Os quatro cavaleiros do Apocalipse e a atualidade de João, o evangelista

    Cavaleiros do Apocalipse - Edward Jakob Von Steinle (Viena, Áustria, 1810 - Frankfurt, Alemanha, 1886).

    Não é de hoje que a humanidade vive assombrada pela ameaça do tão temido “final dos tempos’ – a ideia da destruição do mundo e o fim da existência de homens e mulheres, por meio de catástrofes das mais inimagináveis possíveis. Também não é de hoje que tais ameaças, apesar de todo o progresso ocorrido nos últimos dois milênios, continuam sendo mais ou menos as mesmas. O livro do Apocalipse, escrito pelo evangelista João, o último dos apóstolos vivos à sua época, em seu exílio na Ilha de Patmos, na Grécia, por volta do ano 95 (d.C.) no século I da era Cristã, no fim do reinado de Domiciano, Imperador romano (81-96 d.C.), descreve os últimos acontecimentos que precederiam o Juízo Final, representados figurativamente, em seus sonhos, pelos quatro cavaleiros do Apocalipse: peste, guerra, fome e morte.

    O fato de dois mil anos depois, a humanidade continuar assombrada pelos mesmos fantasmas que povoaram os sonhos do evangelista é um lembrete do quão pouco avançamos, apesar de todo o progresso técnico dos últimos dois mil anos, na superação dos mesmos desafios que põem em risco a existência humana há milênios. Apesar de nos considerarmos infinitamente mais avançados que nossos antepassados, sob muitos aspectos estamos muito mais próximos do homem das cavernas do que do homem do futuro, se é que permitiremos que esse homem venha realmente a existir. Olhando acontecimentos recentes, como a pandemia da Covi-19, o aumento da desigualdade social, a destruição acelerada do meio-ambiente e a possibilidade de entrarmos novamente em uma nova era de conflito nuclear, não podemos deixar de considerar como nossas ações de hoje podem comprometer o próprio futuro da humanidade.

    Em artigo publicado na revista Foreign Affairs, na edição de Setembro/Outubro, intitulado “The Beginning of History. Surviving the Era of Catastrophic Risk”, Willian Macaskill, professor associado de filosofia da Oxford University e autor do livro What We Owe the Future, ainda no prelo, chama atenção para alguns pontos a respeito dessa questão, que gostaríamos de compartilhar com nossos leitores.

    Macaskill começa o artigo lembrando que “embora o futuro de nossa espécie ainda seja longo, pode ser fugaz. Dos muitos desenvolvimentos que ocorreram desde esta primeira edição da revista [Foreign Affairs] há um século, a mais profunda é a capacidade de acabar consigo mesma. Das mudanças climáticas à guerra nuclear, pandemias projetadas, inteligência artificial (IA) descontrolada e outras tecnologias destrutivas ainda não previstas, um número preocupante de riscos conspira para ameaçar o fim da humanidade (…) Avanços em armamento, biologia e computação podem significar o fim da espécie, seja por mau uso deliberado ou um acidente em grande escala. As sociedades enfrentam riscos cuja escala pode paralisar qualquer ação concertada”.

    Para esconjurar esses riscos o autor lança mão da ideia de “desenvolvimento tecnológico diferencial”. Ou seja, o desenvolvimento tecnológico deveria ser gerenciado pelo Estado de forma a orientar as inovações tecnológicas para propósitos benéficos para a humanidade e não voltados para sua própria destruição. Para ele, “longe de ser um local de descanso seguro, o status quo tecnológico e institucional é uma situação precária da qual as sociedades precisam escapar. Para lançar as bases para essa fuga, os governos devem se tornar mais conscientes dos riscos que enfrentam e desenvolver um aparato institucional robusto para gerenciá-los”. Ou seja, é preciso a ação do Estado no sentido de “refrear o trabalho que produziria resultados potencialmente perigosos, como a pesquisa biológica que pode ser utilizada para fins bélicos, enquanto financia e acelera as tecnologias que ajudariam a reduzir o risco, como o monitoramento de águas residuais para detecção de patógenos”.

    Para Macaskill, “ao contrário do que Fukuyama previu, o horizonte político não se reduziu a uma fresta. Enormes transformações econômicas, sociais e políticas continuam sendo possíveis — e necessárias. Se agirmos com sabedoria, o próximo século será definido pelo reconhecimento do que devemos ao futuro, e os netos de nossos netos olharão para nós com gratidão e orgulho. Se errarmos, eles podem nunca ver a luz do dia”.

    Para enfatizar a responsabilidade que pesa sobre nossos ombros em relação ao futuro, Macaskill lembra que “O registro fóssil indica que a média das espécies de mamíferos dura um milhão de anos. Por essa medida, temos cerca de 700.000 anos pela frente. Durante esse período, mesmo que a humanidade permanecesse presa à terra com apenas um décimo da população mundial atual, impressionantes dez trilhões de pessoas nasceriam no futuro. Além disso, nossa espécie não é um mamífero comum, os humanos podem muito bem sobreviver a seus parentes. Se sobrevivêssemos até que o sol em expansão queimasse a Terra, a humanidade persistiria por centenas de milhões de anos. Mais tempo nos separaria de nossos últimos descendentes do que dos primeiros dinossauros. E se um dia colonizarmos o espaço – totalmente concebível na escala de milhares de anos – a vida inteligente originária da Terra poderia continuar até que as últimas estrelas se extinguissem em dezenas de trilhões de anos. Longe de ser um exercício ocioso de fazer malabarismos com números insondáveis, apreciar a escala potencial do futuro da humanidade é vital para entender o que está em jogo. As ações de hoje podem afetar se e como trilhões de nossos descendentes podem viver – se eles enfrentarão pobreza ou abundância, guerra ou paz, escravidão ou liberdade – colocando responsabilidade extrema nos ombros do presente”.

    Luís Antonio Paulino é professor associado da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e membro da equipe de colaboradores do portal “Bonifácio”.

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