Investimentos “sustentáveis” para salvar o sistema financeiro – não o meio ambiente

    O pintor holandês Hieronymus Bosch (1450-1516) retratou as Tentações de Santo Antão em um mundo ameaçado pelos demônios.

    Alerta Científico e Ambiental – Volume 27 – número 01-02 – 13-26 de janeiro de 2020.

    Os investimentos “sustentáveis” estão na ordem do dia. É o que sugerem o executivo-chefe do maior fundo gestor de ativos do mundo, o demissionário governador do Banco da Inglaterra, um relatório do banco central dos bancos centrais e a pauta do ultra seleto Fórum de Davos. Ambientalistas de todo o mundo aplaudem e apoiam a tendência, como se, finalmente, os grandes capitalistas do planeta tivessem começado a se conscientizar sobre a sua pregação de décadas sobre a necessidade de proteção do meio ambiente global contra os excessos das atividades humanas. A realidade, porém, é outra.

    Na verdade, o presente impulso para a colocação da “sustentabilidade” no centro dos processos decisórios sobre os investimentos internacionais apenas utiliza os temas ambientais como pretexto, em especial, a questão climática. O objetivo é transferir para investimentos com o selo de “sustentáveis” dezenas a centenas de trilhões de dólares em ativos financeiros especulativos, ameaçados pela crescente bolha especulativa inflada desde a crise de 2008, de acordo com um sistema de credenciamento semelhante ao praticado pelas agências de classificação de risco, além de garantidos pelos bancos centrais – como ocorreu com as megainstituições ameaçadas de quebra em 2008.

    A gigante da gestão de ativos financeiros lidera a coalizão de magnatas que busca se proteger no porto seguro do mercado de carbono.

    Em paralelo, a consolidação de tal sistema implicará em um insidioso condicionante para as economias emergentes, como a brasileira, que ficarão totalmente à mercê das percepções e pressões externas ligadas aos temas ambientais, quesito no qual o Brasil não tem tido um histórico favorável.

    A palavra de ordem foi transmitida pelo presidente e executivo-chefe do BlackRock, Larry Fink, em sua carta anual aos executivos do megagestor de ativos, o maior do mundo, que controla valores da ordem de 7 trilhões de dólares (quatro vezes o PIB do Brasil):

    As mudanças climáticas se tornaram um fator de definição nas perspectivas de longo prazo das companhias. Em setembro último, quando milhões de pessoas foram às ruas para exigir ação em relação às mudanças climáticas, muitas delas enfatizaram o impacto significativo e duradouro que elas terão no crescimento econômico e na prosperidade – um risco que, até agora, os mercados têm sido lentos em refletir. Mas a percepção está mudando rapidamente, e eu acredito que estamos à beira de uma reformatação fundamental das finanças. (…)

    Essas questões estão promovendo uma profunda reavaliação dos riscos e dos valores dos ativos. E, como os mercados de capitais fazem avançar os riscos futuros, nós veremos mudanças na alocação de capitais, mais rapidamente do que veremos mudanças no próprio clima. No futuro próximo – e antes que pensa a maioria –, haverá uma significativa realocação de capitais (grifos nossos). (…)

    Fink deixa claro que os que não aderirem aos novos tempos serão devidamente penalizados pelos “mercados”:

    Nós acreditamos que, quando uma companhia não esteja enfrentando de forma efetiva um assunto material, os seus diretores devem ser responsabilizados. No ano passado, a BlackRock votou contra ou retirou os votos de 4.800 diretores em 2.700 companhias diferentes. Onde sentirmos que as companhias e os conselhos [de administração] não estiverem produzindo medidas de sustentabilidade efetivas ou implementando planos para gerenciar tais assuntos, nós responsabilizaremos os membros dos conselhos. Dado o arcabouço que já estabelecemos sobre esses compromissos, e os crescentes riscos de investimentos envolvendo a sustentabilidade, nós estaremos cada vez mais dispostos a votar contra administrações e diretores de conselhos, quando as companhias não estiverem fazendo progressos suficientes nas questões relacionadas à sustentabilidade e nas práticas e planos empresariais relacionadas a elas (grifos nossos) (BlackRock, 14/01/2020).

    O ex-vice-presidente Al Gore em seu livro Terra em Balanço via na agenda ambiental o grande ativo político para legitimar a interferência em qualquer lugar do mundo. Depois percebeu que o mercado de carbono era também um ativo financeiro.

    A “sustentabilidade” também foi um dos temas centrais da 50ª edição do célebre convescote anual do Fórum Econômico Mundial (WEF, sigla em inglês), em Davos-Klosters, Suíça (21-24 de janeiro), que teve entre os participantes um grande número de propagandistas do ambientalismo internacional, entre eles o ex-vice-presidente estadunidense Al Gore e a agora onipresente Greta Thunberg, em sua segunda participação, recebida com status de superestrela. Mas, deixando de lado as tiradas irritadiças da adolescente sueca, bem mais relevantes foram as colocações do governador do Banco da Inglaterra, Mark Carney, reforçando as premissas anteriormente expostas por Larry Fink.

    Falando em um painel intitulado “Solucionando a equação do crescimento verde”, que também contou com a presença da diretora-executiva do Greenpeace International, Jennifer Morgan, Carney pontificou:

    Com os grandes investidores, esta está se tornando a questão: qual é o seu plano para atingir zero líquido [em emissões de carbono]? Isto irá determinar para onde o capital está fluindo, obviamente, influenciado pela opinião pública, as pressões e as políticas de governo. Mas esse movimento da periferia para, absolutamente, o centro, é o que irá promover a transição e, devo acrescentar, os empregos (Yahoo Finance, 21/01/2020).

    Ao contrário das “emissões zero” propostas pelos ambientalistas mais radicais, na linha Greta, a meta “zero líquido” (net zero) é um subterfúgio para salvaguardar as economias industrializadas, na maioria, bastante dependentes da eletricidade gerada em usinas termelétricas a carvão e gás natural e sem perspectivas de mudanças drásticas na sua matriz energética, nem em médio prazo. Em sua carta, Fink admitiu que, “a despeito de rápidos avanços recentes, ainda não existe a tecnologia para substituir com custo/benefício muitos dos atuais usos dos hidrocarbonetos”.

    Na prática, “zero líquido” significa que aquelas economias poderão continuar fazendo uso da energia gerada pelos hidrocarbonetos, enquanto transferem para países mais atrasados a responsabilidade de “neutralizar” as emissões, de acordo com critérios estabelecidos internacionalmente. Para auxiliar a empreitada, o WEF sancionou uma iniciativa para o plantio de 1 trilhão de árvores ao longo da próxima década, a qual tem tudo para tornar-se uma nova favorita do combo ambientalista-financista internacional.

     Por isso, Carney afirmou que o Banco da Inglaterra está liderando o setor na introdução de “testes de esforço para uma transição para o zero líquido”. No jargão financeiro, testes de esforço (stress tests) são testes estabelecidos para avaliar a capacidade de um banco de resistir a uma crise financeira.

    Greenpeace, a multinacional do ambientalismo, marcou presença em Davos oferecendo seus serviços ao promissor mercado de carbono.

    “O maior e mais complexo sistema financeiro do mundo, isto é o que estamos fazendo. No centro do sistema, agora, essas perguntas estão sendo feitas. Se você está no lado certo ou no errado, e se estiver no errado, o que vai fazer a respeito?” – lançou à plateia.

    “Eu acho que estamos vendo uma reformatação fundamental do sistema financeiro”, ressaltou, repetindo as palavras de Fink.

    Em março, Carney deixa o seu prestigioso cargo em Londres para assumir o posto de Enviado Especial das Nações Unidas para Ação Climática e Finanças, onde seguirá trabalhando para implementar em âmbito internacional o esquema das “finanças sustentáveis”, com o endosso da organização mundial.

    Outra contribuição de destaque para a agenda foi a publicação, às vésperas do Fórum de Davos, do relatório do Banco de Compensações Internacionais (BIS), “O cisne verde: os bancos centrais e a estabilidade financeira na era das mudanças climáticas”. A expressão “cisne verde” é uma paródia da mais conhecida “cisne negro” (black swan), referente a um acontecimento considerado inesperado e capaz de abalar o sistema financeiro.

    O documento de 113 páginas (disponível no sítio do BIS) discute riscos ao sistema financeiro provenientes das mudanças climáticas e maneiras de enfrentá-los, no âmbito das atividades dos bancos centrais. Sem surpresa, a primeira opção discutida é um imposto sobre as emissões de carbono, mas os próprios autores admitem a dificuldade de uma tal medida. Por conseguinte, eles propõem que, no caso de alguma emergência “climática” que coloque o sistema financeiro em risco, os bancos centrais atuem como “resgatistas climáticos de última instância” e promovam uma “facilitação quantitativa verde”, para salvá-lo. Para entendermos a proposta, vejamos os parágrafos cruciais do relatório:

    Limitar o aquecimento global a menos de 1,5oC ou 2oC requer que se mantenha no subsolo uma grande proporção das reservas de combustíveis fósseis. A isto se conhece como ativos retidos (stranded assets). Por exemplo, um estudo descobriu que, para se ter pelo menos 50% de chances de manter o aquecimento global abaixo de 2oC, mais de 80% das atuais reservas de carvão, a metade das reservas de gás e um terço das reservas de petróleo deveriam permanecer sem uso, entre 2010 e 2050. Como o risco referente aos ativos retidos não se reflete no valor das companhias que extraem, distribuem em utilizam esses combustíveis fósseis, esses ativos devem ser prejudicados por súbitas e imprevistas amortizações, desvalorizações ou conversões para passivos. (…)

    No pior cenário, os bancos centrais poderão ter que confrontar uma situação onde sejam chamados pelos seus constituintes locais a intervir como resgatistas climáticos de última instância. Por exemplo, uma nova crise financeira causada por eventos do tipo cisne verde, que afete seriamente a saúde financeira dos setores bancário e de seguros, poderia forçar os bancos centrais a intervir e comprar uma grande quantidade de ativos intensivos em carbono e/ou ativos atingidos por impactos físicos. (…)

    A sueca Greta Thunberg, tornou-se peça importante da engrenagem ambientalista presente no Fórum de Davos.

    Dada a severidade desses riscos, as incertezas envolvidas e a percepção das intervenções dos bancos centrais, em seguida à Grande Crise Financeira de 2007-2008, as pressões sociopolíticas já estão se acumulando para fazer dos bancos centrais (talvez, novamente) o “único jogo na praça”, em lugar de outras, se não todas, intervenções governamentais, desta vez, para combater as mudanças climáticas. Por exemplo, tem sido sugerido que os bancos centrais poderiam engajar-se em “facilitação quantitativa verde”, para solucionar os complexos problemas socioeconômicos relacionados a uma transição para o baixo carbono. (…)

    Traduzindo para o vernáculo, o que os autores esboçam é uma proposta para assegurar que as grandes empresas que comercializam e/ou utilizam combustíveis fósseis não venham a ser prejudicadas, caso vingue o estabelecimento das pretendidas limitações às emissões de carbono, como pretendem os adeptos mais radicais da agenda da “descarbonização” da economia mundial. Em paralelo, sugerem que os bancos centrais voltem a promover maciças injeções de liquidez, no caso de uma nova megacrise financeira que, por qualquer pretexto, possa ser atribuída às mudanças climáticas.

    Com tais subterfúgios, os senhores da alta finança globalizada pretendem atingir dois objetivos.

    Primeiro, assegurar o salvamento do sistema em caso de uma nova grande crise – que muitos observadores consideram inevitável –, além de controlar o ambiente internacional para investimentos, sob o disfarce das causas ambientais, de grande apelo entre a opinião pública e a classe política em geral.

    O Brasil terá muito trabalho para proteger a Amazônia. A floresta tropical já não é apenas um valioso espaço geopolítico. É também agora o inestimável ativo financeiro no mercado de carbono.

     Segundo, ocultar o fato cada vez mais evidente de que o maior fator de “insustentabilidade”, tanto da economia mundial como da própria civilização, não é o clima, mas o sistema financeiro internacional em sua forma atual, dominada pela hegemonia financeira sobre as atividades produtivas que configuram a economia real.

    Em essência, o único verde com que se preocupam realmente é o dos dólares nos seus balancetes e nas suas vastas contas bancárias.

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