Cúpula das Américas evidencia a falta de propostas dos Estados Unidos para a região

    A Cúpula das Américas realizada no início de junho em Los Angeles só serviu para evidenciar a mais absoluta falta de propostas e de engajamento dos Estados Unidos com os países da região, nomeadamente a América do Sul e a América Central. Apesar do esforço de última hora para garantir a presença do Brasil no evento, a cúpula foi um fiasco. Concebida como oportunidade para reafirmar a liderança dos EUA e contrapor o crescimento da influência econômica da China na região, a cúpula só serviu para mostrar a total falta de propostas e de comprometimento com os países mais pobres do hemisfério. A agenda do encontro não incluiu acordos comerciais e se limitou a temas como imigração, meio-ambiente e consolidação democrática.

    A decisão do presidente Joe Biden de não convidar Cuba, Nicarágua e Venezuela, levou o presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, em protesto, a boicotar o evento, no que foi seguido pelo presidente da Bolívia, Luis Arce. “Não será uma Cúpula das Américas se não tiver a participação de todos os países do continente”, disse López Obrador. “Isso seria continuar com a velha política intervencionista, de desrespeito às nações e seus povos.” Honduras, Guatemala e El Salvador, cientes de que a única coisa que de fato interessava aos norte-americanos era o problema da migração, também se negaram a participar, sabendo, de saída, que seriam o prato principal a ser servido no evento pelos anfitriões americanos, caso comparecessem.

    Para evitar que o encontro fosse um fiasco ainda maior, a diplomacia americana fez gestões junto ao Brasil para garantir a presença do presidente Jair Bolsonaro. Para salvar a pele de Biden, Bolsonaro aceitou participar, na condição de ter uma reunião privada com o presidente americano. Considerado uma presença indesejável pela maioria dos chefes de governo no Ocidente, uma foto ao lado de Biden era importante para lustrar sua biografia e turbinar sua campanha pela reeleição. Aproveitou a ocasião para repetir sua catilinária contra as urnas eletrônicas e o processo eleitoral brasileiro.

    Além de evidenciar a já bem conhecida dupla moral norte-americana que faz defesa intransigente da democracia para consumo externo, mas adota uma política pragmática quando o que está em jogo são seus próprios interesses, ficou claro que os Estados Unidos não têm nenhum compromisso com os demais países do hemisfério e que sua única preocupação é evitar que multidões dos deserdados da Terra cruzem o Rio Grande na esperança de também sonhar o Sonho Americano. No mesmo dia do início da Cúpula, milhares de migrantes partiram do sul do México, caminhando pelas rodovias mexicanas em uma gigantesca caravana de mais de 6.000 pessoas em direção aos Estados Unidos, com chance zero de lá chegar, pois acabaria dispersada pelas autoridades muito antes de chegar à fronteira.

    Preocupados em não ter que depender de uma cadeia de suprimentos vinda da China, os americanos falam em criar uma cadeia de suprimentos aqui nas Américas, mas, além das palavras, não há nada de concreto. O México seria, em tese, o país que poderia mais se beneficiar com esse movimento de reorganização das cadeias de suprimento. Mas nada aconteceu até agora. Como notou o Financial Times (02/07), “Entre 2018 e 2021, a proporção de produtos manufaturados importados para os EUA do México mal mudou, de acordo com os dados compilados pela consultoria Kearney.. Em vez disso, as recompensas do boicote na China foram colhidas por concorrentes asiáticos de baixo custo, incluindo Vietnã e Taiwan. Os países asiáticos além da China aumentaram sua participação nas importações de produtos fabricados nos EUA de 12,6 % para 17,4 % no período”.

    No discurso de abertura da cúpula Biden falou de forma genérica sobre uma “Parceria das Américas para a Prosperidade Econômica”, mas, pelo que apurou a imprensa, trata-se, ainda, de uma ideia totalmente vaga. Segundo informou a agência Reuters, em matéria publicada no jornal Valor (09/06), “[a proposta] não oferece reduções de tarifas, e, segundo essa fonte, focará inicialmente em “parceiros com posições políticas parecidas” que já tenham acordos comerciais com os EUA”.  Em um evento paralelo à cúpula, organizado pela Câmara de Comércio dos EUA em Los Angeles, Biden apelou para que os líderes empresariais americanos ajudem a impulsionar seu plano de parceria econômica ambientalmente sustentável com a América Latina. Prometeu facilitar um crédito de US$ 50 bilhões nos próximos cinco anos para apoiar as metas climáticas nas Américas.

    Na mesma ocasião, em uma crítica velada à China, afirmou que “queremos garantir que nossos vizinhos mais próximos tenham uma escolha real entre o desenvolvimento da armadilha da dívida que se tornou… cada vez mais comum na região e a abordagem transparente de alta qualidade para investimento em infraestrutura que proporciona ganhos duradouros para trabalhadores e famílias.” Cinismo puro, sem nenhum fundamento. A dívida externa dos países da região está quase totalmente nas mãos de bancos americanos e instituições multilaterais como o Banco Mundial e o FMI. A crise da dívida externa, na década de 1980, que levou à chamada “Década Perdida” em toda a região, foi provocada pelo aumento de juros nos Estados Unidos.

    A verdade é que os Estados Unidos, apesar dos laços econômicos e culturais com seus vizinhos no hemisfério, não têm, ao contrário da China, um projeto de parceria para a região. Sua única preocupação em relação aos seus vizinhos do sul é conter a imigração ilegal. A vantagem chinesa se dá porque, diferentemente dos Estados Unidos, a China tem uma política clara para a América Latina baseada no aprofundamento da cooperação econômica e política. A China, como país em desenvolvimento, coloca-se como aliada natural da América Latina na luta pelo desenvolvimento e apresenta seu vitorioso modelo como alternativa a ser emulada.    Excluindo o México, o fluxo comercial total (importação e exportação) entre a América Latina e a China atingiu quase US$ 247 bilhões no ano passado, bem acima dos US$ 174 bilhões com os EUA.

    Luís Antonio Paulino é professor associado da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e membro da equipe de colaboradores do portal “Bonifácio”.

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