Arthur Friedenreich: um a zero para a mitologia!

    “Salvo o Imperador (D. Pedro II) não há ninguém neste deserto povoado de malandros […] os brasileiros não passam de mulatos da mais baixa categoria: Uma população toda mulata, com sangue viciado, espírito viciado e feia de meter medo […] Nenhum brasileiro é de sangue puro; as combinações dos casamentos entre brancos, indígenas e negros multiplicaram-se a tal ponto que os matizes da carnação são inúmeros, e tudo isso produziu, nas classes mais baixas e nas altas uma degenerescência do mais triste aspecto [e que] as melhores famílias têm cruzamentos com negros e índios. Estes produzem criaturas particularmente repugnantes.”

    (Arthur de Gobineau)

    Arthur de Gobineau, diplomata, escritor e filósofo francês, teórico do racismo, acreditava que a mestiçagem levaria à degenerescência da espécie humana.

    A estória que quero contar não tem como cenário o Segundo Reinado. Arthur Friedenreich fez história na República. Mais precisamente na República Velha, quando a República Velha ainda não sabia que um dia seria velha. No começo do século passado, uma mentalidade eugenista, liberal-darwinista e spenceriana, ainda gozava de pleno prestígio no Brasil. Além de primeiro grande ídolo do futebol Brasileiro, o craque seria um marco temporal e antropológico, a antítese e a refutação de Gobineau. El Tigre, alcunha que recebeu dos adversários uruguaios, possui uma biografia cercada de lendas e verdades míticas. Apenas um grande gênio é capaz de inspirar a verdade mitológica.

    O Campeonato Sul-americano de 1919 foi o primeiro grande título internacional do futebol brasileiro.

    Reza a lenda, muito mais consistente que a objetividade racional dos historicistas, que Arthur era filho de um rico comerciante alemão com uma brasileira negra. Friedenreich era um autêntico brasileiro, um mestiço, um mulato. Forte e vibrante, seu futebol era a expressão e a tradução genealógica da brasilidade: no começo, o futebol criou Arthur Friedenreich! O craque, por seu turno, fundou a tradicional escola de artilheiros do futebol brasileiro. A palavra artilharia, se fosse coerente, cederia seu lugar no léxico da língua portuguesa para o nome de Friedenreich.

    A numerologia dos gols afirma que o nosso Tigre fez mais de mil gols. Os contadores, estatísticos e burocratas do futebol apressam-se em negar – Friedenreich não fez mais do que duzentos, trezentos, quatrocentos!  Não se impressione com as mentiras! Fique com as verdades! Temos de negar o fantástico e a sua verdade! Repito: apenas um gênio é capaz de transcender a razão, de confundir os números, as contagens e as demais tolices dos escribas – apenas o gênio é capaz de provocar a inspiração mítica. Na ótica dos parvos, Perseu nunca decapitou a Górgona. Outra verdade: nosso craque foi capaz de feitos maiores que o de Perseu.

    Heitor, filho de imigrantes espanhóis e ídolo do Palestra Itália, futuro Palmeiras, o clube dos italianinhos discriminados de São Paulo, foi o companheiro de Friedenreich em 1919.

    Dono de um físico absoluto, como se fosse filho de Apolo e Nossa Senhora Aparecida, o Tigre possuía a aura e a postura estética de um herói epopeico. Di Cavalcanti, ao criar a Mulata de Olhos Verdes, certamente estava orientado pela gênese fantástica do nosso paladino dos gramados. Sua marca era a finalização certeira, a precisão, o rigor apolíneo; por outro lado, sua personalidade futebolística transmitia a calma e a maternidade protetora da Padroeira do Brasil.  Arthur protegia a bola como uma mãe protege um filho e, com a precisão de hábil caçador, acertava o alvo de forma imperante e vigorosa. Insisto: Friedenreich é o outro nome da arte de fazer gols!

    Em 1918, em plena pandemia, o Fluminense começava a erguer o primeiro templo do futebol nacional. O sagrado Estádio de Laranjeiras seria a sede do Campeonato Sul-americano de Seleções, a atual Copa América. Era a estreia do Brasil na organização de eventos esportivos internacionais. A Velha República possuía uma vantagem: nenhuma matilha de vira-latas tentou impedir a realização do certame. Apenas um gênio rebelde protestava, mas, para nossa sorte e prazer, o escritor protestava de forma literária. Nenhuma conspiração foi tramada contra o Estádio do Tricolor.

    Neco, o primeiro ídolo do Corinthians, estava ao lado de Friedenreich e iniciou a jogada do gol em 1919.

    O lendário templo foi concluído em 1919. No dia 11 de Maio, data da inauguração do estádio, o Brasil bateu o Chile pelo placar de 6 a 0 – Arthur anotou três gols. O craque era um desenvolvimentista; a pobre defesa chilena era um Chicago Boy. A estreia animou ainda mais o torcedor brasileiro. No começo do século XX, o futebol ainda lutava para ocupar o posto de paixão popular e, aos poucos, a campanha do escrete brasileiro ajudava a seduzir as massas. No segundo jogo, sem que o matador tivesse marcado, o Brasil venceu a Argentina – 3 a 1! O último e decisivo prélio seria contra o poderoso Uruguai, o então atual campeão do torneio – 2 a 2. O empate forçava o jogo extra, uma nova decisão. A igualdade do placar era como um prelúdio dramático.

    No jogo extra, a realidade resolveu debochar, esbanjar ironia. Em um País de grande abismo social, de profunda desigualdade, o placar repetia o empate, a igualdade plena – 0 a 0. Dois nadas, dois zeros eram proclamados ao fim do tempo normal. A aflição tomou o estádio. O público devorava as unhas dos pés e das mãos. Um véu de ansiedade cobria cada detalhe, cada acontecimento da partida – a capital do Brasil foi purgatório por um dia. Veio a prorrogação e, caprichosamente, a igualdade exibia outra vez o duplo nada. O zero a zero além de irônico era insistente.

    Pixinguinha e Benedito Lacerda compuseram o choro “um a zero” em homenagem ao título do Sul-americano de 1919.

    Diante da igualdade persistente, uma segunda prorrogação foi jogada. Todos estavam exaustos. O empenho físico e espiritual de ambas as equipes era sobre-humano – cada jogador era com um Fidípedes. Até que aos 3 minutos do infinito, Neco rompe pela direita e cruza para Heitor. Heitor finaliza, mas, como um Aquiles, o arqueiro uruguaio derrota a investida. A defesa do goleiro Saporiti, entretanto, foi apenas parcial. No rebote, Friedenreich marca o gol da vitória, do título, do primeiro grande triunfo do Futebol Brasileiro!

    Friedenreich viraria herói nacional, seria aclamado pelo generoso e mestiço povo brasileiro. Em sua homenagem, Pixinguinha e Benedito Lacerda compuseram o Choro ‘’um a zero’’. De acordo com uma antiga lenda, a música composta para o gol do artilheiro foi a primeira dedicada ao futebol. No começo do século XX, por suas origens, o Choro também era marginalizado. O leitor conhece a profunda comunhão entre a música e o futebol: ambos possuem o poder de dissipar os ódios e os preconceitos e, acima de tudo, promover a sonhada –e ainda não realizada- igualdade e comunhão nacional.

    Epitácio Pessoa, portador do equívoco sobre as raças, proibiu negros e mulatos de representarem o Brasil no exterior. A medida durou dois anos e foi revogada.

    Ainda em 1919, Epitácio Pessoa assinou uma lei federal que proibia que negros e mulatos representassem o Brasil em eventos internacionais. O fracasso foi retumbante. Amputado de si mesmo, o Brasil deu consecutivos vexames, perdia de forma patética e anêmica. Em 1922, a lei foi revogada e o Craque voltou a vestir a camisa da Seleção. No ano do centenário da independência do Brasil, o País foi novamente sede da competição continental. A Seleção levantou outra vez a taça e, ao mesmo tempo, a discriminação racial e social sofreu uma dura derrota – o futebol sinalizava para a necessidade da plena independência, para a plena realização do ideal de nação e de igualdade.

    O gênio de Lima Barreto não foi suficiente para compreender o significado do futebol para os negros, os mulatos e os mestiços brasileiros.

    Sobre o título, um outro mulato genial escreveria com profunda e equivocada ironia: “O Brazil, […] ficará celebre no mundo, desde que ganhe campeonatos internacionaes dessas futilidades todas. E, sendo assim, em breve apparecerá um Camões ou um Homero para rimar uma epopéa em louvor desses heróes esforçados, que nada fizeram para o benefício commum; mas que são glorias do Brazil.” Infelizmente, amigos, Lima Barreto estava enganado sobre o futebol e, na sua genialidade, ensina-nos uma grande lição: se o futebol é capaz de driblar os gênios, devemos perdoar também os tolos – até mesmo os de 2013!

    Viva o futebol brasileiro, o maior patrimônio esportivo de toda a história moderna!

    Viva Arthur Friedenreich, o Craque primordial! Um a zero para a mitologia!

    5 COMENTÁRIOS

    1. Eu tenho a dupla felicidade de acompanhar Felipe Quintas desde suas participações no Duplo Expresso e Teixeira em seu Laranjeiras Rádio e no Explosão Tricolor e constatar que nós tricolores, inúmeras vezes perseguidos pela mídia tradicional desejosa de outros projetos obscuros, somos a verdadeira raiz da brasilidade atribuída a um certo clube de regatas que, praticamente falido, se apoderou da narrativa nacionalista de Vargas ancorando seu nome ao Fluminense F.C.

    2. Quando comecei, ainda criança, a me apaixonar pelo futebol os nomes que mais eram citados por meu pai e outros mais velhos da época eram:
      Arthur Friendereich
      Domingos da Guia
      Leônidas da Silva
      Ademir Marques de Menezes
      Zizinho
      Claro que os vi jogar somente em pequenos trechos de filmes. Meu pai viu Ademir e Zizinho e os elogiava muito.

    3. Excelente e inspirado artigo do sempre ótimo Teixeira Mendes. Nesse Brasil construído por milhões e milhões de braços e de pés de todas as cores e origens, o mestiço Friedenreich, no templo sagrado erguido pelo tantas vezes campeão Tricolor das Laranjeiras, fez história e assentou a pedra angular da nossa identidade esportiva e cultural. Meus efusivos parabéns ao grande Teixeira Mendes, com quem tenho a honra e o privilégio de compartilhar a nacionalidade brasileira e a paixão pelo Fluminense F.C. Saudações brasileiras e tricolores a todos.

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