA sobre o Brasil

Progresso americano, alegoria do Destino Manifesto, pintura de John Gast (1842-1896).

Nosso entrevistado é Ronaldo Carmona, professor de geopolítica da Escola Superior de Guerra (ESG), que comenta o “policy paper” divulgado nesta semana pela “U.S. Network for Democracy in Brazil” (Rede nos Estados Unidos pela democracia no Brasil), intitulado “Recommendation on Brazil to President Biden and the New Administration” (Recomendações sobre o Brasil para o presidente Biden e o novo governo dos EUA). Carmona vê com gravidade os termos do relatório e ressalta não falar em nome da instituição à qual é vinculado.

A Rede nos Estados Unidos pela Democracia no Brasil (USNDB), na sigla em inglês. Foi criada em 2018 em uma conferência na prestigiada Faculdade de Direito da Universidade Colúmbia. E reúne centenas de acadêmicos e ONGs de 234 faculdades e universidades de 45 estados norte-americanos.

o professor Ronaldo Carmona, da Escola Superior de Guerra, aponta o documento “Recomendações sobre o Brasil para o presidente Biden e o novo governo dos EUA” como grave interferência nos assuntos internos do Brasil.

Portal Bonifácio: Esta semana veio a público um relatório de uma rede de ONGs e acadêmicos baseados nos Estados Unidos com recomendações ao novo presidente Joe Biden sobre as relações com o Brasil. Como o senhor viu este relatório?

Professor Carmona: É muito grave o que se lê neste relatório, que não deve ser subestimado. Afinal, suas teses principais têm aderência ao que pensa um setor importante do Partido Democrata americano, que agora retorna ao poder com Biden.

Com Biden retorna ao centro da política externa norte-americana um ativismo em torno de uma agenda que eles chamam de promoção da democracia e dos direitos humanos no mundo – obviamente um ativismo seletivo, como se vê historicamente.

Hoje, o foco desse ativismo é a luta contra o que eles chamam de regimes autocráticos, em especial a China e a Rússia. Engana-se quem acha que há diferença substancial de conteúdo entre Trump e Biden nesse consenso estratégico americano.

O relatório, que inicia já em seu primeiro capítulo falando em desprezo (disregard) pela democracia no Brasil, sugere que nosso País seja incluído nessa lista de “autocráticos”.

Assim, não descartaria que, no limite, repita-se um cenário parecido com o que já vimos no governo Jimmy Carter, ao qual o presidente Ernesto Geisel respondeu com firmeza e altivez.

Brasil e Estados Unidos são tradicionalmente países amigos, mas em geral as administrações democratas têm tido uma agenda de confronto com os interesses brasileiros. Aliás, a última tensão de grande porte nas relações biltaerais se deu quando viera a público o monitoramento das comunicações telefônicas da presidência da República, no escândalo da NSA, no período de Dilma Rousseff. Aliás, essa constatação é importante, uma vez que não importa se estão à frente do governo brasileiro forças de esquerda ou de direita.

Além disso, é absolutamente lamentável que o relatório seja assinado por acadêmicos brasileiros baseados nos EUA, que agem como verdadeiros quinta-colunas contra seu próprio País. Naturalmente que é direito deles se oporem ao governo Bolsonaro, mas daí a proporem ações da maior potência mundial contra o Brasil é absolutamente inaceitável. Aliás, recentemente uma parte da esquerda brasileira já tinha apoiado a denúncia do presidente Jair Bolsonaro ao Tribunal de Haia, uma instância de ingerência imperialista utilizada de forma seletiva pelos países europeus contra governos soberanos. Os problemas brasileiros, seus dilemas e diferenças devem ser resolvidos pelos próprios brasileiros, não por qualquer agente externo.  

O documento da Rede pela Democracia legitima as ações imperialistas dos Estados Unidos no Brasil.

Portal Bonifácio: O segundo capítulo do relatório aborda a questão do desmatamento e sua vinculação às chamadas mudanças climáticas. Como o senhor vê a questão?

Professor Carmona: É bastante grave o fato de a administração Biden agora se somar aos europeus na pressão contra o Brasil tendo como pretexto a questão amazônica. Por que pretexto? Porque essencialmente utiliza-se o tema das queimadas para organizar boicote às exportações agrícolas brasileiras, numa clara ação de natureza protecionista.

Desde 2019 o Brasil é um dos epicentros das tensões geopolíticas globais com a interferência europeia em relação à Amazônia. Com Biden, essa tensão deve escalar recrudescendo, com ameaças à soberania e à integridade territorial brasileira na sua parte mais sensível, a Amazônia.

Cabe destacar, aliás, a forma correta com que o vice-presidente General Mourão vem liderando o Conselho da Amazônia, buscando efetivamente recompor os meios para conter as queimadas ilegais, ao mesmo tempo em que busca enfrentar questões estruturais na temática amazônica, a começar do fomento à bioeconomia e à biotecnologia.

A Amazônia é a questão mais sensível da geopolítica brasileira, ontem, hoje e amanhã. Por isso os brasileros devem se unir em torno de sua defesa, não permitindo a intromisisão imperialista venha de onde vier.

Portal Bonifácio: No quarto capítulo, o relatório propõe que Biden reveja o Acordo de Salvaguardas Tecnológicas (AST), que viabiliza a exploração comercial da Base de Alcântara, no Maranhão. Há riscos nesse sentido?

Professor Carmona: Sem dúvida. Aqui, mais uma vez acha-se o “pretexto perfeito”, a chamada questão quilombola, para uma ação cujo sentido de fundo é bloquear o desenvolvimento do Programa Espacial Brasileiro. Não é de hoje, afinal, que grandes potências agem no sentido de sabotar nosso Programa Espacial, que, como sabemos, é dual, por definição.

A aprovação do AST em 2019 foi de grande importância uma vez que oferece proteção à propriedade intelectual de tecnologias embarcadas em satélites e lançadores que se utilizarão das vantagens geográficas sem igual que Alcântara oferece. Ou seja, o AST viabilizou a exploração comercial de Alcântara, permitindo abrir uma grande janela para o desenvolvimento do Arco Norte do território nacional.

Especificamente quanto à população da Zona Rural de Alcântara, uma das regiões com menor IDH do País, o que se pretende é justamente articular um conjunto de ações, para tirá-los do século 19, provendo educação de maior qualidade, atendimento médico universal, rede de saneamento e água potável, além de qualificação profissional para que os alcantarenses capturem as oportunidades surgidas com o desenvolvimento do CLA. Isso sim é efetivar os direitos humanos dos quilombolas, objeto precípuo do Plano de Desenvolvimento Integral (PDI) de Alcântara, atualmente em elaboração por uma comissão interministerial com a participação de atores diversos do Maranhão. 

Por isso é preciso ter em conta que se trata de “guerra de informações”, na qual o “pretexto quilombola” entra como uma luva para objetivos geopolíticos inconfessos. O Programa Espacial, que como disse por definição é dual, é instrumento de Poder Nacional, a começar do científico e tecnológico. Isso que se objetiva, antes que nada, bloquear.

Cabe ressaltar que o governo Biden tem inclusive no seu Ministério uma deputada democrata que fez campanha contra a aprovação do AST. A deputada em questão, inclusive, é eleita por Estado que abriga um decadente centro de lançamentos, o Roswell Space Center, que concorre diretamente com Alcântara.

Novamente, assim como na questão amazônica, no tema Alcântara o que se vê na superfície é bem diferente do que efetivamente é na sua essência.  Por isso a urgência dos brasileiros, novamente, descontruir estes mitos, que repetidos à exaustão, tornam-se “verdade”.

Portal Bonifácio: Quais os desafios que se apresentam para o Brasil diante do novo cenário geopolítico surgido com a presidencia de Biden?

Professor Carmona: Mais do nunca os brasileiros devem ter consciência de que a construção de seu projeto nacional deve se apoiar nas suas prórprias forças.

O Brasil tem como destino tornar-se uma potência entre as nações. Para isso, está posto o desafio de fortalcer as diversas dimensões do seu Poder Nacional nas esferas política, econômica, científico-tecnológica, psicossocial e militar. Nesse desafio não cabe ingenuidade: as grandes potências, de forma direta ou indireta, buscarão bloquear ou mesmo sabotar esse projeto de potência. Por isso nós brasileiros devemos ter consciência de que precisaremos nos apoiar nas nossas próprias forças.  

11 COMENTÁRIOS

  1. É muito triste ver o facismo tomar conta de tantos(as) brasileiros(as). O saldo trágico da segunda guerra e da ditadura militar de 64 no Brasil deviam ter anos ensinado.

    • Quem você considera facista? A direita que prega liberdade, economia de mercado, liberdade expressão, democracia, privatizações, família, religião e direito a propriedade, premiando a meritocracia ou a esquerda caviar, incompetente, corrupta e burra, na qual querem nos tornar escravos do Estado. Nunca houve ditadura militar, mas sim governo militar. Não confunda alhos com bugalhos.

  2. Muito objetiva e realista a abordagem do ilustre professor Carmona; certamente há muito o Brasil vem recebendo pressões, as mais diversas, das grandes economias mundiais, criando óbices ao seu desenvolvimento sustentável e tirando proveito do baixo nível de educação da grande maioria dos brasileiros, incapazes de reagir no real interesse do país.

  3. É interessante que o Professor da ERG, ao invés de argumentar contra o conteúdo do documento, se esconde atrás da xenofobia, e do ame ou deixe-o tão comum aos tempos que ele provavelmente admira quando opiniões contrárias eram tratadas dessa forma. Claro, acompahadas de prisão, tortuta e morte. O que me surpreende é o professor defender a Amazonia, os quilombolas, e, pasmem, denunciar os Estados Unidos como potência imperialista! Imperialismo este que começa, aparentemente, de acordo com o Professor, com a administração Biden! Até recentemente, nosso Presidente, acompanhado pelo seu filho de boné MAGA, eram afilhados do Trump! Batiam continência para a bandeira americana, denunciavam imigrantes brasileiros como pessoas não honrradas, tomavam medidas unilaterias para alegrar o patrão, e punham generais brasileiros sob o comando americano. Qyanto a defesa das populações quilombolas pelo governo brasileiro, me poupe professor.

    • Esse seu comentário resume a postura trágica da esquerda hegemônica brasileira, que por ignorância ou quinta-colunismo, sistematicamente acaba apoiando o imperialismo sob o Partido Democrata.

      Como você não consegue apresentar absolutamente nenhum argumento para contrapor as verdades ditas pelo Professor Ronaldo Carmona, o ataca, tentando, com base em absolutamente nada, pintá-lo como um saudoso do regime ditatorial de extrema-direita (1964-1985).
      Quanta ignorância… Imagino seu “choque” ao saber que o Professor é membro do Comitê Central do PCdoB.

      No final do comentário você lembra que Bolsonaro demonstrava total submissão à Trump. Oras, o que isso tem a ver com a análise do professor, que trata da realidade atual, dos EUA sob Biden?
      Você parece utilizar uma lógica completamente irracional e infantil (típica de ingênuos ou de quintas-colunas, manipuladores, à serviço do imperialismo), de que, como Trump tinha ligação pessoal com Bolsonaro, Biden seria nosso aliado.
      Oras, o imperialismo continua sob Biden, e muito provavelmente, muito mais perigoso e eficiente . Aliás, certa “esquerda” parece se esquecer que o golpe que derrubou Dilma se deu, por óbvio, numa aliança entre “nossa” burguesia, historicamente associada a interesses externos, e o imperialismo, sob Obama e Biden!
      Ainda disse que “aparentemente” segundo o professor, o imperialismo começaria sob Biden. Oras: Com base em que você tirou essa conclusão? Mais uma vez, com base em nada!
      O professor foi coerente com a postura de alguém que tem conhecimento sobre relações internacionais e quer que o Brasil se desenvolva. E que sabe que para tal, a condição essencial é ter soberania.
      Não tem postura de alguém que defende os interesses do Brasil, pelo contrário, demonstra ser um defensor do imperialismo . Se coloca como opositor de Trump e Bolsonaro, e só, como se o problema estrutural não existisse, e a questão fosse apenas derrubar a extrema-direita.

  4. O fundamental É enterrar Nosso Canibalismo Político, Nosso Instinto de Província Maquiavélica: O Brasil, Ainda Que Apanhando de Chicote, Será Uma Grande Nação.

  5. O Brasil é um desastre em termos de política externa. Pior que o governo só nossos jovens estudantes em Universidades americanos que se sentem importantes boicotando o próprio país…

  6. Quando se trata de política interna somos críticos e até SATÍRICOS. Entretanto, creio que o imperialismo não prospera mais no BRASIL. O povo brasileiro edificamos, pausadamente, uma consciência Nacional pautada na SOBERANIA NACIONAL, nas LIBERDADES DEMOCRÁTICAS e fundamentalmente na CIÊNCIA E TECNOLOGIA. Urge incrementar a importância da PAZ, e para isso, necessário se faz um extraordinário aparato para a GUERRA. As FORÇAS ARMADAS DO BRASIL é competente e eficiente na DEFESA DA SOBERANIA NACIONAL, não devendo ser NUNCA desviados para ocupar simples incêndios em campos e florestas ou na ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA.

  7. Talvez o Presidente Bolsonaro aprenda, até o final do seu primeiro mandato, a não dar munição aos inimigos falando bobagens. Por outro lado, os antibolsonaristas fanáticos não se importam de torcer desbragadamente por um politico americano que diz, sem constrangimento, que pretende “enquadrar” o Brasil.

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