Dólar forte, fome e medo de recessão global

    A economia dos Estados Unidos passa por um agressivo aperto monetário na tentativa de controlar a alta da inflação, enquanto a Europa segue fragilizada pelos efeitos da guerra entre a Rússia e a Ucrânia. A China registrou sua taxa de crescimento mais fraca em mais de dois anos. Em abril, o produto interno bruto chinês expandiu-se a uma taxa anual de 0,4% no período de abril a junho, conforme informou Bureau Nacional de Estatísticas da China. À medida em que os principais motores da economia mundial começam a falhar, o receio de uma recessão global aumenta. O preço do petróleo, que no final de junho estava sendo vendido a quase US$ 120 o barril, despencou, em menos de um mês, para a casa dos US$ 90, refletindo a preocupação de que a economia global esteja caminhando para uma nova recessão.

    Os problemas que a indústria mundial de semicondutores está enfrentando, embora tenham múltiplas causas, também são reflexo das perspectivas menos otimistas sobre o desempenho da economia global. Conforme relata a revista The Economist, de 15/07, depois de investirem US$ 92 bilhões no ano passado no aumento da capacidade de produção e prometerem mais US$ 210 bilhões nos próximos anos, as três gigantes do setor – a TSMC, de Taiwan, a americana Intel e a Samsung da Coreia do Sul – anunciaram cortes nos investimentos e queda nos lucros. Segundo a matéria, em 14 de julho, a TSMC disse que investiria menos do que previa e a Samsung alertou para a paralisação dos lucros. Em junho, a Micron Technology, fabricante americana de chips de memória, previu vendas de US$ 7,2 bilhões no terceiro trimestre, um quinto menor do que o esperado. Depois de uma corrida desesperada por microchips no ano passado, na medida em que a demanda por carros e outros produtos que utilizam esses dispositivos eletrônicos aumentava e a pouca oferta fazia disparar os preços, a indústria teme, agora, uma crise de superprodução no setor. Isso está se refletindo na perda de capitalização das fabricantes mundiais de chips, cujas ações caíram cerca de um terço este ano.

    Outro importante fator que contribui para a piora das perspectivas globais é a valorização do dólar em relação a praticamente todas as moedas do mundo, fenômeno que sempre ocorre em momentos de crise, quando os investidores procuram refúgio na moeda americana para se proteger das turbulências globais, nomeadamente quando o banco central americano, o FED, eleva as taxas de juros, como ocorre agora. Conforme destaca o jornal New York Times (16/07), “‎O valor do dólar americano é o mais forte em uma geração, desvalorizando moedas em todo o mundo e perturbando as perspectivas para a economia global, pois acaba com tudo, desde o custo de férias no exterior até a rentabilidade de empresas multinacionais.”

    Como lembra a mencionada matéria, ‎o dólar lubrifica a economia global. Cerca de ‎‎90% de todas as ‎‎ ‎‎transações cambiais‎‎, representando US$ 6 trilhões em atividade todos os dias, são feitas em dólar. Embora ‎empresas sediadas fora dos Estados Unidos possam ter suas vendas reforçadas pelo dólar forte,‎ o fato é que um dólar mais caro tende a reduzir o dinamismo da economia global como um todo e elevar a taxa de inflação fora dos Estados Unidos. Um dólar valorizado afeta negativamente atividades como o turismo, além de reduzir a lucratividade das empresas que faturam em dólares, como as empresas norte-americanas com muitas operações no exterior e empresas multinacionais, cujos preços ficam mais caros e as vendas e o faturamento tendem a cair. ‎Os lucros tanto da Microsoft quanto da Nike, por exemplo, recentemente despencaram. Ainda segundo o NYT, ‎Ben Laidler, estrategista de mercados globais da eToro, estima que a alta do dólar reduzirá 5% do crescimento dos lucros das empresas do S&P 500 este ano, ou cerca de US$ 100 bilhões.‎

    ‎Empresas e países altamente endividados em dólares, como é o caso de muitos países em desenvolvimento, também são afetados negativamente com um dólar mais forte, provocando falências e inadimplência da dívida soberana, reduzindo as perspectivas de crescimento da economia global. Casos recentes como a inadimplência da dívida externa do Sri Lanka, largamente noticiados pela imprensa, e de Zâmbia, são apenas os primeiros casos que podem alcançar nos próximos meses outros países em desenvolvimento.

    Por último, mas não menos importante, temos a elevação do risco da fome, em escala mundial. A desenfreada inflação dos alimentos, causada não só pela Guerra na Ucrânia, mas também pela valorização do dólar, está castigando os países menos desenvolvidos do mundo e afeta as pessoas mais pobres nos países ricos. Conforme relata o jornal Valor Econômico (11/07), “A Matsentralen Norge, um banco de alimentos da Noruega, país rico em petróleo, diz que está distribuindo 30% mais alimentos, na comparação com igual período de 2021, um ano que, por sua vez, também tinha assistido a um crescimento significativo da demanda devido à pandemia de Covid-19. O uso de bancos de alimentos está em alta nos EUA também, onde supermercados relatam que os clientes estão recorrendo a produtos de marcas mais baratas e evitando carnes e peixes mais caros”. Ainda segundo a matéria, “Em pesquisa publicada em maio, a instituição detectou um salto de 57% na proporção de famílias britânicas que estavam cortando alimentos ou suprimindo refeições. A pesquisa apurou que 7,3 milhões de adultos em abril viviam em famílias que disseram ter ficado sem alimentos ou não ter conseguido obtê-los fisicamente no período de 30 dias anterior”.

    Em escala global, como lembra matéria do jornal Valor Econômico (06/07), “Quase uma em cada dez pessoas no planeta vive em condição de fome. Em apenas dois anos – de 2019 a 2021–, a fome afetou mais 150 milhões de pessoas, atingindo a cifra brutal de até 828 milhões de seres humanos. No mundo, 22% das meninas e meninos sofrem de desnutrição crônica. 56,5 milhões de latino-americanos e caribenhos fazem parte daqueles que regularmente deixam de consumir alimentos que lhes forneçam o mínimo de energia que um ser humano precisa para manter uma vida normal; isto é, vivem em estado de subalimentação, ou seja, passam fome. 93,5 milhões de pessoas vivem em situação de insegurança alimentar grave e 267,7 em insegurança alimentar moderada ou grave. No total, quase quatro em cada 10 habitantes da América Latina e do Caribe não conseguem se alimentar de forma suficiente”

    Luís Antonio Paulino é professor associado da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e membro da equipe de colaboradores do portal “Bonifácio”.

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