Economia Mundial: o risco da estagflação

    O triunfo da morte, pintura de Pieter Bruegel, O Velho, (Bélgica? - 1569).

    Em 2021, o economista americano Nouriel Roubini, famoso por alertar, em 2005, para os riscos do mercado imobiliário americano que desaguaram na crise financeira global de 2008 mostrou, em dois artigos publicados no site Project Syndicate, respectivamente em abril e junho de 2021 – The Looming Stagflationary Debt Crisis (junho de 2021) e Is Stagflation Coming? (Abril de 2021) – que “as proporções da dívida são muito mais altas do que na década de 1970, e uma mistura de políticas econômicas frouxas e choques negativos de oferta ameaçam alimentar a inflação em vez de deflação, criando o cenário para a mãe das crises de dívida estagflacionárias nos próximos anos”.

    Naquela ocasião a visão dominante no governo americano e entre a maioria dos economistas alinhados com a Casa Branca era de que a inflação, que durante mais de uma década permaneceu abaixo da meta dos 2% fixada pela maioria dos bancos centrais, consistia em um fenômeno temporário que iria desaparecer assim que os gargalos de oferta provocados pela pandemia da Covid-19 acabassem. Não foi, porém o que aconteceu e a previsão de Roubini, uma espécie de Cassandra entre os economistas parece estar com boas chances de se realizar.

    Conforme o jornal Valor Econômico (08/06), “O Banco Mundial reduziu significativamente sua previsão de crescimento da economia global para este ano, alertando para vários anos de inflação alta e de fraco crescimento que lembram a estagflação da década de 1970”. Segundo David Malpass, presidente do Banco Mundial, “Vários anos de inflação acima da média e um crescimento abaixo da média parecem prováveis agora. (…) O risco de estagflação é considerável.” Ainda segundo o jornal, “Malpass disse que muitos países terão dificuldades em evitar a recessão, num momento em que o crescimento é castigado pela guerra na Ucrânia, por lockdowns na China ligados à pandemia e pela desestabilização das cadeias de suprimentos”.

    Ao se traçar um paralelo entre a crise atual e a do final da década de 1970, coincidentemente provocada por um choque no fornecimento de petróleo, causado, naquela ocasião, pela reação dos países árabes à Guerra do Yom Kippur, em 1973, e pela Revolução Iraniana, em 1979, é inevitável que venha à mente as consequências do aumento de juros nos Estados Unidos, determinado pelo então presidente do FED, Paul Volcker, sobre os países em desenvolvimento. Na América Latina, o choque de juros desencadeou a crise das dívidas externas, que se iniciou pelo México e se expandiu por toda a região, levando à chamada “Década Perdida” nos anos 1980.

    As condições atuais são outras, mas o risco de o mundo ficar preso durante um longo tempo na armadilha de inflação elevada com baixo crescimento é real. Como o diretor-geral adjunto do Banco Internacional de Compensações (BIS, na sigla em inglês), ex-diretor do Banco Central brasileiro e ex-secretário de Política Internacional do Ministério da Fazenda no primeiro governo Lula, Luiz Awazu Pereira da Silva, afirmou em entrevista ao jornal Valor Econômico (27/6), “Hoje existem várias incertezas sobre a evolução da economia global”. Awazu lembra que tivemos dois choques muito grandes e sucessivos que foram a Covid-19 e agora a guerra na Ucrânia. Diante de um cenário altamente complexo, ele lembra que é difícil ter uma projeção clara de como vão evoluir os preços de commodities e de energia, ou se veremos um agravamento do processo de interrupção de ofertas de algumas dessas matérias-primas. Lembra ainda que “já havia um processo de alteração de algumas cadeias produtivas globais em curso. Ou seja, alguns dos ganhos de produtividade que nos permitiram reduzir custos nas décadas passadas estão sendo revisitados ou repensados por conta de considerações de segurança nacional, de independência energética ou relacionadas à duração do conflito na Europa”.  Todos esses elementos permitem, segundo Awazu, “pensar em um cenário de risco de a inflação ficar elevada por um tempo mais prolongado, sem que haja crescimento através de novos investimentos por conta de uma retomada da confiança e da estabilização”. Ou seja, embora as condições atuais não sejam as mesmas da década de 1970, não é possível descartar o risco da estagflação. A Secretária do Tesouro dos Estados Unidos, Janet Yellen, em maio, também lembrou que “O aumento dos preços dos alimentos e da energia estão tendo efeitos estagflacionários, ou seja, estão deprimindo a produção e os gastos e elevando a inflação no mundo todo” (Valor, 08/06).

    Luís Antonio Paulino é professor associado da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e membro da equipe de colaboradores do portal “Bonifácio”.

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