Militares e liberais não são metais que se fundem

    A República nasceu da aliança entre militares e liberais, logo rompida em torno do projeto de industrialização de Ruy Barbosa.

    “Ideias não são metais que se fundem” é a bela metáfora atribuída ao líder liberal gaúcho Gaspar Silveira Martins para explicar a inviabilidade de um acordo com os positivistas de Júlio de Castilhos em pleno curso da Revolta Federalista que abalou a República e foi debelada a ferro e fogo pelo punho pesado do Marechal Floriano Peixoto.

    A frase guarda plena atualidade e decifra a dura competição que se trava nos bastidores do governo entre a ala liberal e fiscalista do ministro Paulo Guedes e a corrente desenvolvimentista inspirada no ministro-chefe da Casa Civil, general da reserva Braga Netto, e no ministro do Desenvolvimento Regional Rogério Marinho.

    O líder liberal Silveira Martins sabia das fronteiras intransponíveis a separar os liberais dos positivistas.

    A refrega já rendeu, além de argumentos, desaforos brandidos de parte a parte. Os fiscalistas de Paulo Guedes atribuem aos desenvolvimentistas o risco de destruição de todo o esforço do governo para sanear o déficit, e com ele as contas públicas. Os desenvolvimentistas repetem a quem quiser ouvir que as ideias do grupo de Paulo Guedes foram aposentadas solenemente em todo o mundo e sobrevivem no Brasil graças à ignorância e à teimosia do ministro da Economia.

    Os analistas atentos aos bastidores de Brasília atribuem aos militares uma resistência silenciosa aos dogmas econômicos de Guedes. É compreensível e razoável. Forças Armadas são instituições nacionais e instituições de Estado, e só nesta condição tem sentido existir. Sua manutenção exige meios materiais com a respectiva participação no orçamento do País. Para o mercado e para economistas liberais Forças Armadas não passam de rubricas dispendiosas drenando recursos preciosos para o equilíbrio fiscal da Nação.

    As rupturas e transições que permitiram a evolução política do Brasil foram amalgamadas por alianças heterogêneas, entre elas as que uniram militares e liberais, mas foram alianças passageiras, separadas logo em seguida pelas profundas diferenças de concepções entre os dois universos. A contabilidade e as planilhas de custos dos economistas liberais jamais perceberam como naturais e necessárias as contas apresentadas pelos militares para suas preocupações com o interesse nacional e para suas razões de Estado.

    Getúlio Vargas reuniu liberais e militares na Aliança Liberal para fazer a Revolução de 1930.

    A grande verdade é que não há nenhuma novidade na manifestação dessas diferenças. Militares e liberais fizeram a República, mas os primeiros apoiaram o plano de industrialização de Ruy Barbosa, fortemente sabotado pelos segundos, o que resultou no seu fracasso. No início da República a engenharia militar discutia e planejava rasgar o Brasil de ferrovias da Amazônia ao Prata como se pode ler nos belos e patrióticos ensaios de Euclides da Cunha, enquanto no mesmo período os governos liberais da República Velha vendiam os barcos da Marinha de Guerra para fazer caixa e abater dívidas. Não eram navios quaisquer. Em seu livro Os Sete Pilares da Sabedoria, o escritor inglês Thomas Edward Lawrence anota, com um toque de surpresa, que a nau capitânia da Marinha Britânica no Golfo de Acaba, na primeira Guerra Mundial, era um navio de origem brasileira, provavelmente uma das unidades privatizadas no governo Campos Sales.

    Para o economista liberal Forças Armadas constituem uma rubrica cara e prejudicial ao equilíbrio fiscal do País.

    A Aliança Liberal conduziu a Revolução de 1930, reunindo Getúlio Vargas, os militares de Góes Monteiro e os liberais de Virgílio e Afrânio de Melo Franco, Júlio de Mesquita Filho e José Américo de Almeida. Mas em 1932 os liberais de São Paulo se levantaram em armas contra Vargas. Vitorioso, Vargas promoveu a industrialização, a legislação social e a modernização do Estado, com apoio militar, até ser deposto em 1945 por uma aliança entre militares e liberais, para provar que o Brasil não é matéria a ser decifrada por amadores.

    Em 1964, eis que novamente militares e liberais, apoiados pela mídia, por empresários e pela embaixada Americana, depõem o governo de João Goulart, mas a aliança é rompida logo em seguida e os militares cassam o mandato da mais fulgurante estrela da constelação liberal, o brilhante ex-governador da Guanabara Carlos Lacerda.

    O abismo entre liberais e militares se agrava com as ações do presidente Ernesto Geisel, notadamente o II PND, o Programa Nuclear e o Programa Espacial, coroadas com o rompimento do Acordo Militar entre o Brasil e os Estados Unidos.

    Thomas Edward Lawrence, o militar e escritor britânico que se mostrou surpreso pela nau capitânia de origem brasileira na Marinha Britânica.

    O nacionalismo de Geisel somou-se à violação dos direitos humanos para oferecer a plataforma perfeita que reuniu liberais progressistas e conservadores com apoio dos Estados Unidos para montar o cerco contra o regime militar. O resto da história é conhecido.

    Quando os liberais conservadores derrotaram a candidatura do PT em 2018, com o discreto apoio das lideranças militares, estava escrito que o pacto seria destinado ao abandono como o juramento renegado do Padre Amaro no célebre romance de Eça de Queirós.

    9 COMENTÁRIOS

    1. Como diria o escritor Pedro nava: o” Brasil “cada vez mais governados pelos mortos”. É preciso que o nosso sangue se inflame para pacificar sem violência: só não podemos lavar as mãos nas águas sujas da covardia.

    2. É isso meu amigo Aldo: o Brasil vai ficando cada vez mais mergulhado no canibalismo politico. Estadistas, patriotas, realistas: o mundo jogou tudo isso na lata do lixo. No Brasil, podemos recomeçar com você : lembre_ se do padre Antônio vieira:” a ousadia é a metade do caminho, quem teme o inimigo jà vai vencido.

    3. Parabéns pela reflexão Aldo.
      É dentro dessas contradições do atual governo que se abre uma cunha possível de derrotalos. Nós os verdadeiros PATRIÓTAS e DEMOCRATAS precisamos perceber isso e agir p abreviar a atual situação de DesGoverno que afligem os nossos irmãos compatriótas em meio à terrível Pandemia e crise econômica somada ao desmonte do Estado Nacional.

    4. A dignidade social exige sentimento de patriotismo”: o único mérito do estado moderno é o monopólio da violência.” Entre governistas e estadistas existe uma diferença do tamanho do mundo. Com patriotismo poderíamos diminuir essa distância ” de província e ambição pessoal.”

    5. Os verdadeiros juízes da democracia estão nos sentimentos de dignidade social: no Brasil , ainda existe muito sentimento de escravocratas.

    6. Ainda estamos dominados pelo sentimento de ” Republiqueta de bananas”. Os patriotas, apenas eles, são iluminados pelas lições da História. Você fez magnífica reflexão.

    7. Conhecimento histórico fundamental , e de fato entender o Brasil é difícil , mas precisamos fazer uma pergunta uníssono , quando chegará o desenvilvimento ? Quando o Brasil de tornará uma Nação soberana incerida no mundo moderno e desenvolvido ? Quando seu povo terá renda digna escolas saúde trabalho e estabilidade ?

    Deixe um comentário

    Os comentários serão avaliados pela redação. Solicitamos que o debate de ideias seja mantido em nível elevado, à altura da busca de soluções para os problemas nacionais. Não se admitem xingamentos pessoais nem acusações que configurem os crimes de calúnia, injúria e difamação.

    Escreva seu comentário!
    Digite seu nome aqui