Floriano, homem de Estado

A Seção Brasilidades do Portal Bonifácio publica o prefácio do Ministro da Educação Gustavo Capanema para a Coleção Floriano – Memórias e Documentos – publicada em 1939 por determinação do presidente Getúlio Vargas.

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Floriano, homem de Estado

Ministro Gustavo Capanema

Decidiu o presidente Getúlio Vargas que o Ministério da Educação publicasse o arquivo de Floriano Peixoto. Trata-se de um extenso repositório de documentos, que mãos carinhosas da família do grande morto reuniram e guardaram até agora. Longamente, foi tentada essa publicação. Mas os preciosos papeis foram ficando guardados, no perigo do estrago ou do desvio irreparáveis. A aproximação do primeiro centenário do nascimento do marechal oferecia-se como irrecusável ensejo para eu se realizasse o empreendimento. A tentativa já agora despertou o interesse decisivo, e o governo tomou a si a tarefa de editar a imensa obra, que se desdobrará por mais de uma dezena de volumes, e na qual os acontecimentos daquela gloriosa vida receberão uma direta e clara luz, que permitirá ver, com relevos mais nítidos e sugestivos e em muitos aspectos talvez ainda ignorados, a figura impressionante do Consolidador da República.

O Ministério da Educação, por esta forma, dá mais um passo na execução do seu programa de revelar às novas gerações, ou tornar delas mais conhecidos, os nossos heróis, os vultos máximos de nosso passado, aqueles que, na política, na administração ou na guerra, nas ciências, nas letras ou nas artes, na missão apostolar ou humanitária, encheram a nossa história de substância, de nervo, de calor, de elevação, de sentido, e que ficaram como luzes para clarear os caminhos e como vozes de comando para levantar os corações.

Floriano Peixoto é uma dessas luzes e uma dessas vozes. Este homem extraordinário, tão debatido e deformado outrora pelo ódio ou pelo fanatismo, depois reconhecido na sua inteira verdade, aparece aos nossos olhos com o seu perfil definido e tranquilo de soldado irreprochável e de grande homem de Estado.

A sua fé de ofício comove. Das páginas deste documento, vemos surgir o militar adolescente marcado pela vocação. Vemo-lo marchar com o passo rude e irrevogável, vemo-lo crescer e ir subindo, vemo-lo na guerra, firme e forte em frente das balas, cheio de domínio na desesperada correria por entre o sangue e a morte, vemo-lo nas lidas da paz, com o seu silêncio, a sua sobriedade, a sua disciplina, a sua dureza, o seu zelo, a sua pontualidade, vemo-lo, enfim, com os seus títulos, as suas condecorações e a sua luminosa glória. Este, o soldado.

Mas o destino o tornou homem de Estado.

E ele pôde sê-lo heroicamente, como os maiores, porque, na sua misteriosa alma, havia as qualidades régias que o governo dos homens exige.

Todo homem de Estado, que o seja de verdade, tem o coração possuído por um ideal. É para este ideal que está voltada a sua fé e a sua paixão.

O homem sem ideal, ou que apenas seja capaz de adotar este ou aquele ideal de empréstimo ou de circunstância, poderá vir a ser um político influente, não será jamais um autêntico homem de Estado.

O que dá a Floriano desde logo a marca de um homem de Estado de alta categoria é que ele entra na peleja pública empolgado por um grande ideal: a consolidação da República. Tal empresa, cuja tremenda dificuldade hoje mal podemos imaginar, se lhe apresenta como uma missão imperiosa.

Floriano aceita-a.

Para realizá-la, ele possui esta coisa essencial: a vontade. E, ainda aqui, o homem de Estado nele se define e afirma.

De fato, o homem de Estado não é apenas um portador de ideal. Ter um ideal, amá-lo, crer nele, pregá-lo, infundi-lo nos outros, poderá ser o próprio de um ideólogo ou de um professor; mas o que caracteriza o homem de Estado é a capacidade de transformar pela ação o ideal em realidade histórica.   E, por isto, a qualidade básica do homem de Estado tem que ser a força de vontade. Sem vontade possante e tenaz, ninguém consegue determinar, no destino de uma nação, as mudanças providenciais, isto é, ninguém consegue ser o verdadeiro homem de Estado. Donde a conclusão do professor Júlio Kornis, de Budapest: “Todo homem de Estado de grande estilo é antes do mais um gênio da vontade”.

Floriano Peixoto é essencialmente um homem de vontade. Esta vontade, galvanizada nos cinco anos do Paraguai, metodizada na longa vida militar, é posta à prova naquele trágico período posterior ao 15 de novembro, durante o qual foi a República minada e agredida pelo descontentamento, pela desilusão, pela anarquia e pela revolta.

Floriano foi então o grande homem de Estado. O ideal da República unida, organizada, forte e altiva, sobrevivendo ao caos e permanecendo no tempo infindável, este ideal esparso nas almas diversas, se condensa no seu coração. E é a sua presença mítica, a sua voz concisa e o seu gesto seguro, é a sua vontade dura e tenaz, de uma “tenacidade incoercível, tranquila e formidável”, como diz Euclides da Cunha, é a ação a princípio pausada e enigmática, mas depois veloz, imperativa e fulminante do Marechal de Ferro, que impõe a lei e a ordem, a autoridade e a paz, e assegura, por forma definitiva, a permanência da República.

Há, ainda, em Floriano Peixoto, um incisivo traço do homem de Estado: é a projeção de sua personalidade através das massas humanas. Floriano atua em meio do interesse geral. Desperta aqui e ali a aversão mais feroz. E acende, por todos os lados, o entusiasmo e a idolatria. A juventude deixa-se seduzir por seu fascínio, e o acompanha. E assim, entre ele e o povo, há uma contínua corrente de vida.

Nesta comunhão, Floriano não tem a alma alterada. Há no seu espirito uma crua lucidez e uma fina argúcia, que lhe permitem olhar para os homens, e junto deles lidar, com a confiança medida, com uma certa distância, com discrição, prudência e impassibilidade. E, também nisto, revela-se nele mais um traço do homem de Estado.

Ele não estava velho quando deixou o governo, mas deixou-o para logo morrer. O organismo do grande soldado arruinara-se na vigília. Não é fácil tarefa mudar o rumo da história.

A última lição de Floriano Peixoto é, pois, uma lição de sacrifício. Ele merece o nosso amor. A respeito dele, podíamos repetir aquela bela frase com que Machiavel se referiu a Savonarola: “…d’um tanto uomo se ne debbe parlare com riverenza”.

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