Insegurança alimentar cresce no mundo

    Resenha Estratégica – Vol. 18 | nº 35 | 08 de setembro de 2021.

    Mario Lettieri e Paolo Raimondi

    Em preparação para a cúpula das Nações Unidas em setembro, realizou-se no final de julho uma reunião preparatória da Organização das Nações Unidas para Alimentos e Agricultura (FAO) e o Programa Mundial de Alimentos (PMA) sobre o sistema alimentício mundial, também com a participação de representantes de 500 milhões de pequenos agricultores de todo o mundo. Existe o risco ou quase a certeza de que os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas para reduzir a pobreza, a fome e as desigualdades até 2030 sejam perdidos.

    Sem dúvida, a pandemia de Covid-19 complicou a situação econômica mundial e enfraqueceu os programas de desenvolvimento, mas, a este respeito, é também evidente a falta de vontade e ação dos principais atores econômicos e políticos globais.

    Ainda hoje, a pobreza, a desigualdade de renda e os altos custos dos alimentos significam que 3 bilhões de pessoas não têm acesso a uma alimentação saudável e justa.

    De acordo com um relatório da FAO, 811 milhões de pessoas, pouco mais de um décimo da população mundial, passaram fome no ano passado, 161 milhões a mais do que em 2019.

    Em 2020, a fome aumentou tanto em termos absolutos como proporcionais, superando o crescimento populacional. Estima-se que cerca de 9,9% dos habitantes do planeta sofriam de desnutrição, contra 8,4% em 2019. Mais da metade dos desnutridos (418 milhões) vivem na Ásia, mais de um terço (282 milhões) na África e uma porcentagem menor (60 milhões) na América Latina e no Caribe. Mas o aumento mais acentuado da fome ocorreu na África, com 21% da população, mais que o dobro de qualquer outra região do globo.

    A desigualdade de gênero também se agravou: para cada dez homens vítimas de insegurança alimentar em 2020, havia 11 mulheres na mesma situação, contra 10,6 em 2019.

    As crianças são as que pagam o preço mais alto. Em 2020, estima-se que mais de 149 milhões de crianças menores de cinco anos eram raquíticas ou muito baixas para a sua idade, e mais de 45 milhões, muito magras para a sua altura.

    A pandemia também causou um declínio geral na renda agrícola e impactou a renda familiar rural de forma mais negativa em todas as regiões em desenvolvimento. Recordese que 80% dos cidadãos mais pobres do mundo, ou seja, 600 milhões de pessoas – mais que toda a população europeia – vivem nas zonas rurais, trabalham no setor agrícola, mas sofrem de desnutrição.

    Sem a adoção de medidas urgentes, a FAO teme que, em 2030, não apenas a fome e a pobreza não sejam erradicadas, mas que ainda possa haver 600 milhões de pessoas em risco de fome.

    Igualmente, o relatório afirma que, nos próximos meses, pelo menos 23 áreas do mundo serão afetadas por uma elevada insegurança alimentar e pela fome, das quais 17 na África e as demais em zonas de guerra, como Afeganistão e Iêmen. São 41 milhões de pessoas que enfrentarão a fome, se não receberem alimentos e assistência imediatamente. De acordo com o “Relatório Global sobre Crises Alimentares” do PMA, 2020 viu 155 milhões de pessoas enfrentarem insegurança alimentar aguda em 55 países, um aumento de mais de 20 milhões em relação a 2019.

    Ironicamente, a grande maioria das pessoas mais expostas é de agricultores. Será fundamental que, ao lado da assistência alimentar, eles sejam ajudados a reiniciar a sua própria produção de alimentos, para que famílias e comunidades possam voltar à autossuficiência. Esta última pode ser perdida, em consequência do deslocamento da população, do abandono de terras agrícolas, da interrupção do comércio e das colheitas e da falta de acesso aos mercados.

    Segundo o Banco Mundial, as perdas de renda causadas pela crise de saúde e bloqueios aumentaram o número de pessoas que vivem na pobreza em 97 milhões.

    O relatório da FAO/PMA também constatou que os preços dos alimentos aumentaram continuamente entre junho de 2020 e maio de 2021. Devido à forte demanda durante a recuperação econômica, após a primeira onda da pandemia, houve um aumento nos preços dos alimentos, em especial, óleos vegetais, açúcar e grãos. Em junho de 2021, os preços dos alimentos, medidos pelo Índice de Preços de Alimentos da FAO, aumentaram mais de 30% em um ano.

    Os altos preços internacionais dos alimentos, juntamente com a alta dos custos de transporte, deverão elevar o custo das importações globais de alimentos, principalmente, nos países em desenvolvimento. A alta, uma vez transmitida aos mercados nacionais, limitará o acesso das famílias mais vulneráveis aos alimentos e terá um impacto negativo na segurança alimentar.

    David Beasley, diretor do PMA, foi muito claro: “Enquanto corremos para o espaço, mais 41 milhões de pessoas correm o risco de morrer de fome.”  Se os bilionários, que enriqueceram em mais de um trilhão de dólares em um ano de pandemia, contribuíssem com 40 bilhões por ano, em 2030, a fome poderá ser erradicada no mundo, argumentou ele, de forma enfática.

    Só podemos concordar.

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