As consequências inflacionárias de desglobalização

    Depois de anos sem frequentar as manchetes, eis que a inflação deu novamente as caras. Nos Estados Unidos subiu para 9,1% acumulados nos últimos 12 meses. Na Zona do Euro, a inflação de 12 meses atingiu o nível mais alto da história. Segundo dados divulgados pela Eurostat, a agência de estatísticas da UE (União Europeia), em 19/07, a inflação anual do bloco foi de 9,6% em junho de 2022.  Na Inglaterra, bateu em 9,4%.

    Quando se trata de achar os “culpados”, os dedos geralmente são apontados para a pandemia da Covid-19 e, mais recentemente, para a Guerra na Ucrânia. Há, entretanto, um outro vilão nessa história a respeito do qual se fala menos: a desglobalização. Surgida bem antes da pandemia e da guerra, o movimento de desglobalização ganhou força a partir de 2016, quando Donald Trump elegeu-se presidente nos Estados Unidos. Preocupados com o fato de a maioria das cadeias globais de suprimento de insumos industriais estarem centradas ou passarem pela Ásia e principalmente a China, os norte-americanos desencadearam uma guerra comercial contra o gigante asiático com o objetivo de reduzir seu déficit comercial e forçar empresas a voltarem a produzir nos Estados Unidos.

    Não conseguiram, pelo menos até agora, nem uma coisa, nem outra, mas ao tumultuar os fluxos internacionais de comércio que, com a eclosão da pandemia da Covid-19, ficou ainda mais complicado, contribuíram de forma decisiva para a desarticulação das cadeias globais de suprimento que haviam se estabelecido desde o início do século 21 com o avanço da globalização produtiva e a entrada da China na OMC, em 2001.

    De uma disputa por causa do déficit comercial e empregos, a ofensiva norte-americana transformou-se em guerra tecnológica para impedir a China de alcançar o estado da arte no setor de alta tecnologia, nomeadamente na produção de microprocessadores. Além das tarifas punitivas contra os produtos chineses, o governo americano proibiu a exportação para a China de chips de memória mais avançados que são insumos essenciais para a produção de telefones celulares, equipamentos para as redes 5G e outros produtos de alta tecnologia. Além de proibir as empresas americanas, como a Intel, ADM, Qualcomm, Micron, dentre outras, de exportar esses microprocessadores mais avançados para a China, obrigou fabricantes de outras localidades, como TSMC, de Taiwan, e a Samsung, da Coréia do Sul a fazerem o mesmo. Também obrigou a ASML, monopolista holandesa no mercado para as máquinas de litografia usadas para gravar chips de ponta, cujas vendas para a China representam 15% de seu faturamento, a parar de vender equipamentos para o mercado chinês.

    Isso desorganizou o mercado mundial de microprocessadores e está por trás da crise pela qual o setor está passando nos últimos meses. Ao forçar um surto de investimentos de US$ 92 bilhões, só em 2021, das três gigantes do setor – TSMC, Intel e Samsung – em território americano e na Alemanha, para não mais depender de importações da Ásia, de onde vêm 75% dos chips utilizados nos Estados Unidos, e, ao mesmo tempo, proibir que essas empresas exportem para a China, que representa seu principal mercado, os Estados Unidos estão provocando um excesso de produção que desorganizou o setor, com aumento dos custos e a queda no faturamento e nos lucros dessas empresas. Como destacou matéria da revista The Economist (15/07), Morris Chang, ex-presidente da TSMC, chamou a tentativa dos Estados Unidos de restaurar a produção de chips em seu território de “exercício de futilidade”, apontando para altos custos e a falta de experiência em engenharia.

    Além disso, o Congresso dos Estados Unidos está discutindo uma Lei de ‎‎chips‎‎, que, se promulgada, dará à indústria até US$ 52 bilhões ao longo de cinco anos em subsídios e bolsas de pesquisa e desenvolvimento (‎‎P&D‎‎). ‎‎A União Europeia criou sua própria ‎‎versão e‎‎ oferece 43 bilhões de euros até 2030 para estimular a produção local. Índia, Japão e Coreia do Sul têm esquemas semelhantes, assim como a ‎‎China‎‎, que lançou uma política de semicondutores em 2014. Tudo isso faz sentido se as pessoas estiverem dispostas a pagar mais pela produção local de uma mercadoria que custaria menos se fosse importada. Querer as duas coisas é impossível.

    Martin Wolf, principal comentarista econômico do jornal inglês Financial Times, afirma em artigo no qual aponta os “grandes erros dos antiglobalizantes” (1 – só olhar para o comércio, quando na verdade as maiores crises estão sendo geradas pelos movimentos de capitais; 2 – acreditar que a era da globalização tenha sido um desastre econômico quando, na verdade, a desigualdade diminuiu e a parcela da população em condição de pobreza extrema declinou de 42%, em 1981, para 8,6%, em 2018; 3 – acreditar que a crescente desigualdade em alguns países de alta renda, principalmente os EUA, é principalmente o resultado da abertura ao comércio ou, pelo menos, uma consequência necessária de tal abertura), que o quarto erro “é a suposição de que uma maior autossuficiência poderia ter protegido as economias das recentes interrupções da cadeia de suprimentos, a um custo modesto. Para alguém cujo país foi forçado a uma ‎‎semana de três dias‎‎ por uma greve de mineiros em 1974, isso nunca pareceu plausível. A recente escassez de fórmula alimentar para bebês nos EUA é outro exemplo. Uma maior diversificação da oferta faz sentido, embora possa ser cara. O investimento em ações também pode fazer sentido, embora isso seja igualmente caro. Mas a ideia de que teríamos flutuado através de Covid-19 e suas consequências se cada país tivesse sido autossuficiente é ridícula.”

    Shan-Jin Wei e Tao Wang, respectivamente da Universidade de Colúmbia e do Banco UBS de Investimento, ao analisarem o tema em artigo publicado no site Project Syndicate (13/7), afirmam: “‎Ao permitir que as importações de baixo custo substituíssem produtos domésticos mais caros, a globalização teve um ‎‎impacto desinflacionário‎‎ direto nas economias avançadas. Também ajudou a tornar os bens produzidos internamente mais competitivos e enfraqueceram o ‎‎poder de barganha‎‎ dos trabalhadores. ‎Mas, ao lançar uma série de ‎‎guerras comerciais‎‎ – e especialmente por tarifas sobre as importações da China durante 2018 e 2019 – o presidente dos EUA, Donald Trump, deu um golpe mortal na globalização. As ações de Trump aumentaram os preços dos EUA direta e indiretamente. O efeito direto é que as famílias dos EUA devem agora ‎‎pagar substancialmente mais‎‎ pelos produtos chineses. As consequências indiretas incluem preços mais altos das importações dos EUA de outros países e de outros bens e serviços.”

    Luís Antonio Paulino é professor associado da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e membro da equipe de colaboradores do portal “Bonifácio”.

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