A Missão da Rússia na atual mudança de época

    A decisiva missão geopolítica da Rússia na encruzilhada civilizatória contemporânea.

    O livro “A Missão da Rússia na atual mudança de época”, organizado por Silvia Palacios e Lorenzo Carrasco, reúne uma série de textos: ensaios, artigos, entrevistas e discursos; todos relacionados a Rússia atual e seu papel geopolítico no mundo. Pode-se ler inclusive alguns discursos do presidente russo Vladimir Putin e um artigo do ministro russo das Relações Exteriores Sergei Lavrov, textos que por si só já tornam este um livro indispensável para todo estudioso interessado no papel geopolítico da Rússia.

    A síntese programática do livro é escrita por Lorenzo Carrasco, jornalista e geopolítico, em texto cujo o título é homônimo ao livro. Carrasco crítica uma agenda “unimundista” capitaneada por um sistema global financeiro e pela ideia do excepcionalismo estadunidense.

    Para Carrasco existe uma geopolítica mundial cujo propósito é limitar as soberanias nacionais e contra esta política de enfraquecimento de soberanias nacionais surge a Rússia, que não aceita ter sua soberania limitada pelos interesses hegemonistas dos Estados Unidos e do sistema financeiro mundial.

    Destaca-se, de acordo com o autor, o papel de Vladimir Putin “o maior estadista destas primeiras décadas do século” (p. 10), que, seja com sua política externa – principalmente na Síria – ou com o desenvolvimento de armas hipersônicas, coloca em cheque a ideia de um mundo unipolar controlado pelos Estados Unidos em favor de um mundo multipolar.

    No segundo texto introdutório “A Rússia não é comunista – Leiam este livro”, o cardeal Juan Sandoval Iñiguez, arcebispo emérito de Guadalajara-México, destaca o fato de que há muito a Rússia abandonou o comunismo. É normal, infelizmente, que na imprensa ocidental e na brasileira mais especificamente, a desinformação sobre a Rússia seja generalizada. Assim, este texto busca informar o que já deveria ser óbvio: a atual Rússia é um Estado cristão ortodoxo, onde impera um modelo de capitalismo não neoliberal.

    Vladmir Putin valorizou as tradições nacionais da Rússia e recuperou a capacidade de suas Forças Armadas.

    A partir de uma geopolítica religiosa, o Cardeal considera a Rússia como a terceira Roma, a primeira sendo a Igreja Católica e a segunda Constantinopla (o antigo Império Bizantino). Esta argumentação teológica será retomada no primeiro texto da primeira parte do livro.

    A primeira parte do livro se intitula “Propostas para uma Nova Ordem Mundial”, reunindo dez textos em praticamente dois terços do livro. O primeiro texto “A surpreendente política de Vladimir Putin”, de Pe. Alfredo Sáens é uma elegia à política de Putin, visto como talvez o único estadista atual preocupado com a defesa das tradições de sua pátria, do patriotismo e do cristianismo.

    Sáens considera que a “Rússia representa uma esperança para a Europa recuperar a sua soberania e salvaguardar os seus valores tradicionais” (p. 27), exorta a Rússia por sua política não liberal, pois esta doutrina “é diametralmente oposta ao cristianismo” (p. 37). Por fim, retoma a ideia da Rússia como a terceira Roma, e defende que os Estados Unidos não querem uma aproximação entre a primeira Roma (o Ocidente católico) e a terceira Roma (a Rússia Ortodoxa).

    Os três textos subsequentes apresentam pontos de vista sobre alguns temas atuais da geopolítica russa. Na entrevista “Como se chegar a um melhor entendimento entre ocidente e oriente”, o Dr. Ján Carnogurský fala sobre a importância do Clube de Discussões de Valdai para a Rússia e para a resolução de problemas globais. Os discursos de Putin neste livro foram justamente realizados nas reuniões deste Clube.

    No texto “A Geopolítica do Grande Tabuleiro de xadrez Eurasiático”, Silvia Palacios faz uma crítica à influência do pensamento geopolítico de Zbigniew Brzezinski nos Estados Unidos e à ideia predominante do autor de que haveria uma “zona de instabilidade” no Transcaucásio e na Ásia Central, que poderia ser usada contra as duas potências capazes de desafiar o hegenomismo norte-americano: Rússia e China. Já Elizabeth Hellenbroich no texto “O Veneno de Zbigniew Brzezinski nas Relações Europa-Rússia” faz uma crítica ao servilismo alemão frente à política norte-americana, e sua incapacidade de inaugurar uma nova era de relações de amizade e parceria com a Rússia.

    Pedro, o Grande (1672-1725), criou a Rússia moderna e abriu caminho para a presença do Império por ele governado no cenário mundial.

    Os quatro textos seguintes são discursos e artigos de Vladimir Putin, em que ele deixa clara sua visão geopolítica. O artigo “Um apelo à cautela vindo de Moscou” foi publicado no The New York Times em 2013; os textos “A Nova Ordem: novas regras ou jogo sem regras”, de 2014, e “Estado Nacional e Cultura”, de 2013, foram ambos discursos proferidos no Clube de Discussões de Valdai; e o artigo “Putin reafirma o renascimento cristão da Rússia” é o condensado de algumas falas do presidente russo sobre o cristianismo na Rússia atual.

    Catarina II (1729-1796) consolidou a expansão e assegurou a presença do Império Russo no xadrez geopolítico do mundo.

    Em síntese, nos quatro textos, Putin busca valorizar o sistema internacional de direito, tendo por central as Nações Unidas, e defender a emergência de um mundo multipolar. Critica o apoio do Ocidente a grupos terroristas na Síria, o abandono dos tratados de não proliferação nuclear, o desrespeito à soberania de diversos Estados, a aplicação de sanções econômicas para resolver problemas políticos e, por fim, exalta o novo papel da Rússia no eixo geopolítico Ásia-Pacífico.

    Putin destaca a Rússia como um Estado multiétnico e multiconfessional, ressaltando que este não é mais um Estado conservador fundamentalista (período dos Tzar), nem ideológico soviético (comunismo) ou ultraliberal (Boris Iéltsin); mas um novo Estado que busca garantir sua autodeterminação espiritual, cultural e nacional. Putin ressalta o fato de cada Estado ter o direito de construir sua própria identidade, mas que podem, ainda assim, buscar objetivos comuns de desenvolvimento.

    Para o presidente russo, seu país desenvolve uma consciência patriótica, em que todas as etnias e religiões russas estão presentes, pois a Rússia é em si uma civilização-Estado. Como nação, a Rússia deverá sempre preservar sua soberania, independência e integridade territorial, que são incondicionais. Por fim, elogia os professores como “guardiões dos valores, ideias e filosofia nacionais” (p.82), cujo papel é justamente a formação de pessoas educadas, criativas, e física e espiritualmente saudáveis.  

    A derrota de Napoleão Bonaparte pelo general inverno é uma lenda para reduzir o papel do Estado, da inteligência e do Exército russos. A neve alcançou o imperador francês em fuga das tropas do general Kutuzov.

    Este comentário de Putin me fez lembrar de uma pesquisa que mediu o papel social dos professores em diferentes países, equacionando salário e prestígio social. No caso a Rússia aparecia como um país que, apesar de os salários dos docentes serem relativamente baixos, há um grande prestigio social, o que atrai os jovens para a carreira. Nem é preciso dizer que o Brasil estava abaixo do esperado, tanto em salário quanto em prestigio social dos professores. O que explica os constantes fracassos do Brasil em avaliações como o PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes).

    O texto seguinte, “Uma nova Política Externa para a Rússia”, de Elisabeth Hellenbroich, é uma análise de como se desenrolarão as relações entre Rússia e União Europeia e do papel da Rússia na constituição de uma nova ordem mundial. A autora salienta entretanto que será na parceria euroasiática que a Rússia irá se destacar, por meio de organizações como a União Econômica Eurasiática (EAEU), Organização de Cooperação de Xangai (SCO) e Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN). 

    Por fim, para fechar esta primeira parte do livro, o décimo texto “Reflexões sobre um novo estágio do desenvolvimento internacional” é assinado por Sergei Lavrov, ministro das Relações Exteriores da Federação Russa.  Lavrov faz um breve estudo da história russa, retomando a ideia da Rússia como sucessora do Império Bizantino e defende o sistema westfaliano de relações internacionais, que garante a soberania dos Estados, criticando o intervencionismo ocidental.

    Para Lavrov, a Rússia teria como missão histórica “ser um elo entre Oriente e Ocidente” (p. 97). Destaca a necessidade de se respeitar uma “inegável pluralidade de modelos de desenvolvimento” (p. 102). Por fim, Lavrov cita o filósofo russo Ivan Ilyin que ponderou sobre o que torna uma nação uma grande potência. Para Ilyin “A condição de grande potência não é determinada pelo tamanho do território ou pelo número de habitantes, mas pela capacidade das pessoas e do seu governo de assumir o fardo de grandes tarefas internacionais e lidar com essas tarefas de forma criativa. Uma grande potência é aquela que, embora afirme a sua existência e os seus interesses, introduz uma ideia legal criativa e acomodativa para toda a comunidade de nações para o ‘concerto’ de povos e Estados” (p. 105).

    A segunda parte do livro compreende um bloco de texto intitulado “A Rússia e o Ocidente”, são três textos escritos por Elisabeth Hellenbroich: Rússia e Ocidente: um debate sobre sistemas de valores; Entendendo a Rússia: a luta pela Ucrânia e a arrogância do Ocidente e Sobre a política russa: propaganda e novos jogos de poder

    O primeiro texto, a partir de uma análise do texto de Sergei Lavrov, salienta o papel da Rússia na defesa de valores cristãos, soberania nacional e economia não consumista. Neste sentido explora o papel da Rússia na nova geopolítica pós-guerra fria. No segundo texto a autora analisa o papel da mídia na crise ucraniana da falta de compreensão do Ocidente quanto ao papel histórico que a Criméia tem para os russos.

    No terceiro texto desta seção, Hellenbroich crítica a política americana de “desestabilizar regiões cruciais do mundo” com a finalidade de “enfraquecer competidores” (p. 124). Comenta a crise ucraniana e apresenta a proposta de solução para o caso pelo estrategista russo Sergei Karaganov, proposta esta realmente muito interessante e que poderia resolver a crise definitivamente, sendo ao mesmo tempo benéfica para russos, ucranianos e europeus de forma geral.   

    A Rússia e a China deslocam o eixo econômico e geopolítico do mundo para a Eurásia.

    Um quarto texto: Nova Rota da seda: grandes mudanças para o mundo; é assinado por Mario Lettieri e Paolo Raimondi. Os autores destacam os investimentos, principalmente chineses, mas também russos e de outros Estados da Eurásia para compor a Iniciativa Cinturão e Rota, uma “ponte de desenvolvimento entre continentes” (p. 127), o “projeto do século” (p. 127), sendo que “as indústrias são a base da economia” (p. 127). Ao todo serão um trilhão de dólares investidos em mais de 900 projetos. Um projeto que certamente deslocará o polo de desenvolvimento econômico mundial para a Eurásia. 

    O Patriarca Kirill (Cirilo) retomou a presença da Igreja Ortodoxa Russa na tradição nacionalista e em defesa dos interesses geopolíticos da Rússia.

    A terceira parte do livro é dedicada à “Aproximação histórica dos dois pulmões do cristianismo”, composta por sete artigos: Encontro histórico entre o patriarca Kirill e o arcebispo Michalik e Esperança para o povo sírio após sete anos de guerra: reconstrução de igrejas e lugares sagrados, ambosde Elisabeth Hellenbroich; Francisco e Kirill fazem História em Cuba (sem autor); Um cardeal em Moscou: diplomacia para uma nova época, Francisco: parem de maltratar o Oriente Médio! e Rússia defende o cristianismo na Síria, textos de Silvia Palacios; e por fim Concerto em Palmira, grandeza do espírito humano contra o barbarismo, de Anno Hellenbroich.

    Os textos versam sobre dois temas principais: a aproximação entre a Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa Russa, e a guerra da Síria. Os autores em geral veem a aproximação entre as Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa Russa como um processo que pode levar a um fortalecimento da identidade russa e um alinhamento destas diferentes tradições cristãs em prol de uma nova política global.

    Os autores também alertam para o ataque terrorista ao Estado soberano Sírio, que violam o direito internacional, e colocou em risco a população cristã síria, que até então vivia muito bem sob o regime do estado pluriétnico e plurirreligioso sírio. As populações cristãs sírias foram salvas devido à intervenção russa, que assegurou a continuidade do governo de Assad.

    A hegemonia norte-americana ganha fôlego na servidão que desconhece o interesse nacional brasileiro.

    Em um País onde quase todas as informações, sejam livros, notícias de jornais ou documentários televisivos são pautados pela mídia hegemônica americanizada, este é um livro indispensável para sanar a desinformação geral que os brasileiros têm sobre a Rússia. “A Missão da Rússia na atual mudança de época” é um daqueles livros indispensáveis, tanto para os interessados na Rússia mais especificamente quanto para todos os que desejam compreender o cenário geopolítico atual.

    Referência:

    CARRASCO, Lorenço; PALACIOS, Silvia. A Missão da Rússia: na atual mudança de época. Trad. Geraldo Luís Lino. Rio de Janeiro: Capax Dei Editora, 2019.

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