As consequências do bloqueio econômico contra a Rússia

    O cavaleiro na Encruzilhada. Viktor Vasnetsov (Kirov, Rússia, 1848 - Moscou, 1926).

    Relutantes em entrar diretamente no conflito entre a Rússia e a Ucrânia por temer que a guerra se expanda por toda a Europa, os Estados Unidos e seus aliados na Otan optaram por pressionar a Rússia por meio das mais draconianas sanções econômicas já impostas a algum país. Além de congelar todos os ativos russos depositados no exterior, os Estados Unidos e seus aliados procuram estrangular a economia russa, impedindo o país de realizar qualquer tipo de transação com o exterior por meio dos sistemas de pagamentos que utilizam o dólar e o sistema bancário do Ocidente para o fechamento dos negócios.

    Desde o início do conflito entre a Rússia e a Ucrânia, em 24 de fevereiro, os EUA e a Europa impuseram mais de 10.000 sanções a Moscou. Desde o corte dos bancos russos da Swift, até a proibição de novos investimentos, com o objetivo de causar turbulências financeiras e políticas domésticas na Rússia. “Desde fevereiro, informa Thomas Friedman, em artigo publicado no jornal o Estado de S.Paulo em 02/06, “a UE impôs cinco pacotes de sanções contra a Rússia — sanções que não apenas castigam gravemente a Rússia, mas que também são custosas para os países do bloco europeu, em termos de negócios perdidos ou custos maiores de matérias-primas. Um sexto pacote, acordado na segunda-feira [30/5], cortará cerca de 90% das importações da UE de petróleo russo até o fim deste ano e excluirá o Sberbank, maior banco da Rússia, do SWIFT, o vital sistema internacional de mensagens financeiras”.

    Esse isolamento da economia russa, grande exportador mundial de trigo, petróleo, gás natural e fertilizantes, está provocando mais problemas para o resto do mundo do que à própria Rússia. Sem alternativa imediata para substituir o gás natural importado da Rússia, cujo fornecimento depende da existência de uma rede de gasodutos para o seu transporte até os países importadores, os preços da energia dispararam na Europa, ameaçando jogar a União Europeia na estaginflanção. Não é tão fácil para os países europeus encontrarem fornecedores alternativos de energia para petróleo e gás russos. A Rússia é o terceiro maior produtor mundial, depois dos EUA e da Arábia Saudita, e cerca de metade de suas exportações de petróleo foram para a Europa antes do anúncio das sanções. A Eslováquia e a Hungria receberam 96% e 58% de suas importações de petróleo, respectivamente, da Rússia no ano passado, de acordo com a Agência Internacional de Energia (IEA). A proibição de exportação do trigo e fertilizantes russos está ampliando a insegurança alimentar mundial, provocando a disparada dos preços dos alimentos e o aumento do já elevado número de pessoas que passam fome em todo o planeta.

    Para se defender desse estrangulamento, os russos estão exigindo o pagamento em rublos para os países que queiram continuar a receber o seu gás natural; alguns países europeus com grande dependência do gás natural russo, como Alemanha, Itália e Hungria não tiveram alternativa a não ser aquiescer às exigências russas e abrir contas em rublos em bancos russos para fazer o pagamento e manter o fornecimento do gás. O resultado disso foi uma expressiva valorização do rublo frente ao dólar nas últimas semanas, o que evidencia que as sanções econômicas estão sendo, no mínimo, contraproducentes.

    Conforme informou o jornal Global Times (23/5), “As empresas alemãs e italianas, que estão se aproximando de prazos para pagar por seus suprimentos de gás da Rússia, foram informadas de que poderiam abrir contas de rublos para continuar comprando gás russo sem violar sanções contra Moscou, informou a Reuters na sexta-feira [20/5]. No mesmo dia, o rublo russo subiu aos níveis mais fortes contra o euro e o dólar desde junho de 2015 e março de 2018, respectivamente”.

    No entanto, as sanções propostas da UE ao setor de energia da Rússia encontraram mais resistência dentro do bloco. Alguns países membros acreditam que o embargo deve ser feito por outros países que não pertencem à UE, como o Reino Unido e os EUA. O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, disse que seu país não bloqueará as sanções da UE contra a Rússia, desde que não representem riscos para a segurança energética da Hungria.

    Empresas europeias e americanas que estão sendo forçadas a encerrar suas operações na Rússia não devem estar muito satisfeitas, mesmo porque, no mercado, não existe espaço vazio e a tendência é que o espaço deixado por essas empresas seja ocupado por suas concorrentes locais ou estrangeiras. Conforme informou o jornal Valor Econômico (17/05), “a Renault está “vendendo” toda a sua operação russa, incluindo a participação na Avtovaz, fabricante dos carros Lada, por dois rublos. A decisão implica uma perda contábil de € 2,2 bilhões para o grupo francês. São necessários 64 rublos para comprar US$ 1”.

    Segundo o Wall Street Journal (17/5), a McDonald’s Corp., depois de suspender temporariamente suas operações na Rússia, em março, decidiu encerrar definitivamente suas operações no país devido a pressões, particularmente do governo ucraniano; a empresa vai se desfazer de seus 847 restaurantes na Rússia, que empregavam 62.000 pessoas. Ainda segundo o jornal, a Rússia e a Ucrânia, onde há 100 lojas da McDonald’s, atualmente fechadas, responderam por 9% das receitas da empresa em 2021. A McDonald’s informou que espera registrar uma perda contábil entre US$ 1,2 bilhão e US$ 1,4 bilhão e reconhecer uma perda significativa com transação em moeda estrangeira. Segundo informou a agência estatal russa TASS, as lojas da McDonald’s na Rússia irão reabrir em junho, com outra bandeira.

    Ainda segundo o WSJ, a Shell está saindo de seus negócios russos, em fases, dizendo que venderia seus postos de gasolina e negócios lubrificantes para a gigante russa Lukoil PJSC. A Shell disse que foi necessário registrar uma perda de US$ 3,9 bilhões relacionada à sua decisão de deixar a Rússia. A British Petroleum (BP) também informou que sairia de sua participação conjunta com a petroleira russa Rosneft, o que acarretará um prejuízo de US$ 25,5 bilhões. A gigante bancária francesa Société Générale SA disse no mês passado que sairia da Rússia, vendendo suas operações para uma das pessoas mais ricas da Rússia com um prejuízo de US$ 3 bilhões.

    Luís Antonio Paulino é professor associado da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e membro da equipe de colaboradores do portal “Bonifácio”.

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    1 COMENTÁRIO

    1. Muito bom dia Dr. Aldo Rebelo.

      O mundo vive um momento muito delicado. Ao pararmos para pensar nas vidas ceifadas, bem como nas cidades que foram destruídas por essa guerra, fica a pergunta: como parar esse conflito? Que o criador do universo tenha compaixão dessas nações e derrame a sua paz.

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